Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 76 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Sua história é música

O que adiciona alguma complicação ao quadro é que hoje em dia tudo pode ser mídia.

 

Sua história é música

 

Mais uma vez, a música aparece neste livro. Agora como metáfora.

Imagine uma grande orquestra. Há instrumentos variados, cada um com sua partitura, tocando trechos que nem sempre coincidem, mas que se harmonizam e formam um conjunto poderoso.

Por mais que o piano soe diferente de violinos, flautas, metais, percussão etc, todos tocam a mesma música, dentro de suas características individuais, cada um dando o melhor de si na execução da obra.

Agora imagine essa orquestra gravada e reproduzida em todos os meios possíveis, da televisão ao ringtone, passando por rádio, internet, CDs, qualquer situação em que se possa encaixar uma música. E sempre cabe um videoclipe, cujo roteiro pode conter uma história interessante, talvez um novo Thriller ttà la Michael Jackson, que poderia permitir alterações feitas pelo público, em um grau de interatividade que, se ampliado, talvez desembocasse em um game, quem sabe?

Maior ainda se considerarmos que essa orquestra pode espalhar seus instrumentos por vários pontos da cidade, permitindo ao público que os encontre e os reúna como bem entender, e até que toque alguns deles, integrando-se ao espetáculo. Ou que, aprendendo a tocá-la e cantá-la, cada pessoa se sinta à vontade para executar seu próprio arranjo, levando nossa música a eventos fechados como celebrações em escolas ou pequenas reuniões de amigos. Curtindo-a cada um a seu jeito com invejável intimidade, a ponto de surgirem novos videoclipes postados no YouTube com arranjos e roteiros que jamais imaginamos, em um sensacional descontrole que espalha a ideia original de nossa música pelos quatro cantos do planeta.

É dessa amplitude de difusão que tratamos quando nos referimos a transmídia — uma inesgotável profusão de possibilidades.

 

Bing Bang

 

Não é todo dia que surge um Google. Muitos mecanismos de busca atuam na internet há algum tempo, mas só um disparou na frente. Conseguiu essa façanha por muitos motivos, mas o principal, a meu ver, foi demonstrar aos primeiros usuários que seus nomes também estavam lá. Essa foi a maneira como fui apresentado ao Google: “Tá tudo lá, eu, você... experimenta só”, disse-me um amigo. Digitei meu nome, depois de membros da minha família, e uau!, reverberei a mensagem: “Tá tudo lá... experimenta só.” Imagino quantas outras pessoas conheceram o Google do mesmo jeito. A experiência do usuário não tinha precedentes, daí seu sucesso avassalador. E no coração dessa experiência não está a história do mecanismo de busca, está a nossa. Foi o Google que nos colocou em pé de igualdade com vultos históricos e artistas, despertando em cada um o orgulho do biografado, até então reservado para poucos. Tornou-se um facilitador tão fantástico que, de uma hora para outra, já era indispensável. Não precisou criar nem contar sua história, apenas fez algo absolutamente revolucionário. Por isso, é o exemplo mais eloquente do que chamamos de Storydoer.

Diante desse Big Bang, um gigante como a Microsoft não tinha como se calar: lançou o Bing. O problema era chamar a atenção de um público ainda em lua de mel com o dono do pedaço.

A estratégia partiu de um livro. Muitos torceriam o nariz ao ver uma plataforma tão antiga sendo usada para atrair um target predominantemente jovem e encantado com tecnologia. Era a esperada biografia do rapper Jay-Z, intitulada Decoded. Em vez de lançar o Bing, a Microsoft lançaria o livro através do Bing, motivando a desejada experimentação que tantos bons frutos trouxe para o Google. Mas lançar um livro não é algo tão espetacular assim, e a leitura não está entre as atividades prediletas dos jovens... a menos que o livro se transforme em um jogo, diferente dos jogos a que estamos habituados, misturando on-line com off-line, literatura com música, cultura com tecnologia.

Cada página do livro foi colocada durante um mês em 13 diferentes cidades dentro e fora dos Estados Unidos, antes do lançamento oficial, buscando locais que contextualizavam a narrativa. O público foi surpreendido com as visões de um automóvel adesivado com uma página, uma embalagem de hambúrguer com outra, o feltro de uma mesa de bilhar, os pratos de um restaurante ou o fundo da piscina do Hotel Delano, em Miami, totalmente tomados pelas páginas que descrevem passagens do livro ligadas àqueles ambientes. Jaquetas da Gucci foram forradas com o texto de uma página, uma placa de bronze reproduziu outra página no Marcy Projects, local onde o biografado viveu momentos importantes de sua infância. Pontos de ônibus, cartazes e outdoors em geral também se juntaram à profusão de páginas expostas ao público. O livro ainda não havia sido lançado, mas já podia ser lido por aqueles que participassem do jogo. Tudo o que os participantes tinham a fazer é buscar na internet as pistas de onde estava cada página, localizá-la, guardar a imagem e depois colocar todas as páginas na sequência certa. Pronto: uma edição inovadora da obra que só algum tempo depois estaria disponível nas livrarias.

A iniciativa foi um grande sucesso, o que não significa a derrubada do Google ou sequer um abalo preocupante. Mas ninguém esperava resultado melhor do que sinalizar para o mundo que existe uma alternativa ao todo-poderoso buscador. Muitos outros capítulos ainda serão necessários para que o Bing conquiste maiores espaços.

O importante é que, além de mostrar sua capacidade de atender ao público em suas buscas, o Bing se apresentou como um player atrevido, antenado com o que acontece no universo pop, e capaz de transformar qualquer objeto ou superfície em mídia, com personalidade marcante e relevância cultural.