A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 36 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRINTA E UM

Todos os pavilhões levam até a desolação, as crianças estão

desidratadas.

 

Andrew Webley não era o tipo de pessoa que gostava de compartilhar suas coisas. Talvez, isso se devesse primeiramente pelo fato de não gostar de seres humanos em geral. Por exemplo, odiava quando algumas de suas bandas favoritas começavam a fazer sucesso e todas as pessoas começavam a, de repente, amá-las também. Geralmente, costumava abandonar aquilo que se tornava muito conhecido. O mesmo se aplicava aos seus autores, livros, quadrinhos, discos, revistas e marcas de roupas. As músicas do Arcade Fire e as roupas Abercrombie & Fitch eram os últimos alvos dessa mania. Entretanto, pela primeira vez na vida, quis ter alguém mais com quem compartilhar aquilo que via. O Mercado Central das Fadas de Dresbel se erguendo diante dos seus olhos como um lembrete de que seu mundo havia ganhado novos e infinitos horizontes.

Havia uma sensação estranha em notar que dentre todas as pessoas da cidade, apenas ele conseguia enxergar aquela obra entre mundos. Ive o puxou pelo braço e fez com que entrasse no mercado. Havia dezenas de corredores abarrotados de lojas de artesanatos e restaurantes. Andrew buscava dentro de si formas de nomear todas as criaturas que via passando por ali, mas nenhuma palavra poderia fazer paralelo ao que se desdobrava diante dele. Que inusitado ver duendes e animais falantes na sua frente quando passara seus últimos anos os descrevendo em folhas de papel. Era como ver um desfile dos personagens de A Violinista de Fevereiro andando de um lado para o outro. Não faça muito contato visual, disse Ive, eles não gostam desse tipo de coisa por aqui.

Estavam passando por uma parte do mercado onde havia animais exóticos amontoados em gaiolas, dodôs em oferta, um tigre-de-bali recém-nascido, ovos de cocatrice e uma ninhada de chupa-cabras trazidos diretamente de Porto Rico. O cheiro era insuportável e cada mercador tentava segurá-los para fazer uma oferta. Mas nada foi mais complicado do que abrir caminho entre uma banda de vinte e nove duendes que cantavam pop sueco.

– Onde estamos indo? – perguntou Andrew.

– É logo adiante, Obie é dono de uma livraria aqui.

Deram inúmeras voltas pelo labirinto de corredores até chegarem a uma grande livraria, onde um pequeno servo de orelhas pontudas varria o chão e resmungava xingamentos na entrada.

– Olhe o pobre Puck, ai de mim, ai de mim. Tanto trabalho e pouca recompensa. Robin Goodfellow sempre foi um bom companheiro e ganha somente uma vassoura. Ai de mim, não mais o alegre andarilho da noite, mas o pobre varredor.

Ive riu baixo e perguntou:

– Olá, Puck, como andam as coisas?

A criatura fez uma mesura e respondeu:

– Oh, Princesa do Fim Inevitável, elas não andam. É um prazer tê-la aqui. Diga no que o pobre Robin Goodfellow, seu querido Puck, pode ajudá-la. Vejo que trouxe uma companhia inusitada.

– Estamos procurando Obie. Este é Andrew e ele está me ajudando.

O duende colocou sua vassoura num canto e pediu para que o grupo entrasse na loja. O interior era pouco iluminado e bastante empoeirado, com livros que ocupavam cada espaço do chão até o teto. Títulos em tantos idiomas que era impossível reconhecer menos da metade deles. Lontras bibliotecárias limpavam e organizavam os livros por ordem de nome dos autores. Um cartaz na entrada indicava aos visitantes onde poderiam encontrar o que buscavam, desde manuscritos, mapas, pinturas e microformas, até gravações de áudios. O que realmente chamou a atenção de Andrew foi um manuscrito dentro de uma caixa de vidro sobre o balcão. Leu a etiqueta com curiosidade: “Poética” de Aristóteles, edição completa e autografada, não está à venda.

Um dos livros mais raros na história da humanidade. Andrew sabia que muita coisa sobre o modo como as pessoas entendiam as histórias havia nascido com aquela obra. Era demais para sua cabeça, imaginar que diante de si estava uma coisa pela qual todos os amantes de livros enlouqueceriam. Sentiu uma vontade inigualável de tocar e sentir a textura do material. Se aquilo estava ali, o que mais não poderia haver espalhado pelas estantes?

– Eu imaginei que você iria gostar daqui – disse Ive.

Estavam caminhando por entre as estantes enquanto Puck fora buscar seu mestre. Andrew e a garota folheavam tudo e qualquer coisa e corriam para trocar cada nova descoberta; fosse um exemplar de Alice no País dos Espelhos ilustrado por Gustave Doré post-mortem ou livros de Edward Lear com comentários de Napoleão Bonaparte. Ive escolheu dois livros e pagou a uma das lontras. Havia livros que não faziam sentido algum, outros que eram apenas a mesma palavra repetida milhares de vezes em fontes diferentes. Algumas etiquetas evidenciavam as bibliotecas de Alexandria e Babel como donos originais de algumas partes do acervo.

Foi nesse momento que Puck e seu mestre chegaram.

– Sejam bem-vindos, queridos – disse o dono. – Ive, Princesa do Fim Inevitável e amigos, vocês são convidados em minha casa.

– Olá, Oberon do Mar de Histórias. É um prazer vê-lo novamente.

– Sintam-se a vontade, é como dizem, mi casa, su casa.

Oberon era uma criatura pouco mais alta que Andrew e tão gordo que suas vestes pareciam lutar para não explodir. Sua pele era verde, coberta de escamas e seus olhos eram grandes e vermelhos. Vários brincos estavam pendurados nas orelhas pontiagudas e seus dentes eram grandes e pareciam lápides cobertas de um musgo que seria melhor não identificar. Ele estendeu a mão grossa e trocou um aperto com os convidados.

– Como tem passado? – perguntou Ive. – A última vez em que nos encontramos foi durante a Inquisição Espanhola e nem pudemos conversar direito. Pobre mamãe, estava sempre ocupada naquela época.

– Tempos difíceis, tempos difíceis. Ninguém espera a Inquisição Espanhola! Eu estou indo bem, como pode ver, vivendo numa brisa calma. Tirei alguns dias de férias em Gondal, uma ilha no Pacífico Sul, ótimo lugar para descanso.

– Nunca ouvi falar nessa ilha – comentou Andrew.

– Não está nos mapas – respondeu Obie. – Apenas para associados. Agora, vamos aos negócios, em que posso ajudá-los?

– Precisamos de sua ajuda para encontrar uma coisa.

Andrew podia sentir que o clima mudara num instante. O sorriso aberto no rosto de Oberon deu lugar a uma expressão fechada, como se já esperasse o que estava por vir. Puck se afastou em silêncio, reconhecendo que aquele não era o momento ideal para ficar ali. O livreiro passou as mãos em seus cabelos grisalhos e fez um gesto pedindo para que continuassem.

– Estamos procurando o segundo nome do gato – disse Andrew. – É muito importante que você nos ajude.

Oberon sacudiu a cabeça negativamente e respondeu:

– Vocês perderam a razão. Eu e o patife não somos mais amigos, aquele gato trapaceiro. Isso é demais até para você, Ive. Se essa informação caísse nas mãos erradas, sua família arrancaria os meus dentes com um cortador de unhas.

– Isso não vai acontecer – disse Ive. – Eu sei que Titânia lhe abandonou para ficar com ele... Veja bem, essa é a sua chance de dar o troco. Eu juro que não deixaria que minha irmã soubesse de nada, o segredo estará a salvo comigo.

– Isso vai além de uma briga por causa de uma mulher, Ive – respondeu ele. – Pode significar até mesmo o fim do mundo. Eu sei que Astrophel também está atrás dos nomes, esconder-me dele é o máximo que uma pessoa pode aguentar. Eu não saio dessa loja há mais de quarenta anos.

Andrew sabia que ele não entregaria a localização do nome facilmente se nem mesmo Astrophel era o bastante para assustá-lo, teriam que pensar em algo impossível. Estava absorvido em seus pensamentos quando uma lontra bibliotecária se aproximou e disse:

– Mestre, o Sr. John Dee enviou uma carta dizendo que aparecerá por volta das três horas da tarde para negociar aquelas enciclopédias de feitiços da Dinastia Ming.

– Eu já disse a ele que não está a venda, são obras de estimação. Esse homem acaba com os meus nervos, veja só – Oberon voltou sua atenção aos visitantes. – Como podem ver, hoje será um dia cheio. Lamento que eu não possa ajudá-los na busca, mas acho que chegarão à conclusão de que isso não é uma coisa com a qual devam brincar. Fiquem à vontade para desfrutar da loja, mas não contem comigo para nada além de livros.

Andrew olhou para todos aqueles que estavam próximos, deixando que um plano aflorasse em sua cabeça. Havia uma forma de fazer com que saíssem dali com a localização do segundo nome. Seria perigoso e de caráter absolutamente duvidoso, nada que não houvessem feito antes. Ive enfiou as mãos no bolso e perguntou:

– Sua última palavra sobre o assunto?

– Sim, Ive Princesa do Fim Inevitável. Mande lembranças a sua família.

A garota deu de ombros e respondeu:

– Bem, então, acho que não vou mais te incomodar. Darei lembranças suas à minha mãe – olhou para Andrew e piscou. – Andy, eu acho que é hora de irmos para a casa, acho que temos um pouco de jardinagem para fazer.

Ive sabia que estava se preparando para fazer alguma coisa, talvez alguma mudança em sua aura houvesse indicado isso, o que era bom. Despediram-se do livreiro e se viraram para sair. Estava na hora de colocar sua ideia em prática. Surpreendeu-se ao notar que estava tomando uma atitude, sendo que isso nunca fora o seu ponto forte de maneira alguma. O único problema em escolher um lado é: alguém termina insatisfeito.

Andrew tinha esperanças de que não fosse ele.