Storytelling: Histórias que deixam marcas
Cidades e mais cidades, até um Estado totalmente seu
Às margens da mídia clássica, milhares de encenações da Paixão de Cristo acontecem em paróquias e escolas. Dentre as produções fora do eixo midiático convencional destacam-se performances turisticamente consagradas, como a que acontece no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, e a mais famosa do Brasil, em Nova Jerusalém, Pernambuco.
Mais profundo que todas essas manifestações é o grau de interseção da narrativa católica com os momentos marcantes da história de cada pessoa: nascimento (batismo), casamento (rito matrimonial) e morte (extrema-unção, cerimônias fúnebres, missa de sétimo dia, celebrações de finados). Pense na sua história, de quantas cerimônias cristãs você já participou. Agora pense nas obras de ficção que você já consumiu, quantas cenas de confissão, de funerais, quantos casamentos diante de altares você já viu em filmes e novelas, quantas personagens femininas realizaram seu sonho de entrar vestidas de noiva em uma igreja católica. Do momento mais íntimo ao mais público, do mais dramático ao mais festivo, a história contada pelo catolicismo quase sempre está presente.
Cidades e mais cidades, até um Estado totalmente seu
Não se pode pensar no Rio sem lembrar do Cristo Redentor, nem em Florença sem lembrar do Davi, de Michelangelo. Há cidades totalmente envoltas pela narrativa católica: Fátima, em Portugal; Lourdes, na França; Aparecida do Norte, no Brasil; Jerusalém, em Israel (cidade declarada santa por cristãos, judeus e muçulmanos). Há inúmeras cidades com nomes de santos. Só no Brasil são 2.500 localidades, entre elas o estado e a cidade mais ricos da América Latina: São Paulo.
E há um Estado sede do catolicismo. A fartura de plataformas do storytelling católico converge para o Vaticano, onde fé e arte se unem para não deixar nenhuma dúvida quanto à excelência de sua narrativa. O Museu do Vaticano reúne um acervo impressionante; a Basílica de São Pedro (maior do mundo) guarda, entre outras obras, a Pietà, de Michelangelo; e a Capela Sistina, inspirada no Templo de Salomão, tem, nos afrescos pintados por mestres da Renascença como Michelangelo, Rafael, Bernini e Botticelli, nada menos do que uma descrição da história da humanidade do ponto de vista bíblico. Sua imagem mais icônica, concebida por Michelangelo, nos apresenta o momento da criação do homem, quando Deus e Adão estendem as mãos para que seus dedos indicadores se toquem. Ironia profética: a representação pictórica do início da vida humana segundo os ensinamentos religiosos é, em última análise, digital.