Storytelling: Histórias que deixam marcas
Fiat
Fábrica Italiana de Automóveis de Torino, daí vem o nome Fiat. Nada do verbo consagrado em latim pela frase Fiat lux (faça-se a luz), apenas um acrônimo. Mas soa bem. Maior grupo industrial da Itália, a Fiat tem fábricas em sessenta países, figurando entre as grandes empresas automobilísticas do mundo. Seu maior mercado naturalmente é a Itália. O segundo maior, Brasil.
A história da Fiat em nosso país é relativamente recente. Chegou em 1976, quando os grandes players já estavam solidamente estabelecidos, mas mostrando desde o primeiro momento sua disposição de abalar os alicerces do mercado brasileiro.
Montou uma bela fábrica em Betim, Minas Gerais, fugindo à concentração da concorrência em São Paulo, e partiu acelerada em busca do consumidor de carros econômicos, àquela altura conquistado pela Volkswagen.
Coerente com suas origens, antepôs ao tradicionalismo cerebral da concorrente alemã a vocação para o design e o espírito apaixonado dos italianos. O clássico duelo emoção × razão.
Seu modelo de estreia, o Fiat 147, proclamava: “Enfim, um carrão pequeno.” Tinha o fator novidade a seu favor, visual atraente, sistema avançado de frenagem, e bebia pouco. Por outro lado, a aparência frágil e alguns problemas verificados nos primeiros produtos entregues abriram a brecha para que a marca recém-chegada tivesse seu acrônimo original impiedosamente substituído no boca a boca por “Fui Iludido Assim Também”.
Piada espontânea ou provocada pelos concorrentes? Difícil saber. O fato é que foi contada, multiplicou-se e inseriu-se na narrativa da marca, criando-lhe um duro obstáculo inaugural. O que fazer? Corrigir eventuais problemas e investir firme no jeito de ser brasileiro, nas coincidências de personalidade que nos aproximam dos italianos, na beleza, na leveza, nas cores e na condição que lhe foi imposta pela ordem natural de chegada ao nosso mercado: a juventude. Deu certo.
Em 1990, os modelos Uno fabricados no Brasil ganhavam nossas ruas e eram exportados para vários países, inclusive a própria Itália. Com a Copa do Mundo sendo disputada em solo italiano e o técnico da seleção canarinho ostentando o sobrenome Lazaroni, os telespectadores brasileiros foram surpreendidos com um comercial de TV, rodado em Torino, que mostrava nosso técnico sendo parado por um guarda de trânsito enquanto dirigia lá um Fiat Uno fabricado aqui. O diálogo entre Sebastião Lazaroni e o incrédulo guarda italiano é uma pérola de humor. Primeiro, o guarda não acredita que nosso time seja dirigido por um descendente de italianos, nem que um brasileiro tão importante esteja cometendo infrações de trânsito na Itália. Depois, ele se choca quando o motorista infrator diz que o Uno que está dirigindo foi fabricado no Brasil. Julgando tratar-se de um louco ou, na melhor das hipóteses, um mentiroso gozador, o guarda retribui apresentando-se como o Papa. Futebol e humor não poderiam ser mais bem aproveitados naquele momento e com aquela mensagem. E ali estava o trilho narrativo da Fiat. Não exatamente o futebol, mas o que lhe é subjacente em nossa cultura: a paixão.