A Morte é Legal
Capítulo QUATRO
Eu dormi em paris e acordei em Tóquio, não entre em pânico, por
favor.
Algumas coisas sobre o mundo animal são realmente interessantes. Os crocodilos serem daltônicos e as girafas não possuírem cordas vocais, golfinhos dormirem com um olho aberto e as corujas serem as únicas aves a enxergarem a cor azul. Mas nada é mais surpreendente do que um pássaro que, rebelde às leis da existência, insiste numa vida após a morte. Andrew sabia disso e qualquer pessoa que visse todas as expressões de medo convergindo para seu rosto ficaria ciente do mesmo.
– Como você fez isso? Quer dizer, ele estava só desmaiado, não é? Qualquer resposta negativa será tratada como o fim de uma possível amizade.
Ive sorria, o queixo levemente erguido e as sobrancelhas arqueadas numa demonstração do divertimento que o garoto lhe proporcionava e com um ar indiferente respondeu:
– É por sua conta acreditar ou não, mas no final eu ainda ressuscitei o emplumado. Espero que ele aproveite porque não vai durar muito.
– Você não pode fazer isso. Não. Definitivamente não. Você é maluca, doida como uma beterraba! Por que você está fazendo isso comigo?
A garota deu um passo à frente e antes que Andrew pudesse recuar, ela pegou suas mãos e ficou tão próxima que podia sentir-lhe o hálito. A primeira vez em anos que o sexo oposto invadia seu espaço pessoal daquela forma. Andrew podia sentir uma rigidez tomando conta de seus músculos.
– Eu não sei o que existe de louco numa beterraba, você sabe? O que eu sei é que consigo ver a aura das pessoas, Andy. A sua está vermelha, você deseja alguma coisa, muito. E eu sou a garota que pode te ajudar a conseguir. É coisa de uma vez na vida, a chance de conquistar o seu sonho. – Com um sorriso de canto da boca acrescentou – E ainda por cima ficar na minha companhia, essa é a parte mais incrível!
Náusea e sufocamento. Suas mãos ficaram geladas e úmidas e sua respiração parecia vir mais difícil ao mesmo tempo em que seu coração acelerava. Não sabia a razão disso, mas era o tipo de coisa que acontece quando alguém pressente uma catástrofe. Forçou palavras a saírem dos lábios.
– Quem é você?
– Humn. A pergunta mais adequada seria o quê e não quem. Acho que posso explicar da seguinte forma, a minha mãe é dona da empresa que paga o último salário de todos.
– Você está dizendo que...
– Andy, querido, você é legal, mas não é muito esperto, não é? Estou dizendo que sou a filha mais nova da Morte.
Sua mente era um país cindido. De um lado estava a vontade de jogar a cabeça para trás com uma risada alta, de outro estava a neve percorrendo sua espinha e entre as duas coisas estava o passarinho cantarolando num galho, confirmando que a garota não estava mentindo. Morte, pensava consigo mesmo, não era algo com o qual deveria se deparar naquela idade, era algo a se evitar e da qual fugir e sendo a garota quem dizia ser, estava na hora de fazer valer as poucas aulas de educação física de que participara. Gostaria de desaparecer, mas ao mesmo tempo havia uma curiosidade que o inclinava a investigar.
– Eu preciso sair – disse Andrew. – Eu não sei se faz algum sentido, mas eu tenho que ir para casa.
– É melhor acreditar nela. Ive não aprendeu a contar piadas e sinceramente espero que continue assim.
Andrew olhou para os lados a procura da dona da voz e não encontrou coisa alguma. Somente ao olhar para perto dos pés da garota viu quem poderia ser. O medo ia sendo multiplicado e sentia-se como alguém adentrando uma avalanche.
– Não reclame da vida, você sabe quão entediante a morte pode ser.
– A coelha falou... – disse Andrew.
– A Prozy fala bastante, mas é melhor não ouvir as coisas dela, estraga seu humor de verdade. Está mais deprimida que o normal ultimamente. A coitadinha não gostou de ser transformada em coelha porque é alérgica a pelos. Mostre para ele um truque, querida.
– Lamento, não sou um cachorro para pular e fingir de morta – respondeu a coelhinha diante do ainda assustado Andrew. – Resolvam isso depressa, preciso ir para casa e trabalhar meu estágio de negação em paz. Eu sou alérgica a mim mesma, como isso é legal?
– Por favor, não me mate. Eu ainda tenho um monte de coisas, por favor, espere só eu terminar o meu livro e me declarar.
Ive riu com entusiasmo e quando finalmente parou para se recompor, respondeu:
– Eu não vou te matar, ainda sou uma ceifadora estagiária – após uma pausa – Estou aqui para lhe fazer uma oferta, Andrew. Eu posso fazer com que você fique com a menina dos seus sonhos. E isso vai ser mais fácil do que preparar um waffle de chocolate. Amor incondicional e sem contestação.
Ele não queria ouvir o que ela tinha a dizer. Tinha mais interesse em sair dali o mais rápido possível. Mas Andrew admitia, ainda que com hesitação, que a garota havia capturado seu interesse, uma chance prodigiosa de ter Briony e sem os sofrimentos que já enfrentava havia três anos. O seu olhar e o de Ive se encontraram e ela estava sorrindo como se houvesse acabado de falar sobre o clima ou como sorvete de morango é melhor do que limonada.
Andrew tentou se afastar, mas ela segurou suas mãos e disse:
– Você não precisa responder agora. Sei que isso deve ser meio estranho e tudo mais. – Ive tirou uma folha de papel verde do bolso – Vamos fazer o seguinte, vou te dar isso e se você mudar de ideia e aceitar a oferta, escreva sua resposta aqui e queime.
– Prefiro não me envolver. – respondeu Andrew. – Eu quero ir embora e não me encontrar com vocês de novo.
– Bem, você pode até não querer, mas uma hora ou outra a gente vai se encontrar, sabe como é... mamãe.
Não houve resposta ou movimento da parte de Andrew quando ela depositou o papel em sua mão. Direcionou seu olhar para baixo e com um ranger de dentes guardou aquilo no bolso, talvez jogasse fora na primeira lixeira. Havia a sensação de estar acordado e inconsciente ao mesmo tempo, incapaz de separar a realidade do sonho.
– Não me procurem – disse Andrew. – Obrigado pela oferta, mas eu acho que é melhor dispensá-la. E nem precisa se preocupar, eu vou manter minha boca fechada, eu juro.
– Ah, mas eu não vou te procurar, ora! – disse ela – Eu tenho tantos lugares para visitar, coisas para comer e gente para conhecer, que perseguir você seria de uma chatice sem igual. Eu já ofereci algo que é do seu interesse. Você sabe como me achar, docinho de tinta. Agora, eu e Prozy iremos ao zoológico. Já te falei que amo zebras?
A garota pegou a coelha em seus braços e antes de começar a se afastar com passos ligeiros e quase saltitantes, falou:
– Até mais, Andy. Mas que ora... acho melhor deixar para depois a nossa visita à loja de chocolates. Quebrou um pouco o clima, não é? Mas... Feliz dia dos namorados.
Ficou lá, medusado, com a mão no coração e sufocando soluços. O aparecimento daqueles novos personagens em sua vida o intrigaria pelo resto das horas seguintes. Olhou para o céu do meio dia que transcorria acima de si e pegou o livro que trouxera. Havia uma luta tão ruidosa em sua mente que Andrew imaginou se no mundo inteiro não havia um esconderijo.
Colocou um pé depois do outro e foi atravessando as ruas de Dresbel, sua companheira indolente. Ganhou amostras de perfume numa loja e deu moedas para uma mulher-estátua no centro da cidade, mas nenhuma dessas coisas fez com que se sentisse melhor. O dia dos namorados continuava uma droga pelo décimo nono ano consecutivo.