A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 42 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRINTA E SETE

As coisas mais entediantes do mundo são semáforos e pessoas.

Contudo, esquilos são confiáveis.

 

Sim. Aquilo aconteceria. Andrew havia aprendido uma coisa em sua vida recente. Não importava quão ruim uma situação estivesse, poderia ficar ainda pior. Era como ir à festa de final de ano do banco onde seu pai trabalhava – onde as músicas eram de gosto duvidoso e os participantes ainda irritantes. Esse é o exemplo de algo ruim. E então havia uma coisa pior: o que faziam naquele exato momento da noite. Andrew, Ive e Prozy se encontravam num beco, prontos para ir esgoto abaixo. Havia alguns prédios ao redor, mas tudo era calmo e silencioso por ali. Ive lançou um feitiço para despistar qualquer observador casual e conferiu se não deixara nada passar.

Os olhos de Andrew encontraram os da garota, que sorria enquanto tirava um par de lanternas e máscaras cirúrgicas da mochila. Eu não consigo acreditar que vamos fazer isso, disse Prozy, claro, vamos levar a coelha alérgica para dentro do esgoto.

Andrew também não estava ansioso para sujar sua nova camisa do Neutral Milk Hotel e seu cachecol. Estavam ali porque era a única entrada para a Cidade dos Ratos e em algum lugar lá embaixo estaria Josephine e o segundo nome. Retiraram a tampa de metal e recostaram numa parede.

– Bem, acho que está na hora – disse Ive. – Isso é tão emocionante, pessoal.

Andrew fez uma cara feia e respondeu:

– Eu não sei o que existe de particularmente emocionante em fazer isso.

– Eu nem sei por que a gente está fazendo isso. Claro que eu poderia estar no mundo espiritual, cuidando da minha morte e tudo mais, mas não, estou aqui com duas cabeças de mesa! – resmungou Prozy.

Andrew colocou sua máscara, pegou a coelha e seguiu logo depois de Ive. O cheiro do esgoto lhe golpeou feito um trem. Era como mergulhar num pote de maionese podre. A galeria se alongando por centenas de metros e se bifurcava em labirintos capazes de levar a qualquer parte da cidade ou fazer com que alguém se perdesse indefinidamente. Podia escutar ratos correndo de um canto para outro no escuro, os guinchos que viajavam os túneis.

– Ligue sua lanterna e aponte para as paredes – disse Ive.

Andrew fez o que a garota lhe pediu e começaram a caminhar.

– O que estamos procurando? – perguntou Andrew.

– A maneira de encontrar a Cidade dos Ratos, existe uma marcação por aqui que pode nos levar. Essas lanternas são feitas para detectar qualquer substância mágica. Roubei de um armário da D.I.E antes de vir para cá.

– Ótimo, agora se Rayla nos encontrar ainda responderemos por furto – disse Prozy.

– Não seja tão pessimista, Prozy, isso pode lhe dar um monte de rugas – disse a garota e acrescentou: – Eu me sinto estranha aqui em baixo, é como se eu estivesse fora de sintonia.

Iam pelos túneis, e cada passo deixava Andrew mais nauseado. Odiava o fedor, odiava escutar baratas sendo esmagadas sob seus pés, e ainda mais, odiava sentir seus tênis ficando encharcados com a água suja que corria cada vez mais volumosa, formando um rio podre. Continuava procurando o tal símbolo que Ive mencionara, entretanto, sua mente vagava e vagava até chegar ao dia da apresentação de Briony. Um pensamento havia se infiltrado em sua cabeça dias após o ocorrido. Lembrava-se exatamente de onde estava quando a pergunta se insinuara com força pela primeira vez. Deitado na cama, rabiscando algumas linhas de A Violinista De Fevereiro. Lá estava a interrogação, ressoando e gritando com um par de bongôs tocados por um bêbado. Poderia estar se apaixonando por Ive? Seus olhos espiaram-na para ter certeza de que ela realmente existia. Lembrou-se de como sua primeira preocupação durante o incêndio não fora com Briony e não chegou nem mesmo a lhe dar um telefonema – desses dados quando a etiqueta é maior do que a verdadeira preocupação. E ali estava a filha da Morte, com quem transitava por vários assuntos durante horas. Livros, músicas, piadas e sonhos idiotas. E seria também possível um avesso nessa história? Não conseguia deixar de se perguntar isso. Poderia Ive estar gostando dele? Ora, ela já o havia beijado uma vez. Por que não? Eles se davam super bem, se entendiam e gostavam. Por que não? Mas... Não. E onde se encaixariam seus sentimentos por Briony? E outra pergunta. Quem era Briony? A garota que arrumou um namorado e que provavelmente – que horrível era o reino das suposições! – nem o tinha como melhor amigo. Seria possível que Ive estivesse correta e no fim das contas tudo o que sentira nos últimos três anos não passasse de um simulacro de amor? Transformara o amor na coisa amada. Seria a verdadeira Briony uma garota normal e desinteressante com quem tinha pouco ou nada em comum? Teria errado por três anos sem chegar a lugar algum? Perguntas e perguntas e perguntas. Não sabia interpretar aquelas inquietações da alma e da vida. Era impossível traçar a linha onde pudesse escrever essas respostas. Meu Deus, pensou, parece que isso nunca chegará ao fim.

– Andy? Acho que encontramos alguma coisa.

A voz de Ive fez com que saísse dos devaneios. Olhou para a garota que lhe indicava algo na parede adiante. Compreendeu o que ela quis dizer ao apontar sua lanterna naquela direção. Toscamente escrito em roxo, estava: Cante para os surdos. O único problema era entender aquela mensagem. Procuraram mais alguma coisa, mas não havia nada que pudesse ajudá-los. Ive tentou usar uma magia para localizar a entrada, mas havia uma proteção que anulava seus poderes – o que era uma péssima notícia, pois estariam completamente desarmados quando chegassem lá.

– É sério que não entenderam o que isso quer dizer? Por favor, não acabem com todas as minhas esperanças em pensar que não são tão idiotas quanto parecem – disse Prozy.

Andrew olhou para a coelha em seus braços e perguntou:

– Você entendeu?

–Vocês são tão idiotas quanto eu imaginava. Cante para os surdos, ou seja, é preciso cantar para as paredes, tolos.

O garoto e Ive se entreolharam incrédulos, não podiam acreditar que Prozy estivesse certa. Também não estavam levando aquela interpretação a sério, a coelha poderia estar fazendo isso apenas pelo prazer de vê-los passar vergonha.

– Andy,você é o garoto musical, vá em frente, cante – falou Ive. – Eu não conheço muitas músicas e nenhum de nós gostaria de ouvir Prozy cantar. Sobra a sua pessoa.

– Eu não sei cantar. Eu nunca participei nem mesmo dos musicais da escola. Desculpe, mas não farei nada disso.

– Andrew Webley, não seja uma menina, comece a cantar agora antes que eu faça você beber água de privada. Nós já chegamos até aqui...

Andrew fechou a cara e ficou em silêncio. Odiava quando as pessoas o mandavam fazer as coisas, fosse quem quer que fosse. Não respondeu coisa alguma, faria o que as duas queriam que fizesse e quando não funcionasse teria o prazer de estar certo. Vasculhou dentro de seu repertório mental alguma canção que conhecesse bem. Passou por um acervo de músicas do Frank Sinatra que sua mãe escutava pela casa, coisas aleatórias que assistia na MTV. Um pequeno clique na sua cabeça e se lembrou de uma canção que sabia de cor.

– Andy, eu estou esperando – disse Ive.

– Calma, isso não é a coisa mais fácil de se fazer assim do nada.

Respirou fundo e buscou a trilha sonora dos anos escolares. As palavras de Creep foram saindo de sua boca com grande esforço e respeito – que aqui pode ser definido como uma tentativa de não desafinar mais de três vezes por palavra. O que ainda assim faria Thom York corar em vergonha alheia se fosse obrigado a ouvir.

Andrew já estava desistindo, entretanto, foi obrigado a mudar de ideia quando algo tornou evidente que isso não seria necessário. Símbolos brilhantes surgiram nas paredes, brilhavam em vermelho vivo e seguiam por todo o túnel. Os três se entreolharam maravilhados.

– Deu certo. – falou Prozy. – Isso é para vocês não esquecerem quem é o cérebro aqui.

– Não fique tão convencida, coelha idiota, é a primeira vez em que você foi útil – respondeu Andrew.

Seguiram as marcas na parede por diversos túneis. Era como passear por um labirinto sem fim. Iam de um lado para outro, viravam aqui e ali, subiam, desciam, atravessavam galerias e não estavam nem um pouco mais perto. Tiveram que engatinhar por um duto, atividade que fez com que Andrew vomitasse e falasse mal de toda a sua existência.

Andrew imaginou em que parte de Dresbel estariam. Sem a ajuda daquelas marcas seria impossível voltar para casa. As lanternas estavam começando a piscar. Olhou para Ive, ela também parecia preocupada com isso, seus poderes ainda não estavam funcionando. Os dois se deram as mãos numa espécie de conforto silencioso. As marcas brilhantes os haviam levado até uma porta verde numa galeria repleta de manequins amontoados.

– Aqui estamos – disse Ive. – Temos que ser cuidadosos, eu não posso usar meus poderes enquanto não sairmos daqui, alguma coisa está me impedindo desde que entramos.

Andrew e Prozy assentiram em silêncio. A garota deu algumas pancadas na porta. Não houve tempo de espera, pois o evento seguinte foi uma portinhola se abrindo e dois enormes olhos amarelos hostis. Estamos procurando Josephine, disse Andrew. A coisa do outro lado os encarou com ainda mais intensidade. O trio sentiu que estava com problemas.

Sim.