Um Curso de Cálculo, Volume 3
8.4 Teorema da divergência no plano
Seja K o compacto ABCD. (Veja figura.) Imaginemos como um campo de forças.
Como é normal aos lados BC e DA, são nulos os trabalhos realizados sobre estes lados. O módulo do trabalho realizado de A até B é maior que o módulo do realizado de C até D. Por quê? Logo, não é irrotacional, pois se fosse irrotacional, pelo teorema de Green, o trabalho ao longo da fronteira de K deveria ser nulo.
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8.4. TEOREMA DA DIVERGÊNCIA NO PLANO
Seja 2 1 γ : [ a, b ] → ℝ uma curva. Se γ for de classe C e se, para todo
então diremos que γ é regular.
Suponhamos que seja regular e injetora em ]a, b[. Podemos, então, considerar os campos vetoriais e dados por
e
Observe que é normal a Deste modo, associa a cada ponto γ (t) da imagem de γ, a < t < b, um vetor unitário e normal a γ, no ponto γ (t).
Pelo fato de estarmos supondo γ injetora em ]a, b[, o campo está bem definido.
Seja (x, y) um campo vetorial contínuo num aberto contendo a imagem de γ. Seja
um dos campos vetoriais ou . Seja a função a valores reais dada
por
Assim, F (γ (t)) é a componente escalar de (γ (t)) na direção (γ (t)). n
Pois bem, definimos o fluxo de através de γ, na direção , por
Seja 2 γ : [ a, b ] → ℝ uma curva fechada, simples, regular e orientada no sentido anti-horário e suponhamos que sua imagem seja a fronteira de um compacto K, com interior não vazio. Neste caso, referir-nos-emos a
como a normal exterior a K
Teorema (da divergência no plano). Seja um campo vetorial
de classe 1 2 C num aberto Ω do ℝ e seja K um compacto, com interior não vazio,
contido em Ω, cuja fronteira é imagem de uma curva fechada
de classe 1 C, simples, regular e orientada no sentido
anti-horário. Seja a normal unitária exterior a K. Então
Demonstração
onde
Segue que
e, portanto,
Pelo teorema de Green,
E, portanto,
Dizemos que 2 1 γ : [ a, b ] → ℝ é regular por partes se for C por partes e se cada “trecho”
γ 2 : [ t , t ] → ℝ satisfizer a condição Fica a seu cargo i
i −1 i
estender o teorema acima para o caso em que a fronteira de K seja regular por partes.
EXEMPLO 1. Seja Calcule o fluxo de através da fronteira γ do retângulo 1 ≤ x ≤ 3, 1 ≤ y ≤ 2, sendo a normal unitária que aponta para fora do
retângulo.
Solução
A normal exterior sobre o lado CD é ; a componente de (x, 2) na direção é
(x, 2) · = 8. Como a componente normal de é constante, o fluxo de através
do lado CD é o produto da componente normal pelo comprimento do lado CD. Portanto, o fluxo de através do lado CD é 16. A normal exterior sobre o lado AB é −
; o fluxo através de AB é − 2. Como é normal a , os fluxos através de BC e DA
são nulos. Temos, então
Poderíamos, também, ter chegado ao resultado acima aplicando o teorema da divergência.
onde K é o retângulo dado e sua fronteira orientada no sentido anti-horário e a
normal exterior. Como div = 3 2 y vem
EXEMPLO 2. 1 2 Seja de classe C num aberto Ω do ℝ. Suponha que
div é diferente de zero no ponto (x , y ) Ω. Prove que existe uma bola aberta B, de 0 0 ∈ centro (x0, y0), tal que, para todo K ⊂ B, K nas condições do teorema de Green, tem-se
0 onde é a fronteira de K e a normal unitária exterior a K.
Solução
Sendo 1 de classe C, div será contínuo em Ω. Para fixar o raciocínio suporemos div (x , y ) > 0. Pelo teorema da conservação do sinal, existe uma bola 0 0
aberta B, de centro (x0, y0) (podemos supor B ⊂ Ω, pois Ω é aberto) tal que, para todo (x, y) ∈ B,
div (x, y) > 0.
Segue que para todo K ⊂ B, K nas condições do teorema de Green, tem-se
EXEMPLO 3. Seja
a) Desenhe o campo.
b) Calcule div .
Solução
a) (x, y) é tangente à circunferência de centro na origem e que passa pelo ponto (x, y). Temos, ainda:
onde é o raio da circunferência de centro na origem e que passa pelo
ponto (x, y).
Observe que qualquer que seja o conjunto K da forma abaixo (veja figura), o fluxo através da sua fronteira, e na direção da normal exterior, é nulo. Por quê?
É razoável esperar div = 0. (Veja exemplo anterior.) b) div = 0. (Verifique.)
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Exercícios 8.4
1. Calcule sendo dados (para evitar repetição, ficará subentendido que
é unitário):
a) (x, y) = x + y , γ (t) = (cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ 2π e a normal exterior. b) (x, y) = y , γ a fronteira do quadrado de vértices (0, 0), (1, 0), (1, 1) e
(0, 1) e a normal que aponta para fora do quadrado, sendo γ orientada no sentido anti-horário.
c 2 ) ( x, y ) = x , γ (t) = (2 cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ 2π, e a normal que aponta
para fora da região
d 2 ) ( x, y ) = x , γ (t) = (2 cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ π, e a normal com
componente y ≥ 0.
e 2 ) ( x, y ) = x + y , γ ( t ) = ( t, t), 0 ≤ t ≤ 1, e a normal com componente
y < 0.
2. Prove que se · for constante sobre Im γ, então o fluxo de através de γ é
o produto de · pelo comprimento de γ, onde é normal a γ.
3. Seja e a normal unitária exterior
ao círculo 2 2 x + y ≤ 1. Calcule onde γ (t) = (cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ π.
(Sugestão. Verifique que · é constante.)
4. Desenhe o campo do exercício anterior. (Sugerimos ao leitor desenhar algumas
circunferências de centro na origem e, em seguida, desenhar o campo nos pontos destas circunferências.)
a) Olhando o desenho do campo é possível decidir se div é zero ou não?
Por quê?
b) Calcule div .
5. Seja
a) Desenhe o campo.
b) Olhando para o desenho é possível decidir se é ou não solenoidal?
(Dizemos que é solenoidal se div = 0 em seu domínio.)
6. Seja Determine α para que seja
solenoidal. Desenhe o campo para o α determinado.
7. 2 Sejam f ( x, y ) e g ( x, y ) duas funções a valores reais, de classe C, no aberto Ω
de 2 ℝ. Seja γ : [a, b] → Ω uma curva regular, fechada, simples, orientada no sentido anti-horário, fronteira de um compacto K, com interior não vazio e contido em Ω; seja a normal exterior a K. Prove:
a)
é a derivada direcional de g na direção
o laplaciano de g.)
b) (Veja Exercício 9c da Seção 2.4
deste volume.)
c)
8. 2 2 Seja v : Ω ⊂ ℝ → ℝ de classe C no aberto Ω e sejam γ e K como no
exercício anterior. Prove que se no interior de K e v (γ (t)) = 0 em [a, b], então v (x, y) = 0 para todo (x, y) ∈ K. Suponha, ainda, que K seja um círculo.
(Sugestão. Utilize o item c do exercício anterior.)
9. Sejam γ e K como no Exercício 8. Seja F (x, y) uma função a valores reais
definida e contínua no interior de K e seja f (x) uma função a valores reais definida e contínua em [a, b]. Considere o problema com condição de fronteira
Prove que se 2 u e u são funções a valores reais, de classe C num aberto
1 2
contendo K, satisfazendo ①, então u = u em K. 1 2
10. 3 2
Seja e seja γ (t) = (t , sen (4 arctg t )), 0 ≤
t ≤ 1. Seja α a área do conjunto limitado pelo eixo x e pela curva γ. Calcule
onde é a normal a γ que aponta para fora do conjunto acima
mencionado.
11. Seja o campo do exercício anterior e seja
Calcule onde é a normal com componente y ≥ 0.
(Sugestão. Escolha um compacto K conveniente e aplique o teorema da divergência.)
12. 10 9 Seja ( x, y ) = x + (3 x − 10 xy) . Calcule onde γ e estão
dados pela figura abaixo.
13. 3 2 − 1 2 t 2 Sejam ( x, y ) = x − 3 x y , γ ( t ) = ( t, e ), 0 ≤ t ≤ 1, e γ ( t ) = ( t, t), 0 ≤ t
1 2
≤ 1.
Sejam a normal a γ com componente y > 0 e a normal a γ com 1 2 componente y < 0.
Calcule
(Sugestão. Verifique que