Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 28 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Conflito — O poder dos vilões

Em uma representação gráfica, teríamos algo semelhante a montanhas-russas ou eletrocardiogramas, o que também ocorre com a chamada “curva dramática”, que, embora nem sempre siga o desenho rítmico da narrativa, varia em intensidade, favorecendo o envolvimento do público e o resultado emocional da obra como um todo.

Primeiro, define-se uma batida, depois, de acordo com o número de partes em que a obra é dividida, definem-se as possíveis variações. Começar bem é fundamental, terminar superbem idem. O segredo da boa narrativa é ser atraente no início e recompensadora no final, o que não é tarefa das mais fáceis. Se “Satisfaction”, sucesso dos Rolling Stones composto por Mick Jagger e Keith Richards, fosse uma história, teríamos um senhor começo que se mantém contagiante até o final. Fenômeno precioso e raríssimo, tanto na música quanto no storytelling. O desenho rítmico das melhores histórias geralmente segue a fórmula das grandes canções, como os hits dos Beatles “Yesterday”, “Help”, “Penny Lane”, entre tantos outros que habitam o playlist de milhões de pessoas: começo sedutor, miolo envolvente, final lá em cima.

Encaminhar a narrativa para um gran finale é o que todos esperam de um contador de histórias, e é com essa expectativa de recompensa que o público identifica o tom, degusta a melodia e entra na dança.

Com a palavra (em dois tempos), o consagrado escritor argentino Julio Cortázar:

 

Acho que o elemento fundamental ao qual sempre obedeci é o ritmo. Não é a beleza das

palavras, a melodia, nem as aliterações. O que me preocupa é a noção de ritmo.

O conto tem que chegar fatalmente ao seu fim, como chega ao fim uma grande

improvisação de jazz ou uma grande sinfonia de Mozart.

 

Conflito — O poder dos vilões

 

Foi Aristóteles quem disse: “Sem conflito não existe ação, sem ação não existe personagem, sem personagem não há história.” Ou seja, não existe história sem conflito. Mesmo que se passe no íntimo do protagonista, que seja a culpa que o leva a conflitar consigo mesmo, que seja uma doença, um vício, o enfrentamento da gula para perder peso, uma limitação como a gagueira de George VI em O discurso do rei. Fenômenos externos naturais, como furacões, tsunamis, vulcões, catástrofes diversas, como incêndios, naufrágios, a luta pela sobrevivência dos que se perdem na selva, em montanhas nevadas, não importa em que condições de adversidade, é sempre indispensável a presença do conflito. E ninguém melhor para conflitar do que um poderoso vilão.

O que seria de nós sem os vilões? São eles que nos desafiam e, nas narrativas clássicas, nos dão o prazer de vê-los derrotados. São eles que fascinam escritores, atores e diretores de cena, porque mexem tanto com nossos medos e são conduzidos por sentimentos tão sombrios que frequentemente se tornam mais humanos que os heróis. Não por acaso multiplicam-se os exemplos de histórias protagonizadas pelo vilão, ou por seu parente próximo, o anti-herói. E aumenta a demanda por heróis mais complexos, que ganham dimensão por seus conflitos internos e conquistam a identificação com o público graças a suas imperfeições.