Um Curso de Cálculo, Volume 3
10 Fluxo de um campo vetorial. Teorema da divergência ou de Gauss
10
FLUXO DE UM CAMPO V ETORIAL.
TEOREMA DA DIVERGÊNCIA OU DE
GAUSS
10.1. F LUXO DE UM CAMPO VETORIAL
Seja 2 3 1 σ : K ⊂ ℝ → ℝ de classe C, onde K é um compacto com fronteira de conteúdo nulo e interior não vazio. Suponhamos que σ seja injetora e regular no interior de K. Podemos, então, considerar os campos vetoriais e dados por
e
O campo associa a cada ponto σ (u, v) da imagem de σ, com (u, v) ∈ , um vetor unitário e normal a σ. Observe que o domínio de é o conjunto Como σ é injetora no interior de K, o campo está bem definido.
Seja : 3 Im σ → ℝ um campo vetorial contínuo e seja um dos campos ou página anterior. Seja a função a valores reais dada por
Observe que F (σ (u, v)) é a componente escalar de (σ (u, v)) na direção do vetor n
(σ (u, v)).
Pois bem, a integral de superfície
denomina-se fluxo de através de σ, na direção . (Veja Observação 2 da Seção 9.4.)
É frequente a notação , onde , para indicar o fluxo de
através de σ, na direção . É comum referir-se a como elemento de área orientado.
Segue da definição de integral de superfície que
Temos, então:
ou
Observe que pelo fato de estarmos supondo contínua em 1 Im σ, σ de classe C e
K com fronteira de conteúdo nulo, a integral
EXEMPLO 1. Considere um escoamento de um fluido com velocidade constante;
seja σ uma superfície cuja imagem é um retângulo contido na região em que se dá o escoamento e considere a normal a σ que forma com ângulo < rd. Calcule
dS e interprete.
Solução
e são constantes; logo, é constante. Assim,
= volume de fluido que passa através de na unidade de tempo.
Observe que se o fluido tem densidade ρ constante, então
= massa de fluido que passa através de σ na unidade de tempo.
■
EXEMPLO 2. Calcule o fluxo de
através da superfície
com normal
Solução
ou seja,
onde K é o retângulo 0 ≤ u ≤ 1, 0 ≤ v ≤ 1.
ou seja,
e, portanto,
Observe que se olharmos como um campo de velocidade associado a um
escoamento de um fluido e se for medido em m/s, então o fluxo de através de será medido em m 3/s. Neste caso, teremos:
Muitas vezes, teremos que calcular o fluxo de um campo vetorial sobre “superfícies” como, por exemplo, a fronteira de um cubo, de um cilindro etc. Será conveniente, então, olhar tais “superfícies” como imagens de cadeias.
Seja 3 1 σ i i : K → ℝ ( i = 1, 2, …, n ) uma superfície de classe C, regular e injetora no interior de K , onde K é um compacto com fronteira de conteúdo nulo e interior não i i
vazio. Suponhamos que , para i ≠ j. Pois bem, a n-upla (σ , σ , 1 2 …, σn) é denominada cadeia. Definimos a imagem da cadeia (σ 1, σ2, …, σn) por
Im σ = Im σ ⋃ ⋃ ⋃ 1 Im σ 2 … Im σn.
Seja um campo vetorial contínuo sobre Im σ, onde (σ , σ , …, σn) é uma cadeia. 1 2 Seja um campo unitário normal a σi. Definimos
onde é um campo vetorial definido em Im σ e tal que ,
para todo (u, v) ∈ , i = 1, 2, …, n.
De agora em diante, quando se pedir para calcular onde σ é uma
“superfície” não parametrizada, entender-se-á que se trata de calcular tal integral sobre a cadeia mais “natural” (σ , σ , …, σn) cuja imagem coincida com a superfície dada. 1 2
(Veja Exercício 14 desta seção.)
EXEMPLO 3. Seja um campo
vetorial de classe 1 3 C no aberto Ω ⊂ ℝ. Considere um paralelepípedo de faces paralelas aos planos coordenados contido em Ω, com centro no ponto (x, y, z) e de arestas Δx, Δy e Δz suficientemente pequenas. Suponha que em cada face do paralelepípedo escolhe-se a normal que aponta para fora do paralelepípedo. Verifique que o fluxo de através da fronteira σ do paralelepípedo é aproximadamente div (x, y, z) Δx Δy Δz; isto é,
Solução
O fluxo de através da face ABCD é aproximadamente
De
segue que o fluxo através da face ABCD é aproximadamente
O fluxo de através da face A B C D é aproximadamente 1 1 1 1
De
segue que o fluxo através da face A B C D é aproximadamente 1 1 1 1
Resulta de ① e ② que a soma dos fluxos através das faces ABCD e A 1B1C1D1 é aproximadamente
Procedendo de forma análoga com as outras faces obtemos
EXEMPLO 4. Calcule , onde σ é a fronteira do cubo 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1, é a normal apontando para fora do cubo.
Solução
onde σ , σ , … σ são as faces do cubo e são, respectivamente, as 1 2 6
normais a estas faces que apontam para fora do cubo.
Temos:
onde K é o quadrado 0 ≤ u ≤ 1, 0 ≤ v ≤ 1.
ou seja,
ou seja,
Deixamos a seu cargo verificar que:
Portanto,
EXEMPLO 5. Seja B o cubo 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1 e sejam e σ como no exemplo anterior. Verifique que
Solução
onde A é o retângulo 0 ≤ y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1. Assim,
De acordo com o exemplo anterior . Portanto,
EXEMPLO 6. Seja
o campo elétrico criado por uma carga q localizada na origem. Calcule o fluxo de através da superfície esférica de raio r e centrada na origem, com normal apontando
para fora da esfera.
Solução
Queremos calcular onde σ é a superfície esférica de centro na origem
e raio r e . Temos:
pois (x, y, z) varia na superfície esférica de centro na origem e raio r. Daí,
Como = área da superfície esférica, resulta
Observe que o fluxo de através de σ não depende do raio da superfície esférica σ.
■
Exercícios 10.1
(Para evitar repetição, ficará subentendido que a normal que ocorre em
dS será sempre unitária.)
1. 3 Sejam B {( x, y, z ) ∈ ℝ | x ≥ 0, y ≥ 0 e 0 ≤ z ≤ 1 −x − y}, σ a fronteira de B e
. Verifique que
onde é a normal que aponta para fora de B.
2. 2 2 2 2 Seja σ ( u, v ) = ( u, v , 4 − u − v ), u + v ≤ 1, e seja Γ(t) = (cos t, sen t, 3); 0 ≤ t
≤ 2π. Considere o campo vetorial
a) Desenhe as imagens de e de Γ. b) Verifique que
onde é a normal .
3. 2 2 Seja B o cilindro x + y ≤ 1 e 0 ≤ z ≤ 1; seja σ a fronteira de B. Verifique que
onde e a normal a σ que aponta para fora de B.
4. 3 2 2 2 2 2 Seja B = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y ≤ 1 e x + y + z ≤ 4} e seja a fronteira de B.
Verifique que
onde e a normal que aponta para fora de B.
5. 3 2 2 Considere o cilindro B = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1} e seja
de classe 1 C num aberto contendo B. Verifique que
onde σ é a fronteira de B com normal apontando para fora de B.
6. 3 2 2 Considere o cilindro B = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1} e seja
de classe 1 C num aberto contendo B. Verifique que
onde é a fronteira de B com normal apontando para fora de B.
(Sugestão: Trabalhe com a cadeia σ = (σ , σ , σ ), onde 1 2 3
σ 2 2 ( u, v ) = ( u, v , 0), u + v ≤ 1;
1
σ 2 2 ( u, v ) = ( u, v , 1), u + v ≤ 1;
2
σ (u, v) = (cos u, sen u, v), 0 ≤ u ≤ 2π, 0 ≤ v ≤ 1.) 3
7. 3 2 2 Considere o cilindro B = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1} e seja
de classe 1 C num aberto contendo B. Verifique que
onde σ é a fronteira de B com normal apontando para fora de B.
(Sugestão: Utilize os Exercícios 5 e 6.)
8. 3 1 Seja σ : K → ℝ de classe C em K, injetora e regular no interior de K, onde K
é um compacto com fronteira de conteúdo nulo. Seja contínuo em Im σ. Seja a normal
Mostre que
onde P, Q e R são calculadas em σ (u, v) = (x (u, v), y (u, v), z (u, v)).
9. Sejam σ (u, v) = (x (u, v), y (u, v), z (u, v)), (u, v) ∈ K, e
como no exercício anterior. A notação
é usada para representar a integral
Assim,
onde P, Q e R são calculados em σ (u, v). (Para lembrar a relação acima, basta observar que na passagem do 1.º membro para o 2.º fizemos
du dv etc.) Verifique que
a)
onde é a normal
b)
onde é a normal .
10. 1 Seja σ a superfície z = f ( x, y ), ( x, y ) ∈ K , de classe C num aberto contendo K .
(Observação. Tratase da superfície dada por x = u, y = v e z = f (u, v).) Seja
a normal a σ com componente z > 0 e seja um
campo vetorial contínuo na imagem de σ. Mostre que
onde P, Q e R são calculadas em (x, y, f (x, y)).
11. Considere um escoamento com velocidade (x, y, z) e densidade ρ (x, y, z),
tal que 2 seja dado por . Seja a σ superfície x
+ 2 2 y + z = 4, z ≥ , e seja a normal com componente z > 0. Calcule o fluxo de −1 através de σ. (Observe que, neste caso, o fluxo tem dimensões MT
(massa por unidade de tempo).)
12. 3 2 2 2 Seja o campo do exercício anterior e seja B = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y + z ≤
4 e z ≥ }. Mostre que
onde é a fronteira de B e a normal unitária apontando para fora de B.
Interprete.
13. 2 2 2 Seja o campo do Exercício 11 e seja B a esfera x + y + z ≤ 4. Calcule
onde é a fronteira de B, com normal apontando para fora de B.
(Sugestão: Utilize coordenadas esféricas.)
14. 1 Sejam σ u, v ( ), ( u, v ) ∈ K e σ ( s, t ), ( s, t ) ∈ K , duas superfícies de classe C
1 1 2 2
e com imagens iguais; σ 1 e σ2 são supostas injetoras e regulares nos interiores de K1 e K2, respectivamente. Seja φ : K1 → K2 uma transformação dada por
e que satisfaz as condições do teorema de mudança de variáveis na integral dupla. Suponhamos que, para todo (u, v) ∈ K1,
σ1 (u, v) = σ2 (s (u, v), t (u, v)).
Seja um campo vetorial contínuo na imagem de σ e seja um campo 1 normal unitário ao conjunto Im σ1 = Im σ2. Prove que
ou seja, o fluxo através do conjunto Im σ1 não depende da parametrização.