Storytelling: Histórias que deixam marcas
Narrativa é o nome do jogo
Com uma ideia clara na cabeça, tudo flui com mais naturalidade, tudo faz sentido e converge para uma narrativa bem-sucedida. Antes de escrever o “Era uma vez”, basta termos na ponta da língua a resposta a duas perguntas:
1. Sobre o que é a história?
Nesta análise, é comum confundir a ideia com o tema. São níveis de análise diferentes. Em uma história cujo tema seja, por exemplo, “as agruras da velhice”, a ideia pode ser “a vida cobra de nós os erros cometidos na juventude”. Em uma história sobre “amores impossíveis”, a ideia pode ser “vale a pena viver e morrer por amor”. O escritor Milan Kundera diz que “um tema é uma interrogação existencial”. Digamos que a ideia seja uma das possíveis respostas a essa interrogação.
2. O que a história tem de especial que a faz merecedora de ser
contada?
Aqui entra o fator diferencial, o ineditismo. Ideias absolutamente novas são cada vez mais raras, e já se disse que só Adão teve certeza de ser o primeiro a propor alguma coisa. Mas a forma de abordá-las ou alguns de seus aspectos relevantes precisam ser diferentes, para surpreender e despertar interesse no público. Todos estamos habituados a amores não correspondidos, litígios entre irmãos, esportistas que se desdobram para sair do ostracismo e voltar à glória, assassinos seriais com traumas de infância, famílias rivais que se consomem em atos de violência recíprocos, choques políticos, de gerações, de crenças, de posição social etc. Esses e outros temas continuam válidos, desde que as ideias que os embasem e a forma encontrada para discorrermos sobre eles tenham um toque de criatividade que cause impacto no público.
Com isso em mente (o que não é pouco), podemos seguir adiante, sem tanto medo das incertezas inerentes ao processo criativo, permitindo que a própria estrada nos ensine o que ainda não sabemos. Como diz E. L. Doctorow, “escrever um romance é como dirigir um carro à noite. Você só consegue enxergar até onde a luz dos faróis alcança, mas pode fazer a viagem inteira assim”.
Narrativa é o nome do jogo
Final de campeonato. Duas equipes entram em campo. Antes de chegarem até ali, enfrentaram diversos desafios, tiveram que superar vários adversários, sofreram reveses, e agora é tudo ou nada. Torcedores de ambos os lados roem as unhas. Alguns dos jogadores não estão no melhor de sua forma, outros nem puderam ser escalados por questões disciplinares ou contusões, há boatos em torno de negociações milionárias deste ou daquele atleta com clubes rivais. Os técnicos de cada time representam escolas estratégicas distintas: um adepto da pressão no ataque, outro convicto de que o melhor é ser forte na defesa para se lançar em contra-ataques rápidos e fulminantes. Tensão e excitação dominam a atmosfera em que todos esperam vencer, mas ao mesmo tempo temem pelo pior. E sobre toda essa excitação paira o “peso das camisas”, nome poético dado à história pregressa de cada equipe, suas conquistas e feitos heroicos, a mágica escondida na tradição, que pode exercer seus poderes a qualquer momento, sobre qualquer dos contendores. Estão lançados os elementos de uma boa narrativa.
Toda história é uma busca. Não conheço definição mais simples
do que essa, e infelizmente não sei quem a formulou; li em
algum lugar há bastante tempo, e ela grudou na minha cabeça.
Buscas pressupõem a existência de um objetivo (goal, em
inglês). Daí a analogia com o jogo, qualquer jogo. Daí o
entendimento imediato das paixões despertadas pelas
competições esportivas e pelas boas histórias. O que acontece
em uma luta de boxe se não o duelo final, onde se resolverá o
conflito insuflado pelas coberturas jornalísticas e por declarações
provocativas cada vez mais comuns entre os lutadores? Touro
Indomável, Rocky e sua longa sequência, quantos filmes já foram
produzidos mostrando os dramas de boxeadores, com o clássico
desfecho que se assemelha ao que vemos nas grandes disputas
de cinturões? A questão narrativa é tão bem demonstrada no
esporte que até no wrestling, lucha mexicana ou telecatch, como
ficou popularizado no Brasil há algumas décadas, ela se
manifesta com extraordinária veemência. Nessas lutas,
personagens, claramente definidos como heróis e vilões, se
enfrentam teatralmente, fantasiados segundo os papéis que
representam, encenando reviravoltas, burlando as “regras” e
fazendo com que a plateia se identifique com o protagonista e
torça por ele, mesmo sabendo que tudo aquilo é ficção.
Grandes clássicos da literatura foram escritos em doses homeopáticas publicadas em jornal (a principal mídia, antes da consolidação, primeiro, do rádio e, depois, da TV). E o frisson causado por suas histórias garantia a venda das edições posteriores. Todos queriam saber o que aconteceria nos capítulos seguintes, que destino aguardava aqueles personagens que gradativamente aumentavam sua intimidade com os leitores. Muito parecido com o fenômeno das telenovelas e dos seriados de hoje. Com o passar do tempo, mudou a mídia principal, mas o conteúdo que mobiliza o público continua sendo o mesmo: história.