A Morte é Legal
Capítulo QUARENTA E SEIS
E eu disse que aqueles patins não eram bons o suficiente para
sapateado.
Alguns dias possuem um contorno diferenciado. Como se os detalhes fossem alinhados por uma mão invisível. Ali estava o dia em que existe algum tipo de esperança na esquina. Por outro lado, a esperança é a irmã gêmea do desapontamento. Stella sentiu um peso enorme comprimir seu peito. Fechou e abriu as mãos repetidamente, um movimento inconsciente que servia apenas para alertar ao marido que estava mais preocupada do que o normal. Olhou para o lado, Astrophel estava quieto. Estava mais silencioso e irritado desde o dia em que conseguiram o segundo nome, mal comia e seu sono não durava mais de duas ou três horas por noite. Olhou ao redor, como que procurando um rosto conhecido entre os presentes no restaurante. Conferiu o relógio mais uma vez. O atraso dela era como uma faca que penetrava um pouco mais a cada minuto. Estava sendo esticada e se partiria em duas a qualquer momento, sentia. A cada cem anos uma fada banida poderia clamar perdão à rainha. Aquela seria sua quinta apelação. Suspirou.
– Está tudo bem com você? – perguntou Astrophel.
Stella forçou um sorriso e respondeu:
– Não se preocupe comigo, vai ficar tudo bem.
Aquela pergunta a incomodava, como se estivesse à beira de um ataque fatal vinte e quatro horas por dia. Os deuses sabiam que ela poderia estar em melhores condições, isso era um fato, mas não lamentava por isso. Astrophel não lidava, não conseguia lidar com a hipótese de morrer, era-lhe inconcebível que houvesse um fim tanto para ele quanto para ela – havia nele uma angústia sufocada. Ao contrário dele, já fizera as pazes com o fim. Afinal, sabia que apenas a morte permitia que se tornassem pessoas individuais e autênticas. Gostaria que pudesse fazê-lo compreender isso. Mesmo se conseguissem reunir os nomes e uma salvação surgisse para eles, em algum momento, mesmo dali a mil anos seriam obrigados a encarar o fim – ou um fim. Já tentara conversar com Astrophel sobre isso, mas era como se batesse num muro. Sua única obsessão era encontrar os malditos nomes e salvá-la. Mas... e se não precisasse – ou quisesse – ser salva? Tivera uma vida longa e feliz, apesar de tudo. Morrer não podia ser uma coisa ruim – mas se tornaria caso prosseguissem por aquele caminho – era apenas uma pequena ruptura.
Começava a ficar entediada.
Seus olhos flanavam de um lado para o outro, se detendo ora na mulher solitária e cheia de joias num canto, ora sobre os homens que conversavam sobre negócios na mesa ao lado. Quão sérios e rígidos! Não gostava de pessoas assim, eram sempre tão penosas de suportar. Tinham uma tendência enorme a falar sobre assuntos sérios – um eufemismo para entediante. Olhou para sua aliança, há tantos anos em seu dedo que era impossível imaginar-se completa sem ele. E que também servia para lhe lembrar o motivo de sua proximidade com a morte. Pensar na morte, que coisa incomum para uma fada. O marido abriu a mão sobre a mesa, ela a segurou automaticamente, a força do hábito estava presente naquele pequeno ato. O ar entrou queimando seus pulmões. Hábito. Ali estava uma palavra que regia boa parte do que eram. Uma série de rituais diários. Onde estava a linha que dividia seu amor por Astrophel e o mero costume. Uma dança cujos passos haviam sido ensaiados e decorados. Um garçom passou, o tecido de sua calça roçou a mesa. Atarefados durante todo o tempo, indo aqui e ali com suas enormes bandejas. Quantas pessoas eles deviam ver todos os dias! Todas as formas, cores e origens espalhadas por cada uma daquelas mesas. Ela sentia falta da diversidade, afinal, todos os seus amigos estavam mortos – ou pior, nas cidades altas e cinzentas que serviam de moradia para seu povo. A vida era simplesmente solitária em alguns momentos. Nada de muito irritante, estava acostumada com isso, somente um pouco incômodo. Olhou para o relógio mais uma vez. O tempo não parecia seguir adiante, ponteiros que se moviam ligeiros feito pedras. Astrophel bebia pequenos goles de vinho e mantinha o olhar distante. Estava pensando no garoto. Andrew era o nome dele, ou algo parecido com isso. Parecia ser um bom garoto e era uma pena que estivesse pagando pelos atos da filha da Morte. Lembrou-se de como ele a encarou no cemitério, quando se feriu com os galhos da árvore. Havia um sentimento de preocupação em seu olhar. Tinha o mesmo tipo de olhos que sua filha, Anthea. Deviam ser quase do mesmo tamanho hoje. Qual cor teria seu cabelo? Seria uma garota parecida com ela ou com Astrophel? Cada uma dessas pequenas perguntas levava a um universo de outras especulações.
– Sua mãe está atrasada – disse Astrophel.
– Eu sei.
Homens. Falar o óbvio parecia fazer bem a eles, como se por uma intervenção divina pudessem ter controle de algo por meio disso. Passou a mão pelos cabelos e olhou para o marido. Amava-o, total e completamente, ainda assim, gostaria de poder ficar sozinha às vezes. O mesmo laço que os mantinha unidos funcionava como uma maldição. Não conseguiu evitar que a imagem de uma rêmora viesse à mente. Era isso o que sua vida havia se tornando, pensou com certo humor. Uma relação de comensalismo? Um sorriso surgiu no canto de seus lábios. Iria fazer algum comentário ao marido, mas sua atenção foi chamada para outra coisa. A porta de vidro do restaurante se abriu e um jovem de terno entrou com uma pasta de encontro ao peito. Stella conhecia-o, era um dos pajens da corte de sua mãe. Sabia o significado daquilo. Imagino porque não estou surpreso, murmurou Astrophel e acrescentou algum xingamento enquanto segurava sua mão. Uma recepcionista guiou o pajem até sua mesa. Parecia ter enfrentado chuva durante o percurso, seus sapatos estavam enlameados e seus cabelos desgrenhados. Ah, se Isadore visse um de seus criados caminhando dessa forma! O jovem os cumprimentou, dizendo:
– Boa noite, Stella, primeira princesa. Eu sou Bjastery.
Ele a encarava com curiosidade. Provavelmente assustado com sua aparência. Quão assustadora era a velhice para um cidadão do reino das fadas. Ou talvez imaginasse o que a filha da rainha Isadore fizera para terminar dessa forma. Ousou amar, este havia sido seu crime.
– Eu não mais uso esse título, ainda assim, agradeço a saudação. Por que minha mãe não está aqui?
O garoto empalideceu e suas palavras seguinte vieram num tom tão baixo que foi obrigada a chegar um pouco mais próxima.
– Sua mãe sentia-se indisposta. Os últimos dias tem sido cansativos para nossa rainha, estamos em vias de entrar em guerra com o povo da floresta negra e por isso ela tem gasto muito tempo com os generais.
Stella riu da resposta. Essa possibilidade de guerra já era aventada desde antes de seu nascimento. O que aquela resposta significava de verdade era: Não perderei meu tempo com você. Sua mãe não havia alterado sua decisão e provavelmente nem o faria. Bjastery abriu a pasta que trazia consigo e entregou um rolo de papel a ela.
– Sua mãe mandou lhe entregar essa carta. Lamento não ter sido de mais ajuda.
Tomou a carta em suas mãos e correu os olhos pela caligrafia delicada de sua mãe. A tinta preta borrada em algumas partes. Um fato raro, sua mãe não costumava escrever de próprio punho a não ser quando precisava tratar com realezas vizinhas. As palavras foram lidas com rapidez. Era como mergulhar numa piscina de inconsciência durante todo o tempo de leitura. Então, assim terminaria, pensou com uma dose concentrada de amargura e se levantou para sair do restaurante, ignorando o marido e o mensageiro. Gostaria de correr, mas seria difícil. Ouviu seu nome ser chamado. Já havia dado alguns passos quando sua visão se tornou escura. Caiu desacordada em frente ao garçom.
Cara Stella,
Eu ponderei longamente se deveria ou não me encontrar com você nessa data. Bem, caso você esteja lendo esta, já
sabe da minha decisão. Não seria certo. Serviria apenas para tornar tudo ainda mais complicado e fazer com que feridas hoje já cicatrizadas fossem abertas novamente. Nossos caminhos estão partidos, o meu, o seu, o de Astrophel, e, mais do que todos, o de Anthea. Você encontrará meus motivos para que não nos vejamos aí. O que deseja ao surgir na vida dela? Que bem isso pode causar?
Querida, você escolheu uma vida mortal, escolheu um homem ao invés de seu povo, escolheu a morte ao invés dos
campos – e eu não poderia permitir que minha neta tivesse o mesmo destino por causa de suas escolhas erradas. A garota não sabe da verdade e eu farei de tudo para que continue dessa forma. Anthea é uma garota inteligente e alegre, que passa suas tardes com livros e se divertindo com os amigos. Stella, você acha que ela continuaria a mesma pessoa caso alguém aparecesse dizendo: Eu sou sua mãe, ame-me?
Como você pode ser tão egoísta e não pensar no que isso desencadearia sobre ela? Como ficaria a mente dela? Eu
não preciso que as coisas aconteçam para saber como terminam. Deixe-me descrever. Anthea não conseguiria deixar de te lhe enxergar como uma estranha, intrusa. Nunca seria capaz de lhe chamar de mãe – e nem mesmo pelo nome. E isso faria com que ela se sentisse culpada porque você estaria ali, tentando sufoca-la com seu “amor” e ela não encontraria um pedaço no coração dela para lhe encaixar. E o quanto ela se afastaria de você seria proporcional ao esforço empreendido por você em se aproximar. Astrophel não seria o pai dela. Apenas estranhos que se esforçam demais, ambos.
Ela teria vontade de pedir para que você não aparecesse mais, contudo, como a garota educada que é, guardaria
isso apenas em pensamentos – o que lhe corroeria por dentro, tornando cada carta, cada conversa e cada visita sua, uma longa e dolorosa sessão de tortura. Ela é feliz hoje, nós somos felizes. Não estrague isso.
Não ouse simplificar as coisas me colocando como a vilã que separa mãe e filha. Pense bastante em tudo o que fez
para que a situação chegasse nesse ponto, em como você também machucou o sentimento de várias pessoas ao fazer escolhas erradas. Quantas vezes não lhe alertamos para as consequências? Você simplesmente a deixou no quarto uma noite e fugiu para ficar com um homem, qual direito você pode querer reivindicar a essa altura?
Agora você está morrendo, imagino. Anthea nunca ouvirá seu nome e quando você simplesmente desaparecer, ela não visitará seu túmulo. Eu lamento, é assim que a vida é. Receba essa carta como as minhas últimas palavras dirigidas a você, meu “não” definitivo.
Adeus,
Isadore, Vigésima Oitava Rainha das Fadas