Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 37 de 85

Páginas do PDF

Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 11: UMA LIVRARIA À BEIRA DO SENA

Capítulo 11

 

UMA LIVRARIA À BEIRA DO SENA

 

37 Rue de la Bucherie, Paris. Na Rive Gauche, vislumbrando do outro lado do rio a Catedral de Notre Dame, existe uma pequena e charmosíssima livraria. Inaugurada como Mistral em 1951, adotou pouco mais tarde o nome que ostenta até hoje: Shakespeare and Company.

Seu fundador, um americano cuja vida cheia de viagens e reviravoltas parece extraída de um romance, chamado George Whitman, tornou-se figura lendária nos meios literários parisienses. Passava todos os seus dias na livraria, respirava livros e recebeu em 2006 o título de Officier des Arts et Lettres concedido pelo Ministério da Cultura da França por sua contribuição às artes. Morreu em 2011, no discreto apartamento situado em cima da livraria, dois meses após sofrer um derrame, durante os quais manteve-se fiel ao hábito da leitura, cercado pela filha, os amigos e dois animais de estimação: um cão e um gato.

A primeira sensação causada pela Shakespeare and Company é de encanto. Parece resultado de uma viagem no tempo, com suas instalações que poderiam estar em um museu, e as prateleiras repletas de obras selecionadas por um critério que contraria as tendências do business livreiro, escapa dos best-sellers, concentra-se nas raridades. A segunda sensação, inevitável após alguns minutos de contato, é um misto de curiosidade e preocupação. Como conseguiram sobreviver até hoje? Como continuarão sobrevivendo?

A única resposta que parece fazer sentido é: história.

Começando pelo nome, uma homenagem à livraria aberta no início do século XX por Sylvia Beach, que ajudou a publicar Ulysses de James Joyce quando todas as editoras o rejeitavam e acolhia generosamente escritores e aspirantes, emprestando-lhes os livros de que necessitassem. Para melhor dimensionamento, basta dizer que, além de Joyce, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e Gertrude Stein figuravam entre seus frequentadores e beneficiários. Capítulo triste: a livraria original foi fechada durante a Segunda Guerra. Virada no roteiro: George Whitman decide renomear sua Mistral em homenagem ao estabelecimento e à mulher que tanto admirava. Uma admiração tão profunda que o levou a batizar sua única filha, nascida em 1981, como Sylvia Beach Whitman.

A fidelidade a todos os fundamentos da Shakespeare and Company original, inclusive o do acolhimento aos que batalhavam pela escrita, fez com que Whitman recebesse em sua livraria alguns astros da Geração Beat, como Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Tudo ali, até hoje, sinaliza comprometimento pessoal com a literatura, e foi certamente esse caráter de autenticidade que levou a pequena loja a se tornar cenário privilegiado de outras narrativas.

Antes do pôr do sol (Before Sunset), filme de 2004, roteirizado em parceria do diretor Richard Linklater com a produtora Kim Krizan e os atores protagonistas Julie Delpy e Ethan Hawke, deu grande destaque à livraria. Meia-noite em Paris, sucesso escrito e dirigido por Woody Allen, lançado em 2011, é outro filme que alimenta o poder de sedução daquele icônico endereço.

Obviamente, também na literatura a Shakespeare and Company garantiu seu espaço. Paris é uma festa (A Moveable Feast), de Ernest Hemingway, lançado em 1964, relata a íntima relação do autor com a livraria ainda em seu endereço inicial, sob o comando de Sylvia Beach. E, antes dele, a própria Sylvia lançou em 1919 a autobiografia Shakespeare and Company — Uma livraria na Paris do entreguerras. Muitas histórias convergindo para o mesmo ponto, trazendo visões diferentes e conteúdo cada vez mais significativo para a marca que, até onde se sabe, nunca fez do marketing sua bússola, mas sempre foi conduzida por apaixonados pelo storytelling.

Como um autor que competentemente escreve a própria história, George Whitman, ao batizar sua filha com o mesmo nome da fundadora da primeira Shakespeare and Company, reatou a realidade presente ao passado distante, adicionando ainda mais mágica ao feitiço acumulado por tantos anos.

Em minha primeira visita à livraria, Whitman andava de um lado para o outro, ajeitando livros, cuidando das coisas. Vestia calças largas como as de um pijama e um camisão solto, roupas que pareciam ter saído com ele diretamente da cama. Uma figura excêntrica totalmente à vontade em seu habitat natural.

Na última visita, em 2013, ele já havia partido. Mas bem na entrada, painéis sequenciais em inglês, com tipologia que remete ao manuscrito, apresentavam aos passantes um resumo da história do lugar, contada pelo próprio Whitman, ainda saudável, mas já cuidando da sucessão. Sob o título “Paris Wall Newspaper”, lia-se a data, 1º de janeiro de 2004.

Em uma tradução livre, dizia ele:

 

Algumas pessoas me chamam “O Dom Quixote do Quartier Latin”, porque minha

cabeça está tão alto nas nuvens que posso imaginar que todos nós somos anjos no

paraíso, e em vez de ser um livreiro bem-intencionado, eu sou mais uma espécie de

romancista frustrado.

Esta loja tem cômodos, como capítulos em um romance, e o fato de Tolstói e

Dostoiévski serem mais reais para mim do que meus vizinhos próximos, e ainda mais

estranho para mim ser o fato de que, mesmo antes de eu ter nascido, Dostoiévski

escreveu a história de minha vida em um livro chamado O Idiota, e desde então lê-lo

tem sido buscar a heroína, uma garota chamada Natasia Filipovna.

Cem anos atrás, minha livraria era uma loja de vinhos escondida do Sena por um anexo

do Hotel Dieu Hospital, que foi demolido e substituído por um jardim.

Mais atrás, no ano 1600, nosso edifício inteiro era um mosteiro chamado “La Maison du

Mustier”. Nos tempos medievais cada mosteiro tinha um frade “lampier”, cuja função

era acender os lampiões ao cair da noite. Eu tenho feito isso por cinquenta anos. Agora,

é a vez de minha filha.

 

Este é o exemplo de storytelling mais simples que encontrei. Narrativa fácil de uma história cheia de conteúdo. Totalmente baseada em fatos reais, em um ambiente que reúne literatura e personagens apaixonados pelo que fazem.

Uma livrariazinha só, diriam os dirigentes de empresas complexas. Com muito a ensinar às grandes marcas, digo eu.

Shakespeare and Company é uma história de superação, um exemplo de resistência que, como bem metaforiza Whitman em seus painéis, acende seu humilde lampião todo final de tarde, dribla a escuridão, atua como farol.

 

Na categoria de marcas alicerçadas em histórias de percurso,

guardadas as proporções, também estão os estabelecimentos que

ganharam fama por seus fundadores e frequentadores. No

mesmo Quartier Latin de Paris, encontramos o café Les Deux

Magots, favorito de Sartre e Beauvoir; o restaurante Le Procope,

fundado em 1686, que, se não tivesse acolhido clientes ilustres

como Rousseau, Voltaire, Robespierre, Danton, Benjamin

Franklin, Thomas Jefferson e Napoleão Bonaparte, continuaria

sendo histórico por sua impressionante longevidade.

Mudando de Paris para Liverpool, quem já não ouviu falar do Cavern Club? O ponto mais icônico da cidade, conhecido mundialmente graças aos Beatles, continua atraindo multidões de turistas. A poucos metros dali, na esquina da Mathew Street, um hotel se beneficia da história e da música que ainda ecoa na vizinhança. O Hard Days Night Hotel se reveste da mística dos Fab Four em todos os detalhes. Da recepção aos quartos, passando por uma bela exposição de fotos escadaria acima, tudo remete aos Beatles, cujo repertório é tocado em todos os ambientes, revivendo a trilha sonora da vida de tantos hóspedes.

Falando de hotéis, temos os que ocupam castelos, antigos mosteiros, se localizam no coração de pontos históricos, os que ostentam respeitáveis listas de hóspedes, que abrigaram pensadores, artistas, políticos, megaempresários, ou encontros significativos para as artes, a política, a economia, enfim, algo suficientemente relevante para ocupar espaço privilegiado na memória das pessoas.

Casas tradicionais dedicadas a diferentes atividades integram uma rica lista de exemplos transformados em atrações turísticas, como o Gran Café Tortoni, em Buenos Aires, e a Confeitaria Colombo, no Rio de janeiro. Outras, menos históricas, mas igualmente ancoradas na tradição, incluem restaurantes como a Famiglia Mancini, em São Paulo. E, independentemente do grau de tradição, nada é mais comum do que restaurantes que exibem fotos e autógrafos de seus frequentadores famosos, ou nomeiam pratos em homenagem às receitas prediletas desta ou daquela celebridade.

Há as padarias que apregoam algum famoso pãozinho, os bares badalados pelo currículo, pelo chope tirado de um jeito diferente, ou por algum carinho especial com os clientes cultivado ao longo do tempo. Há o Bracarense e o Jobi no Leblon, o São Cristóvão na Vila Madalena, tantos e tantos por inúmeros bairros e cidades, cujas histórias se entrelaçam com as de seus habitués.

Assista aqui ao vídeo que ilustra este capítulo: