A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 55 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo QUARENTA E NOVE

Querido diário, eu tenho certeza... Banana e pólvora são perigosas no

seu estômago.

 

Crescer é algo difícil que pode ter o sentido aplicado a várias coisas. Pode se referir a: plantas, animais, investimentos, lucros, eventos, cabelos, pés e até mesmo a bolos. Também existem as coisas que não crescem, como pedras, salários e privadas. E entre tudo o que foi citado anteriormente, pessoas estão incluídas. Todos crescem – com a óbvia exceção de Peter Pan e fãs de música pesada – embora o pai de Andrew fosse da opinião de que seu filho havia estacionado mentalmente no segundo trimestre de gestação. A única coisa boa em ser um perdedor é que ninguém espera muita coisa de você. O que significava que o mínimo feito seria uma surpresa.

O dia começou com uma briga na mesa do café da manhã. O Sr. Webley reclamou sobre como o garoto não procurava um rumo em sua vida e afirmou em poucas palavras sua desistência de tentar se orgulhar dele. Portas se bateram com força depois disso. A casa havia se tornado uma espécie de abrigo antibombas com um grande buraco no teto. O garoto se trancou em seu quarto e deixou que algum disco do Saves The Day fizesse as paredes tremerem.

Deitou-se na cama e ficou a olhar para o vazio. Como explicar a seu pai que nunca conseguiria ser feliz num emprego decente, que apenas se deprimiria ao ter seu corpo apossado por uma função – que não gostava de pessoas, que não teria paciência com elas e que as horas de trabalho seriam equivalentes a séculos? Não tinha a menor intenção de trabalhar mil horas por dia e ficar sem tempo para viver – exatamente como seu pai. Desperdiçando todo seu esforço para enriquecer um menos inteligente do que ele.

Andrew esticou a mão para alcançar o celular que tocava sobre a mesa. Provavelmente era Ive ligando para confirmar se iriam mesmo ao cinema naquela noite. Desligou o aparelho sem nem ao menos conferir. Tudo o que desejava era ficar sozinho. Andrew sentia-se como Sylvia – heroína de A Violinista de Fevereiro. Estava dividido entre tentar buscar aquilo que realmente desejava ou atender a vontade paterna e casar-se com uma carreira – o deformado príncipe Böll da história. Permaneceu ali, com os pensamentos em desordem.

Rolou de um lado para o outro. Detestava ser comparado com outros garotos da família. Quão responsáveis e esforçados! Odiava essa última palavra de tal forma que a riscaria de todos os dicionários se pudesse. Sempre as mesmas histórias sobre como as coisas foram difíceis para ele ou como tivera de trabalhar desde cedo – imbatível e indestrutível – para que Andrew pudesse levar sua vidinha dissipada. Sabia que precisava fazer alguma coisa, apenas não sabia o quê. Não conseguia se enxergar fazendo alguma coisa prática e ao mesmo tempo, lhe faltava o ânimo necessário para buscar uma vida acadêmica – nada lhe interessava. Poderia pedir uma incalculável soma de dinheiro quando reunissem todos os nomes do gato. Nem mesmo esse pensamento serviu de calmante.

Batidas soaram na porta. Andrew não se mexeu. As batidas continuaram. Levantou-se consternado e desligou a música, abriu a porta e encarou os olhos duros de seu pai. Posso entrar, perguntou ele. O jovem deu de ombros e abriu espaço. Sempre se surpreendia com o tamanho dele, toda aquela força e superioridade física. Querido pai: perguntaste-me certa vez por que motivo eu afirmava que te temia. As palavras iniciais da carta que Franz Kafka escreveu para seu pai cruzaram sua mente. Andrew saberia responder caso o homem que se colocava em silêncio à sua frente lhe perguntasse. Já sabia da resposta há alguns anos.

– Andrew, precisamos conversar... – disse o homem.

Não. Estava cansado de correr em círculos com seu pai. Sentiu que era a hora de falar o que realmente pensava sobre tudo aquilo, sem dar voltas ou enfeitar.

– Pai, eu estou cansado de tentar lhe agradar. De tentar tanto ser o filho perfeito. Eu lamento que você não goste de mim pelo que eu sou. Eu não consigo ser perfeito. Eu faço de tudo todos os dias para que você goste de mim do jeito que sou. Sei muito bem que não cresci como você queria que eu crescesse, mas você não pode simplesmente ser feliz por mim?

O pai escutou tudo em silêncio e não desviou seu olhar. Andrew fechou e abriu os punhos várias vezes, uma tentativa inútil de ficar calmo. Era interessante ver que apesar de já ter viajado até o mundo das fadas e ter sido esfaqueado por Astrophel, uma coisa que deveria ser simples lhe causava tanto medo. A diferença entre como gostaria de agir e como agia evidentes diante de si. O Sr. Webley puxou a cadeira e sentou-se.

– Você é igual a sua mãe – disse ele.

Não soube como absorver aquilo. Seria um elogio ou uma ofensa – nunca ouvira o pai comentar sobre ela desde sua morte. Andrew apenas sustentou os olhos do outro e aguardou o desenvolvimento daquilo. O homem caminhou até a janela e passou a mão pela cabeça algumas vezes antes de continuar:

– Filho, talvez você me ache rígido ou qualquer outra coisa. Acredite, tudo o que faço é porque eu me preocupo com você. Eu não vou estar aqui para sempre e você precisa aprender a ser homem. Você acha que vai escrever alguma história de monstros e isso vai pagar todas as contas? Esse tipo de coisa não acontece no mundo real. Quando eu tinha a sua idade eu também tinha fantasias e sonhos, eu queria ser jogador de futebol – mas uma hora a realidade bateu na porta e tive que fazer a coisa certa, estudar, arrumar um emprego.

Andrew sorriu, o tipo de coisa que se faz em um momento de nervosismo. Eu não escrevo histórias de monstros, pensou com amargura, seu pai não sabia nada acerca de seus escritos, nada. Aprender a ser homem? O que isso significaria? Ser como ele, um bruto sem uma molécula de gentileza? Se isso significava ser um homem, dedicaria toda a sua vida para não sê-lo. Cada passo que desse seria na tentativa de ser contrário ao pai em todas as formas. O pagamento por suas diferenças irreconciliáveis seria o afastamento puro e simples. Era impossível que tivessem – nem por uma vez na vida – uma conversa pacífica, nunca tiveram. O homem sempre lhe indagava por que não conversava, por qual motivo respondia a tudo o que lhe perguntava com pouco mais do que um sim ou não. Por causa do pai, assim como aconteceu com Kafka, desaprendera a falar. Não havia espaço para um interlocutor na presença do pai. Lamentava muito que ele tivesse desistido de seu sonho de jogar futebol, mas o garoto afirmava a si próprio que nada do que ouvisse o faria desistir. Seu olhar não se voltaria ao homem com simpatia, nunca mais. Estava cansado de admoestações e longos e tediosos discursos sobre como o passado era melhor, sobre como a nova geração não tinha caráter ou força de vontade ou sobre como deveria se portar ou viver. Aquela era a última estação e todo o seu desejo de querer agradar ao pai desceu do vagão. Talvez, num outro universo, aquele exato momento teria sido diferente. Filho, diria seu pai, vamos tentar outra vez. Contudo, não estavam em outro mundo e de agora em diante o processo de separação apenas se tornaria mais rápido e intenso. Não perderia mais nenhum segundo imerso no mundo incompreensível do pai – ele não havia visitado Hoon, não conhecera todas as criaturas mágicas que o cercavam todos os dias e nem ao menos tinha noção de como as coisas funcionavam.

– Quer mesmo saber? – perguntou Andrew. – Então escuta. Estou cansado de fingir que está tudo bem quando não está. Eu fico me esquivando o tempo todo, fugindo de você justamente por saber que não há nada que possamos conversar sem uma briga. Você acha que eu não sei de nada, mas se você tivesse passado por metade do que passei nos últimos dias... não teria aguentado. Olhe para trás, consegue encontrar algum momento desde que mamãe morreu em que você conseguiu conversar comigo direito? E dizer que estava me educando não é uma forma de justificar. A história é essa, eu não sou o Sr. Agradável e não vou mais tentar ser para te agradar.

– É melhor parar por aí... – murmurou seu pai. – Você não sabe como tem sido para mim desde que sua mãe morreu.

– Não, eu não vou parar. Por sua causa eu sempre pensei que eu não valesse nada, mas você está errado. Você não pega no pé de Amber por causa das músicas dela porque acha que por ela ser garota não tem problema, que ela vai encontrar um cara e se casar. Como você pode ser tão idiota e não perceber que minha irmã nunca vai ser esse tipo de menina? Não ouse usar a morte da mamãe para justificar suas atitudes, o senhor não foi o único a perdê-la.

Os olhos do homem se voltaram contra o jovem. Suas mãos grandes e fortes se agitaram com força e por um momento, Andrew pensou que seria atingido por elas, mas isso não aconteceu. O silêncio entre eles era quebrado pelo barulho dos carros que passavam pela rua e das pessoas. O garoto não podia deixar de imaginar o que passava pela mente do outro. Sob quais perspectivas ou ângulos estaria ele tentando compreender tudo? Pai e filho eram como dois soldados caminhando em um campo minado até o instante em que se ouve o som de uma bomba armada. Ambos permaneceram imóveis, qualquer movimento acarretaria numa explosão. O minuto se resumia em tentar adivinhar quem daria um passo sem ser reduzido a pedaços.

O pai suspirou e saiu em direção à porta. Os passos longos e barulhentos, como os de um soldado cansado.

– Pai... – chamou Andrew antes que ele saísse.

Ele parou, mas não se deu ao trabalho de encarar o filho. Andrew sentia algo preso em sua garganta, implorando para sair. As palavras que tentavam ganhar expressão eram como os personagens do filme O Anjo Exterminador de Luis Buñuel, ansiosas para saírem da sala de jantar, mas impedidas por portas e grades invisíveis. Um encarando as costas do outro até que Andrew dissesse:

– Deixa pra lá.

A porta bateu com força. Andrew permaneceu. Sua única companhia foi a certeza de que nunca entenderia aquilo que Robert Hayden considerava os ofícios austeros e solitários do amor. O resto do domingo caminhou tão rápido quanto um inverno.