A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 66 de 79

Páginas do PDF

A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA

Eu tenho um martelo, Karenina, agora, preciso testá-lo na sua cabeça.

 

Andrew foi o primeiro a chegar naquela noite, Ive e Prozy vieram meia hora depois e se juntaram a ele em frente a mansão em Pound Boulevard, ficaram escondidos atrás de uma grande árvore. Havia um sem número de residências iluminadas e ateliês de alta costura onde pessoas ricas se encontravam para debater a vida alheia. A única vez em que visitara aquela parte da cidade foi quando acompanhou seu pai numa festa oferecida por um dos clientes do banco. Observaram a construção branca que se erguia diante deles, assim como os carros que começavam a estacionar para que seus passageiros, homens e mulheres em seus melhores trajes, entrassem um após o outro. Um homem forte recebia os convites e tomava conta da entrada.

– Esse é o lugar certo? – perguntou Andrew.

– Pelo menos foi o que Kivian nos disse – respondeu a garota.

– Claro que estamos ignorando o fato de que ela é uma sociopata presa no Inferno – disse Prozy. – Isso é apenas um detalhe, não liguem para mim.

O garoto era obrigado a concordar com a coelha.

Aguardaram até que todos os convidados tivessem entrado. Ive ajeitou seu trench coat e começou a caminhar até a mansão. Andrew tomou Prozy em seus braços e a seguiu esperando por desastres. Podiam enxergar um jardim atrás do portão gradeado. O porteiro encarou o grupo com desconfiança à medida que se aproximavam e sem tirar os olhos de Ive, falou:

– Convites, por favor.

Andrew viu a garota parar por um momento e sorrir.

– Lamento muito pelo incômodo e espero que sua aterrissagem seja suave – disse ela.

O porteiro fez uma cara confusa, mas antes que tivesse a oportunidade de reagir, foi atirado para dentro da mansão pela magia de Ive. O trio o viu atravessar o grande salão de entrada e chocar-se contra um busto de Palas.

O lugar era decorado com centenas de peças antigas: máscaras, tapeçarias, armaduras, pinturas e esculturas de todas as épocas. Andrew imaginou quem seria o dono de tudo aquilo e ficou tentado a pedir algo parecido quando estivessem com todos os nomes do gato. O grupo já começava a caminhar para procurar aquilo que a irmã mais velha de Ive dissera, quando ouviram:

-... agora, Chabul! Fomos invadidos, desça aqui.

Ive fez o rádio do porteiro explodir em sua mão e continuou a caminhar. Kivian dissera que precisavam encontrar a sala de reuniões. Tentaram abrir todas as portas à medida em que iam pelos corredores. Precisavam sair dali antes que mais seguranças surgissem. Ive não desanimava em sua tarefa e Prozy corria pelo chão tentando sentir qualquer energia estranha. Passaram por mais de dez corredores em minutos e isso fazia tanta diferença quanto ser capaz de amarrar uma forca com os dentes.

– Nos não conseguiremos fazer isso a tempo – disse Andrew.

– Não me diga, Einstein – respondeu Prozy.

Ouviram o barulho de conversas numa das alas e seguiram por lá. Andrew sentia um medo crescente. Os passos ecoavam no piso de mármore. Abriram a porta no fim do corredor e descobriram que as vozes ouvidas pertenciam ao grupo de cozinheiros que preparavam um banquete – o garoto reconheceu o cheiro de ziti à distância. Todos olharam para os intrusos e xingaram alguma coisa em italiano. O trio ainda estava se desculpando quando a outra porta de acesso da cozinha se abriu com violência e uma nova figura entrou. Os olhos de Andrew foram dos tênis vermelhos ao suéter azul com listras laranja, somente então se detiveram no rosto e na metralhadora que ele tinha em mãos. Uma cabeça verde e cheia de tentáculos, olhos enormes e escuros que refletiam todos os presentes e uma boca cheia de dentes.

– Acho que sabemos quem é o tal de Chabul – disse Prozy. – É bem mais feio do que eu esperava.

Após um breve silêncio em que os presentes olharam de um para o outro, todos os cozinheiros se jogaram desastrosamente no chão e balas voaram rumo ao grupo que saiu em disparada. Ive mandou que ele e a coelha se escondessem atrás de uma das pilastras da entrada e ficou parada enquanto o perseguidor vinha pelo corredor. Andrew espiava a metralhadora ser apontada contra a garota e mais tiros sendo liberados. Ive derrubou parte da parede com os seus poderes para se defender e escondeu-se atrás de uma armadura. Mas isso não iria deter a criatura, que continuava firme em seus passos e em seus tiros, acertando sem fazer distinção.

Ela tentava atacar mais uma vez, lançando objetos e blocos de cimento. Poeira e lascas se misturavam no ar enquanto Andrew e Prozy se afastavam à medida que a briga ia se aproximando deles. Saiam daqui, gritou Ive enquanto se defendia de uma nova rajada. Andrew balançou a cabeça negativamente, não faria isso, não poderia deixá-la para trás. Olhou ao seu redor em busca de alguma coisa que pudesse lhe ajudar e teve uma ideia. Disse a Prozy o que pretendia fazer e mandou que encontrasse o que procuravam.

Ive corria em direção a Chabul e lançava relâmpagos vermelhos que não surtiram efeito. A garota podia ser ouvida proferindo xingamentos enquanto seu oponente recarregava a arma. Andrew deu as costas para esses eventos e subiu as escadas empunhando a espada e o elmo de uma das armaduras caídas. Evitou olhar qualquer espelho por estar certo de que parecia ridículo. Ficou parado no balcão superior e gritou:

– Eu tenho uma ideia, Ive! Traga-o para perto da escada.

– Isso não vai dar certo, Andy – respondeu ela.

– Faça o que eu disse.

A garota não disse nada, mas Andrew percebeu que ela fazia o que lhe fora pedido e a criatura se tornava cada vez mais nítida. O garoto se abaixou quando tiros vieram em sua direção. Ive lançou uma granada de anti-imaginação que fez com que Chabul sacudisse os tentáculos e investisse contra ela feito um touro. Andrew torceu para que ao menos uma vez em sua vida algo não desse errado. Subiu no parapeito e segurou a espada com força. Tentou ignorar o significado do tremor em suas pernas. Lá embaixo, a luta se tornava mais ferrenha. Esperou até que o inimigo estivesse bem visível e saltou com um brado que poderia ser descrito apenas como uma mistura de Tarzan com Marilyn Monroe.

Um momento de frio no estômago e a negociação mental com alguma entidade divina de que seria uma pessoa melhor caso sobrevisse. Tudo aquilo pareceu levar horas para acontecer, enxergava o monstro perfeitamente, cada vez mais perto. Ive lhe encarava boquiaberta. O chão se aproximava. Fechou os olhos e cerrou os dentes. O impacto chegou sem nenhuma sutileza e fez com que sua cabeça explodisse em dor como se uma bomba atômica tivesse sido detonada lá dentro, contudo os danos provocados em Chabul eram mais extensos: sua metralhadora havia sido derrubada e uma lâmina estava cravada em suas costas.

A criatura gritava em dor, foi quando uma nuvem de fumaça negra escapou fazendo com que as mãos de Andrew tremessem e sua visão fosse obscurecida. Sentiu sua garganta ser envolta por tentáculos frios e um hálito de carcaça marinha invadir seus pulmões. Tentou desferir socos que resvalavam no corpo gelatinoso do inimigo sem nenhum efeito. Sua traqueia ia sendo comprimida impiedosamente. Tentou chamar Ive, mas nenhum som escapou de sua boca.

Já imaginava o que seria escrito em seu epitáfio quando o aperto afrouxou-se de repente. Caiu de forma pesada e rolou para o mais longe possível. Não fazia ideia do que poderia ter acontecido, mas precisava se afastar daquele monstro.

– Está tudo bem, Andy – disse Ive e ajudou-o a se erguer.

Os cozinheiros italianos corriam desesperados para fora dali gritando coisas que Andrew não compreendia. Esperaram alguns minutos até que seus olhos voltassem ao normal. Chabul jazia morto com a espada em suas costas e Ive se certificara de que a cabeça não estivesse ligada ao pescoço. O salão de entrada estava em pedaços, com vidros estilhaçados e buracos de balas.

Subiram as escadas onde a coelha os aguardava coberta de poeira e espirrando incessantemente. O garoto imaginou se aquilo era causado pelo excesso de pó ou por ela mesma. Eu encontrei a sala, disse ela, não é longe daqui. Enquanto seguia as direções dadas por Prozy, o garoto notou que a perna de Ive sangrava.

– Você foi atingida – disse Andrew com preocupação.

– Sim, o idiota me pegou distraída – respondeu ela dando de ombros. – Isso não vai me matar, só incomoda um pouco. Corpos humanos são muito frágeis.

Ive segurou em sua mão e continuou em seus passos, mancando levemente. Sabia que de acordo com o que vira antes ela estaria bem em poucos dias, apenas precisava descansar. Aquela era a vantagem de ser uma criatura sobrenatural, pensou, um plano de saúde melhor e poderes legais. Caminharam pelo corredor do segundo andar até se depararem com uma porta dupla de madeira. Havia barulho vindo de dentro, conversas e microfonia.

– Posso sentir uma força estranha aqui dentro – falou a garota. – Acho que está na hora de conhecer nossos anfitriões.

Ive fez alguns gestos e escutaram o som de trancas sendo abertas. Andrew olhou com curiosidade enquanto as portas deslizavam, dando visibilidade a um enorme auditório e um palco onde alguns homens e uma forma translúcida dividiam uma mesa e microfones. Todos os olhos se viraram para o trio que se caminhava pelo centro. Andrew capturava a plateia de relance, com a nítida sensação de que conhecia alguns rostos. Uma tempestade de murmúrios e protestos se fez ouvir entre olhares assustados. Ive parou de repente e os olhos no fantasma que tentava flutuar para fora do palco.

– Fique onde está! – gritou ela. – Não tente fugir ou eu contarei para a minha irmã sobre o seu passeio. Estou muito desapontada com o senhor, Bill.

O queixo de Andrew desabou e seu coração bateu mil vezes por segundo. Havia reconhecido o fantasma. Ali, naquele auditório, estava o maior escritor de todos os tempos, aquele que inventara o homem moderno: William Shakespeare.