Um Curso de Cálculo, Volume 3
3 Cálculo de integral dupla. Teorema de Fubini
3
CÁLCULO DE INTEGRAL DUPLA.
TEOREMA DE FUBINI
3.1. CÁLCULO DE INTEGRAL DUPLA. TEOREMA DE
F UBINI
Seja o retângulo 2 R = {( x , y ) ∈ ℝ | a ≤ x ≤ b, c ≤ y ≤ d} e seja f (x, y) integrável em R. Para cada y fixo em [c, d], podemos considerar a função na variável x, definida em [a, b] e dada por
Se, para cada y ∈ [c, d], ① for integrável em [a, b], podemos, então, considerar a função dada por
Vejamos uma interpretação geométrica para α (y) no caso f (x, y) ≥ 0 em R.
O teorema que enunciamos a seguir e cuja demonstração é deixada para o Apêndice
1, conta-nos que se f (x, y) for integrável em R e se, para todo y ∈ [c, d], f (x, y) dx
existir, então α (y) será integrável em [c, d] e
Segue da igualdade acima que se f (x, y) ≥ 0 em R, então α (y) α dy será o
volume do conjunto limitado pelo gráfico de f e pelos planos x = a, x = b, y = c, y = d e z = 0, que concorda com a definição apresentada na Seção 13.3 do Vol. 1, 5.ª edição.
Teorema 2 ( de Fubini ). Seja f ( x , y ) integrável no retângulo R = {( x , y ) ∈ ℝ | a
≤ x ≤ b, c ≤ y ≤ d}. Suponhamos que f (x, y) dx exista, para todo y ∈ [c, d], e
que f (x, y) dy exista, para todo x ∈ [a, b]. Então
EXEMPLO 1. Calcule x + y dx dy, onde R é o retângulo 1 ≤ x ≤ 2, 0 ≤ y ≤ 1.
Solução
Pelo teorema de Fubini
onde α (y) = (x + y) dx Para cada y fixo em [0, 1], temos:
ou seja,
α (y) = + y. (Interprete geometricamente α (y).)
Então,
Interprete geometricamente x + y dx dy.
Vamos, agora, efetuar o cálculo da integral acima, invertendo a ordem de integração.
Assim,
Ou seja,
Observação. A notação f (x, y) dx dy é usada para indicar a integral iterada
Por outro lado,
EXEMPLO 2. Calcule
Solução
EXEMPLO 3. Calcule o volume do conjunto de todos (x, y, z) tais que 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1 e 0 ≤ 2 2 z ≤ x + y.
Solução
O volume de tal conjunto é
onde B é o retângulo 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1. Temos:
EXEMPLO 4. Calcule xy dx dy, onde B é o conjunto de todos (x, y) tais que 0 ≤ x
≤ 1, 0 ≤ 2 y ≤ x.
Solução
Seja R o retângulo 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1. Seja F (x, y) definida em R e dada por
Assim,
Pelo teorema de Fubini,
Para cada x fixo em [0, 1],
Como 2 F ( x , y ) = 0 para x ≤ y ≤ 1, resulta
Segue que
Como
resulta
Observação. β (x) = xy dy é a área da região hachurada. Por outro lado,
é o volume do conjunto de todos ( 2 x, y, z ) tais que 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ x e 0 ≤ z ≤ xy.
Vamos, agora, calcular xy dx dy, invertendo a ordem de integração. Temos:
Para cada y fixo em [0, 1],
(Observe que (x, y) ∉ B para 0 ≤ x < ; logo F (x, y) = 0 para 0 ≤ x < .) Segue que
ou seja,
Tendo em vista que
resulta
Com raciocínio análogo ao do exemplo anterior, provam-se as seguintes consequências do teorema de Fubini.
Corolário 1. Sejam c (x) e d (x) duas funções contínuas em [a, b] e tais que, para
todo x em [a, b], c (x) ≤ d (x). Seja B o conjunto de todos (x, y) tais que a ≤ x ≤ b e
c (x) ≤ y ≤ d (x). Nestas condições, se f (x, y) for contínua em B, então
f (x, y) dx dy = ?
Primeiro calcula-se, para cada x fixo em [a, b], a integral de f (x, y) no intervalo
[c (x), d (x)]:
Tem-se, então:
Corolário 2. Sejam a (y) e b (y) duas funções contínuas em [c, d] e tais que, para
to-do y ∈ [c, d], a (y) ≤ b (y). Seja B o conjunto de todos (x, y) tais que c ≤ y ≤ d,
a (y) ≤ x ≤ b (y). Nestas condições, se f (x, y) for contínua em B, então
f (x, y) dx dy = ?
Primeiro calcula-se, para cada y fixo em [c, d], a integral de f (x, y) no intervalo
[a (y), b (y)]:
Em seguida, calcula-se a integral de α (y), para y variando em [c, d]:
EXEMPLO 5. 2 2 Calcule ( x − y ) dx dy , onde B é o semicírculo x + y ≤ 1, x ≥ 0.
Solução
Para cada x em [0, 1],
ou seja,
Então,
ou seja,
Façamos a mudança de variável
Assim,
Portanto,
Vamos, agora, calcular (x − y) dx dy invertendo a ordem de integração.
Para cada y em [ − 1, 1],
(Observe que a (y) = 0.)
ou seja,
Então,
ou seja,
Observe que pois o integrando é uma função ímpar; por outro
lado, como é uma função par, resulta
■
Portanto,
EXEMPLO 6. Calcule o volume do conjunto de todos (x, y, z) tais que x ≥ 0, y ≥ 0, x + y 2 ≤ 1 e 0 ≤ z ≤ 1 − x.
Solução
O volume do conjunto é
onde 2 f ( x , y ) = 1 − x e B o triângulo x ≥ 0, y ≥ 0 e x + y ≤ 1. Para cada x fixo em [0, 1],
2 2 2 3
Assim, (1 − x ) dy = (1 − x )(1 − x) = 1 − x − x + x . Segue que ou seja,
EXEMPLO 7. Calcule xy dx dy, onde B é o triângulo de vértices (− 1, 0), (0, 1) e
(1, 0).
Solução
Como a (y) = y − 1 e b (y) = 1 − y, resulta
Assim,
(Interprete, geometricamente, este resultado.)
Vamos, agora, calcular a integral invertendo a ordem de integração. Seja B o 1 triângulo de vértices (− 1, 0), (0, 0) e (0, 1); B2 o de vértices (0, 0), (1, 0) e (0, 1). Temos:
e
Assim,
EXEMPLO 8. − 2 Calcule e dx dy, onde B é o triângulo de vértices (0, 0), (1, 1) e y
(0, 1).
Solução
Como
resulta
ou seja,
Verifique como as coisas se complicariam, invertendo a ordem de integração.
■
EXEMPLO 9. Inverta a ordem de integração e calcule
Solução
Precisamos primeiro descobrir a região de integração. Na integral
o y está variando no intervalo [0, 1] e, para cada y fixo em [0, 1], x varia de até 1. A região de integração é, então, o conjunto
B 2 = {( x , y ) ∈ ℝ | 0 ≤ y ≤ 1, ≤ x ≤ 1}.
Temos:
Como
resulta
ou seja,
EXEMPLO 10. Inverta a ordem de integração na integral dx,
onde 2 f ( x , y ) é suposta contínua em ℝ.
Solução
Primeiro vamos determinar a região de integração. Na integral
o x está variando em [0, 1] e, para cada x fixo em [0, 1], y varia de x até . A
região de integração é, então, o conjunto B de todos (x, y) tais que 0 ≤ x ≤ 1, x ≤ y ≤
, ou seja, B é a região do plano compreendida entre os gráficos das funções y
= x e y = , com 0 ≤ x ≤ 1.
Temos
onde B1 é o triângulo de vértices (0, 0), (1, 1) e (0, 1) e B2 o conjunto de todos (x, y) tais que 0 ≤ x ≤ 1, 1 ≤ y ≤ .
e
Assim,
EXEMPLO 11. Utilizando integral dupla, calcule a área da região compreendida entre os gráficos das funções 2 y = x e y = − x + x + 1, com − 1 ≤ x ≤ 1.
Solução
Seja B a região dada. Temos: área de B = dx dy. (Veja Seção 2.2.)
Como
resulta
Portanto, a área da região dada é .
■
EXEMPLO 12. Inverta a ordem de integração na integral
Solução
Primeiro precisamos descobrir a região de integração. Para cada x fixo no intervalo [0, 3], 2 y deve variar de x até 4 x − x: a região de integração é o conjunto
B 2 2 = {( x , y ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 3 e x ≤ y ≤ 4 x − x}
Precisamos expressar x em função de y. Temos
y 2 2 = 4 x − x ⇔ x − 4x + y = 0.
Segue que
ou seja
Para inverter a ordem de integração vamos precisar dividir a região de integração em duas regiões.
Temos, então:
EXEMPLO 13. Inverta a ordem de integração na integral
Solução
A região de integração é o conjunto
B = {(x, y) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ π, 0 ≤ y ≤ sen x}.
Precisamos expressar x em função de y.
é equivalente a
x = arcsen y, 0 ≤ y ≤ 1.
Por outro lado,
y = sen x ⇔ y = sen (π − x).
Como
resulta
π − x = arcsen y ou seja
x = π − arcsen y.
Logo,
EXEMPLO 14. Inverta a ordem de integração na integral
onde 0 < a ≤ ln .
Solução
A região de integração é o conjunto
e, portanto,
Logo,
Vamos, agora, expressar x em função de y.
Por outro lado,
e, portanto,
Como
o sinal − na expressão acima deve ser descartado. Logo,
Temos:
Observe que
A integral dada será, então, igual a
Neste caso a integral dada será igual a
Observação. Para a = ln , a última integral se anula.
■
Exercícios 3.1
1. Seja A o retângulo 1 ≤ x ≤ 2, 0 ≤ y ≤ 1. Calcule f (x, y) dx dy, sendo (x, y)
igual a
a) x + 2y
b) x − y
c)
d)
e) 1
f) x cos xy
g) y cos xy
h)
i xy ) y e
j 2 ) xy
l) x sen πy
m)
2. Sejam f (x) e g (y) duas funções contínuas, respectivamente, nos intervalos [a,
b] e [c, d]. Prove que
onde A é o retângulo a ≤ x ≤ b, c ≤ y ≤ d.
3. Utilizando o Exercício 2, calcule
4. Calcule o volume do conjunto dado.
a 3 ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ x + 2y}. b 3 ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 2, 1 ≤ y ≤ 2, 0 ≤ z ≤ }.
c 3 2 2 − ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ xy e }. x y
d 3 2 2 ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, x + y ≤ z ≤ 2}. e 3 ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 1 ≤ x ≤ 2, 0 ≤ y ≤ 1, x + y ≤ z ≤ x + y + 2}. f 3 + ) {( x , y , z ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, 1 ≤ z ≤ e }. x y
5. Calcule y dx dy onde B é o conjunto dado.
a) B é o triângulo de vértices (0, 0), (1, 0) e (1, 1). b 2 ) = B {( x , y ) ∈ ℝ | − 1 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ x + 2}. c 2 2 ) B é o conjunto de todos ( x , y ) tais que x + 4 y ≤ 1. d) B é o triângulo de vértices (0, 0), (1, 0) e (2, 1). e 2 ) B é a região compreendida entre os gráficos de y = x e y = x, com 0 ≤ x ≤ 2. f) B é o paralelogramo de vértices (−1, 0), (0, 0), (1, 1) e (0, 1). g 2 2 ) B é o semicírculo x + y ≤ 4, y ≥ 0. h 2 5 ) B = {( x , y ) ∈ ℝ | x ≥ 0, x − x ≤ y ≤ 0}.
6. Calcule f (x, y) dx dy sendo dados:
a 2 2 ) f ( x , y ) = x cos y e B = {( x , y ) ∈ ℝ | x ≥ 0, x ≤ y ≤ π}. b 2 2 2 ) f ( x , y ) = xy e B = {( x , y ) ∈ ℝ | x + y ≤ 2, y ≤ x e x ≥ 0}. c) f (x, y) = x e B o triângulo de vértices (0, 0), (1, 1) e (2, 0). d) f (x, y) = xy e B o retângulo 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1. e) f (x, y) = x + y e B o paralelogramo de vértices (0, 0), (1, 1), (3, 1) e (2, 0). f)
g 2 2 2 ) f ( x , y ) = xy cos x e B = {( x , y ) ∈ ℝ | 0 ≤ x ≤ 1, x ≤ y ≤ 1}. h) f (x, y) = (cos 2y) e B o retângulo de vértices (0, 0),
i) f (x, y) = x + y e B a região compreendida entre os gráficos das funções y =
x x e y = e, com 0 ≤ x ≤ 1.
j 3 2 ) f ( x , y ) = y e e B o retângulo 0 ≤ x ≤ 1, 1 ≤ y ≤ 2. xy
l 5 3 2 2 2 2 ) f ( x , y ) = x cos y e B = {( x , y ) ∈ ℝ | y ≥ x , x + y ≤ 2}. m 2 2 ) f ( x , y ) = x e B o conjunto de todos ( x , y ) tais que x ≤ y ≤ − x + 2x + 2. n) f (x, y) = x e B a região compreendida entre os gráficos de y = cos x e y = 1
− cos x, com 0 ≤ x ≤ .
o) f (x, y) = 1 e B a região compreendida entre os gráficos de y = sen x ey = 1 −
cos x, com 0 ≤ x ≤ .
p)
q 2 ) f ( x , y ) = x e B o conjunto de todos ( x , y ) tais que y ≥ x e x ≤ y ≤ x + 2. r) e B o conjunto de todos (x, y) tais que 1 ≤ x ≤ 4 e 0 ≤ y ≤
.
7. Inverta a ordem de integração.
8. Calcule o volume do conjunto dado. (Sugerimos ao leitor desenhar o conjunto.)
a 2 2 ) x + y ≤ 1 e x + y + 2 ≤ z ≤ 4. b 2 2 ) x ≥ 0, y ≥ 0, x + y ≤ 1 e 0 ≤ z ≤ x + y. c 2 2 ) ≤ 0 y ≤ 1 − x e 0 ≤ z ≤ 1 − x. d 2 2 ) x + y + 3 ≤ z ≤ 4.
e 2 2 ) x + 4 y ≤ 4 e x + y ≤ z ≤ x + y + 1. f 2 ) x ≥ 0, x ≤ y ≤ 1 e 0 ≤ z ≤ e. y
g 2 2 2 2 2 2 ) x + y ≤ a e y + z ≤ a (a > 0). h 2 2 2 ) x + y ≤ z ≤ 1 − x.
i) x + y + z ≤ 1, x ≥ 0, y ≥ 0 e z ≥ 0. j 2 4 2 2 2 ) x ≤ y ≤ 1, x ≥ 0, z ≥ 0 e z + x + x y ≤ 2 x. l 2 2 ) x + y ≤ z ≤ 2x.
m 2 ) x ≤ z ≤ 1 − y e x ≥ 0.
n) 4x + 2y ≤ z 3x + y + 1, x 0 ≥ e y ≥ 0. o 3 ) 0 ≤ z ≤ sen y e
9. Utilizando integral dupla, calcule a área do conjunto B dado.
a) B é o conjunto de todos (x, y) tais que ln x ≤ y ≤ 1 + ln x, y ≥ 0 e x ≤ e. b)
c) B é determinado pelas desigualdades xy ≤ 2, x ≤ y ≤ x + 1 e x ≥ 0. d)
e 2 2 ) B é limitado pelas curvas y = x − x e x = y − y.