Um Curso de Cálculo, Volume 3
10.2 Teorema da divergência ou de Gauss
(Sugestão: Utilize a relação do
Exercício 19 da Seção 9.3.)
10.2. TEOREMA DA DIVERGÊNCIA OU DE GAUSS
Seja 3 B ∈ ℝ um compacto, com interior não vazio, cuja fronteira coincide com a imagem de uma cadeia σ = (σ , σ , … σm). Suponhamos que, para cada índice i, seja 1 2
possível escolher uma normal unitária a σi, com apontando para fora de B. Seja
um campo vetorial definido na fronteira de B e que coincide com sobre σ ( ). i i
Seja 1 um campo vetorial de classe C num aberto contendo B. Pode ser provado (veja Seção 10.3 e referências bibliográficas [19] e [15]) que para uma classe bastante ampla de conjuntos B, nas condições acima, é válida a relação
conhecida como teorema da divergência ou de Gauss. (Observamos que a todo compacto B que ocorrer nesta seção e que satisfaça as condições descritas anteriormente, o teorema da divergência se aplica.)
Os próximos exemplos mostram algumas aplicações do teorema da divergência. Na próxima seção, destacaremos uma classe bastante ampla de compactos B para os quais o teorema da divergência se verifica.
EXEMPLO 1. Utilizando o teorema da divergência, transforme a integral de superfície
numa integral tripla e calcule, onde σ é a fronteira do cilindro
B 3 2 2 = {( x, y, z ) ∈ ℝ | x + y ≤ 1, 0 ≤ z ≤ 1}, e a normal apontando para fora de B.
Solução
Temos
onde 2 2 K é o círculo x + y ≤ 1. Portanto,
Segue que
(Sugerimos ao leitor verificar a igualdade acima, calculando diretamente
.)
■
EXEMPLO 2. Seja e seja σ a
superfície 2 2 2 x + y + z ≤ 4, z ≥ 0, sendo a normal a σ com componente z > 0. Calcule o fluxo de através de σ, na direção .
Solução
Seja 2 2 2 B o compacto x + y + z ≤ 4, z ≥ 0. Seja σ a superfície
1
σ 2 2 ( u, v ) = ( u, v , 0), u + v ≤ 4.
1
A fronteira de B coincide, então, com a imagem da cadeia (σ, σ 1). Pelo teorema da divergência,
Como div = 0, resulta
ou seja, o fluxo de através de σ, na direção , é igual ao fluxo de através de σ , 1 na direção . Temos
Mas, (x, y, z) ∈ Im 1 ⇒ z = 0. Daí
Portanto,
(Sugerimos ao leitor calcular diretamente .)
■
Seja 3 B ∈ ℝ um compacto para o qual vale o teorema da divergência e seja σ a fronteira de B, com normal apontando para fora de B. Pelo teorema da divergência teremos
para todo campo vetorial 1 de classe C num aberto Ω
contendo B 1 . Entretanto, se for de classe C em Ω e se B não estiver contido em Ω, a relação ① não terá nenhuma obrigação de se verificar. Veja parte b do próximo exemplo.
EXEMPLO 3. Seja
onde q é uma constante não nula.
a) Calcule div .
b 2 2 2 ) Calcule o fluxo de através da superfície esférica x + y + z = 1, com normal apontando para fora da esfera 2 2 2 x + y + z ≤ 1.
c 2 2 2 ) Calcule o fluxo de através da superfície esférica x + y + ( z − 2) = 1, com normal apontando para fora da esfera 2 2 2 x + y + ( z − 2) ≤ 1.
d) Calcule o fluxo de através da fronteira do cubo −2 ≤ x ≤ 2, −2 ≤ y ≤ 2, − 2 ≤ z ≤ 2, com normal apontando para fora do cubo.
Solução
a) div = 0 (verifique).
b 1 3 2 2 2 ) é de classe C Ω em = ℝ {(0, 0, 0)}; seja σ a superfície esférica x + y + z = 1
e seja 2 2 2 B a esfera x + y + z ≤ 1. Então, σ é a fronteira de B. Como B não está contido em Ω, não podemos aplicar o teorema da divergência no cálculo da integral
tal integral deve ser calculada diretamente. Segue do Exemplo 6 da seção
anterior que
c 2 2 2 1 2 2 2 ) Seja σ a superfície esférica x + y + ( z − 2) = 1 e seja B a esfera x + y + ( z − 2)
1
≤ 1. Assim, σ 3 é a fronteira de B . Como B está contido em Ω = ℝ − {(0, 0, 0)}, segue
1 1 1
que o teorema da divergência se aplica. Então,
d) Seja σ a fronteira do cubo −2 ≤ x ≤ 2, −2 ≤ y ≤ 2 e −2 ≤ z ≤ 2. Tem-se 2
onde é a normal a σ , apontando para fora do cubo. Verifique. 2
(Sugestão: Seja B o conjunto de todos (x, y, z) tais que (x, y, z) pertence ao cubo, com x 2 2 2 + y + z ≥ 1; divida B em duas partes e aplique o teorema da divergência em cada uma delas e, em seguida, utilize o item b.)
■
EXEMPLO 4. (Novamente a equação da continuidade.) Imaginemos um escoamento num aberto Ω de 3 ℝ, com velocidade (x, y, z, t) no ponto (x, y, z) e no instante t, com t 1 num intervalo aberto I ; é suposta de classe C. Seja ρ (x, y, z, t) a densidade no ponto (x, y, z) e no instante t. Seja B ⊂ Ω um compacto ao qual o teorema da divergência se aplica. Temos:
onde M (t) é a massa do fluido que ocupa a região B no instante t. Como é de classe C1,
que é a taxa de variação, no instante t, da massa M = M (t) que ocupa a região B. Seja σ a fronteira de B, com normal apontando para fora de B. Temos:
Se a massa dentro de B está aumentando é porque
se a massa está diminuindo é porque Tendo em
vista o “princípio da conservação da massa” e supondo que em Ω não haja fontes e nem sorvedouros de massa, é razoável esperar que se tenha
que é a equação da continuidade na forma integral. Pelo teorema da divergência
para cada t ∈ I. De ③ e ④ resulta
Pelo fato de ⑤ se verificar para toda esfera contida em Ω e da continuidade do integrando resulta
que é a equação da continuidade na forma diferencial, equação esta já obtida na Seção 1.4. (Veja no Apêndice 3 como se chega a ③ sem utilizar a palavra razoável.)
■
EXEMPLO 5. (Interpretação para o divergente.) Seja um campo vetorial de
classe 1 3 C num aberto Ω ⊂ ℝ e seja P ∈ Ω. Seja B ⊂ Ω um compacto ao qual o teorema da divergência se aplica, com P ∈ B. Seja σ a fronteira de B, com normal apontando para fora de B. Pelo teorema da divergência,
Sendo de classe 1 C, div é contínua em Ω; assim, dado > 0, existe δ > 0, tal que
|| X − P || < δ ⇒ | div (X) − div (P) | < .
Como (vol B = volume de B)
para todo B ⊂ Ω, com P ∈ B e diâm B < δ. (Observação: diâm B = diâmetro de B = maior de todas as distâncias entre dois pontos quaisquer de B.) Segue que
sempre que P ∈ B e diâm B < δ. Diremos, então, que tende a div
(P), quando B se contrai a P. Como
resulta que tende a div (P), quando B se contrai a P. Assim, a
divergência de em P é um fluxo por unidade de volume em P.
Se B tem diâmetro suficientemente pequeno
ou
isto é, se diâmetro de B for suficientemente pequeno e se P ∈ B, então o fluxo de através da fronteira σ de B será aproximadamente div (P) · vol (B), sendo a aproximação tanto melhor quanto menor for o diâmetro de B.
■
Exercícios 10.2
1. 2 3 Seja um campo vetorial de classe C num aberto Ω ⊂ ℝ e seja B ⊂ Ω um
compacto ao qual o teorema da divergência se aplica. Seja σ a fronteira de B, com normal apontando para fora de B. Calcule
2. 2 2 2 Seja ( x, y, z ) = ( x + y + z ) e seja σ a fronteira do cilindro x + y ≤ 4 e 0
≤ z ≤ 3. Calcule dS onde é a normal exterior, isto é, é a
normal que aponta para fora do cilindro.
3. Seja = x + y + z e seja B um compacto ao qual o teorema da
divergência se aplica. Prove
onde σ é a fronteira de B com normal exterior .
( 2 2 Sugestão : Aplique o teorema da divergência tomando para B o conjunto x + y
+ 2 z ≤ 1, z ≥ 0. Cuidado, σ não é a fronteira de B. Veja o Exemplo 2 desta seção.)
5. 1 3 Seja um campo vetorial de classe C no aberto Ω = ℝ − {(0, 0, 0), (1, 1,
1)} e tal que div = 0 em Ω. Sejam σ e σ superfícies esféricas de centros (0, 1 2
0, 0) e (1, 1, 1), respectivamente, e raios iguais a , com normais exteriores
e . Seja σ uma superfície esférica de centro na origem e raio 5, com normal 3
exterior . Prove que
6. 1 3 Seja um campo vetorial de classe C num aberto Ω de ℝ, com div = 0
em Ω. Seja B ⊂ Ω um compacto em forma de “tubo” (veja figura) ao qual o teorema da divergência se
aplica. Sejam σ e σ as secções transversais, com normais apontando para 1 2
fora e apontando para dentro de B. Suponha que seja tangente à superfície lateral do tubo.
7. Calcule sendo a fronteira de B com normal exterior , sendo
e) B é o paralelepípedo
8. 2 2 2 2 Seja σ o gráfico de f ( x , y ) = x + y , x + y ≤ 1, e seja a normal a σ com
componente z ≤ 0.
9. 3 1 Seja Ω um aberto de ℝ e seja um campo vetorial de classe C em Ω.
Suponha que
para toda superfície esférica σ, com normal exterior , contida em Ω. Prove,
então, que é solenoidal, isto é, div = 0 em Ω.
10. Sejam = x + y + z e r = || ||. Seja σ uma superfície esférica, com
normal exterior
11. 3 2 Sejam f, g : Ω ⊂ ℝ → ℝ de classe C no aberto Ω. Seja B ⊂ Ω uma esfera e
seja σ a fronteira de B, com normal exterior . Prove
12. 1 3 a ) Sejam e dois campos vetoriais de classe C em ℝ; seja B uma esfera
com fronteira σ e normal exterior . Suponha que rot = rot e div = div
. Suponha, ainda, que · = · sobre σ. Prove que = em B.
( 3 Sugestão : Observe que existe f : ℝ → ℝ tal que ∇f = − e utilize o item c do exercício anterior.)
b) Utilizando a, prove que existe no máximo um campo vetorial satisfazendo as
condições rot 3 = em ℝ, div = f em B e · = g sobre σ, onde
0 0 0