Storytelling: Histórias que deixam marcas

Adilson Xavier · Capítulo 33 de 85

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Storytelling: Histórias que deixam marcas

Capítulo 8: UM MUNDO COM BILHÕES DE PROTAGONISTAS

Capítulo 8

 

UM MUNDO COM BILHÕES DE PROTAGONISTAS

 

O escritor japonês Haruki Murakami, em sua obra 1Q84, nos apresenta personagens que oscilam entre mundos paralelos. Um deles, Tengo, escritor e professor de matemática, em determinado momento reflete sobre o cérebro e seus mecanismos a serviço da narrativa. As reflexões de Tengo (personagem ficcional) partem de verdades científicas (reais), como o expressivo aumento do volume do cérebro humano ao longo de milhões de anos e a gritante desproporção entre o seu peso (apenas 2% da massa corporal) e seu consumo de energia (40%, segundo o personagem; 20%, segundo estudos científicos recentes). Independentemente do real consumo de energia do cérebro, já que os cientistas às vezes apresentam mais discrepâncias entre si do que com a ficção, basta sabermos que o percentual é bem mais elevado do que supõem seus exíguos 2% de massa. E são diversas as razões apresentadas para isso, desde o maior consumo de gordura animal por nossos antepassados até a necessidade do trabalho em equipe, o desenvolvimento da linguagem etc.

Mas, voltando ao personagem de Murakami, o que importa para ele é que, graças a essa evolução cerebral, o ser humano desenvolveu, entre outras, as noções de tempo, espaço e possibilidade. E suas observações fizeram-no concluir que o tempo pode se distorcer enquanto avança. É linear, mas torna-se mais lento, pesaroso, ligeiro ou agradável segundo nossa percepção de sua passagem. Tengo também nos lembra que nós, algumas vezes, alteramos a sequência dos fatos, e chegamos até a eliminar momentos como se nunca tivessem ocorrido, ou acrescentamos em nossas histórias passagens que jamais aconteceram.

Ainda segundo Tengo, o aumento do tamanho do cérebro nos proporcionou o conceito de temporalidade e, simultaneamente, nos ensinou a alterar e reorganizar o tempo.

Olhando o mundo que nos cerca, temos que concordar com o personagem murakamiano e de novo sublinhar o quanto realidade e ficção caminham lado a lado, mesmo quando descrevemos episódios concretos como a viagem de férias que fizemos há um ano.