Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 14 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Sem história, sem vida

Nada explica melhor o efeito do famoso romance do que as palavras de Abraham Lincoln ao encontrar sua autora, Harriet Beecher Stowe. O encontro aconteceu durante a Guerra Civil Americana, e o presidente a saudou dizendo: “Então você é a pequena mulher que escreveu o livro que provocou esta grande guerra.” Além de acender a indignação contra a escravatura que acabou causando o choque entre nortistas (abolicionistas) e sulistas (escravagistas), o livro, obtendo sucesso também na Inglaterra, convenceu os ingleses a não interferir no conflito, o que foi altamente relevante no resultado final.

 

Sem história, sem vida

 

Queiramos ou não, são as histórias que nos inspiram e dão força. E, sem dúvida, nos ajudam a decifrar a questão existencial básica: o velho e discutidíssimo “sentido da vida”.

Vem do crítico Kenneth Burke a frase que melhor defende essa relevância: “Histórias são equipamentos para a vida”, e do professor e roteirista Robert McKee o complemento para a afirmação de Burke com dois pensamentos marcantes: “A arte da história é a força cultural dominante no mundo” e “A dádiva da história é a oportunidade de viver vidas além da nossa”.

Pense no que se passa na cabeça de uma criança quando pede que sua mãe lhe conte uma história antes de dormir. Ela quer, ao mesmo tempo, uma distração, uma lição de vida e um afago que lhe proporcionem sensação de segurança e algum conforto emocional. Ela quer momentos de sintonia que possam fazer parte de sua memória afetiva.

Agora pense em um grupo peludo e malcheiroso de homens da caverna sentado em volta de uma fogueira, a compartilhar seus feitos de caça, suas aventuras e suas lendas. A diferença entre eles e a criança que pede à mãe para contar histórias se resume ao pressuposto de superioridade intelectual-vivencial da mãe sobre a filha e à discrepância das condições de limpeza, aconchego e modernidade entre o contemporâneo quarto da criança e a rústica caverna. No mais, os objetivos são praticamente os mesmos: troca de experiências, para dormir em paz.

Em seu livro O zen e a arte da escrita, Ray Bradbury ensina que “os primeiros homens e mulheres desenharam sonhos de ficção científica nas paredes das cavernas”.

Criar e contar histórias, mais do que entretenimento, é uma questão de sobrevivência.