A Morte é Legal
Capítulo TRINTA E CINCO
Eu gostaria de ser uma bailarina, mas não consigo, sou uma aberração
que não merece nada disso.
A noite chegou. Andrew havia comprado roupas novas e adquirido um novo corte de cabelo – que lhe cairia ainda melhor caso fosse um ex-militar com noventa anos de idade. Escolheu um de seus cachecóis e conferiu o relógio mais uma vez. Ive estava atrasada. A apresentação de Briony seria dali a pouco. Pegou sua carteira e saiu do quarto. Amber e seu pai estavam na sala assistindo a um documentário sobre mangustos. Sentou-se ao lado da irmã enquanto esperava pela filha da Morte. Deu um pequeno sorriso ao imaginar como sua vida mudara desde que a garota de mechas verdes entrara em sua vida.
– Andy, esse bicho é muito esquisito, cara. Ele é todo bonitinho, mas, debaixo dessa pele tem um assassino, ele come serpentes como se fossem lasanhas.
– Quem diria – respondeu o garoto.
Seu pai, que estava deitado de braços cruzados no outro sofá, lançou-lhe um olhar e perguntou:
– Vai sair?
– Briony irá tocar num lugar hoje, estou esperando Ive para que possamos ir juntos.
– Precisa de carona?
– Não. Vamos de táxi.
– Tome cuidado.
Amber riu e falou:
– Ive é a namorada dele. Eles não desgrudam um do outro mais – começou a cantar – Andy e Ive, sentados numa árvore, se beijando...
– Fique quieta – respondeu Andrew, jogando uma almofada na cara da irmã.
Amber ainda estava cantando a música irritante quando a campainha tocou e ele se levantou para atender.
Conferiu o relógio pela milésima vez, ela estava quarenta minutos atrasada. Abriu a porta, se preparando para reclamar antes de dizer boa noite, mas foi obrigado a recuar dessa ideia. Ive estava tão diferente que Andrew não conseguiu dizer nada a princípio, ficou parado, observando-a da cabeça aos pés, como um ornitólogo que houvesse acabado de avistar uma fênix. A garota usava um vestido curto de musselina preta, de corte simples, e um colar de pérolas. A maquiagem acentuava os traços de seus olhos e sua boca.
– Você está linda, Ive – disse Andrew. – Aguarde um segundo, vou pegar o meu casaco.
– Obrigada, docinho de tinta. Você também não está muito feio.
Sentiu o rosto esquentar e uma revoada de pterodátilos no estômago. Correu até o quarto para buscar seu casaco enquanto Ive conversava com seu pai e irmã. Andrew parou por um momento, observando como a filha da Morte aprendera a se comportar em sociedade melhor do que ele jamais faria. Desceu as escadas e despediu-se da família antes de sair. O táxi que trouxera Ive os aguardava e singrou rumo ao sudeste de Dresbel.
– Prozy não quis nos acompanhar – disse Ive. – Ela falou que ficaria em casa assistindo Casablanca, é o filme favorito dela.
Andrew sorriu e respondeu:
– Eu nunca imaginei que ela gostasse de histórias de amor.
– É uma história de amor onde no fim nada se concretiza, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman são separados e nunca mais se veem. O que existe ali para Prozy não gostar?
– Acho que você tem razão.
Passavam pelas ruas iluminadas e pelos telões com suas propagandas. Os restaurantes que lotavam em e as centenas de pedestres nas calçadas. Até mesmo o trânsito parecia querer cooperar e fluía sem nenhum engarrafamento ou acidente. Andrew olhou para Ive, que sorria abertamente olhando tudo o que passava ao seu lado.
– Olhe aquilo – disse ela apontando a Torre de Dresbel. – É dali que vou partir quando o meu intercâmbio acabar – ou qualquer outra coisa. O garoto observou a torre por um segundo, se dando conta de que sua nova amizade seria interrompida em determinado momento. De certo modo, estava prestes a acabar. A busca pelos nomes chegaria ao fim em breve e seguiriam caminhos diferentes. Mais dia menos dia, seria obrigado a se despedir daquela menina, estaria mais uma vez, sozinho no mundo.
– Ei, tem uma sorveteria ali, Andy, e está aberta, podemos ir até lá.
As palavras de Ive e a freada do carro lhe arrancaram do meio de seus pensamentos. Haviam chegado. A dupla pagou ao motorista e saiu do veículo. O “Espaço 319” era um restaurante que ficava numa rua calma e repleta de outros bares. Havia tochas acessas na entrada e decoração feita de bambu. Um pequeno caminho de tijolos levava até o centro do lugar.
– Acho que ainda não começou – disse Andrew.
Uma faixa na entrada anunciava: Apresentação com Disco Sushi. Andrew sempre considerara o nome da banda de Briony uma das coisas mais sem sentido que já ouvira. Ela havia tido a ideia numa tarde em que assistiram a um filme comendo sushi, Andrew usava uma camisa do Panic At The Disco no dia – e assim nasceu a Disco Sushi.
Buscou um pouco de coragem. Moisés pedira a Deus que abrisse sua boca, Andrew fazia a mesma coisa para que fosse capaz de conversar com Briony sem que um desastre tomasse forma. Entraram e se dirigiram para uma mesa não muito longe do palco, onde alguns técnicos de som faziam os últimos ajustes. Estava na metade do caminho quando sentiu alguém tocar seu ombro e ouviu:
– Oi, Andy. Pensei que você não viesse!
Andrew sorriu e trocou um abraço apertado com Briony
– Estava com saudades de você, Bri. Deixe-me apresentar alguém, essa é Ive, ela está fazendo um intercâmbio.
Briony trocou um aperto de mão com Ive e perguntou:
– De onde você vem?
– Humn... Do extremo norte. É um lugar frio e meio sem vida. Andrew me falou muito de você.
– Bem, espero que goste de Dresbel, está convidada para me fazer uma visita – respondeu Briony sem desconfiar de nada. – Andy, eu tenho um presente para você. Espere um segundo.
Briony saiu para buscar algo enquanto Andrew e Ive ficaram na mesa dividindo uma lata de refrigerante, na falta de sorvete. Era capaz de reconhecer alguns rostos: os pais de Briony, amigos, um ex-namorado dela e até sua colega de banda, Kayla – uma garota negra que tocava flauta e violão.
– Ela é tão normal, Andy – disse Ive sem desgrudar os olhos de sua bebida – e coisas normais são tão... desinteressantes. O que você vê nela?
Andrew encarou Ive com a expressão fechada e respondeu
– Você não entende. Ela é a garota mais legal que eu já conheci. Nós gostamos das mesmas coisas e somos bem parecidos.
– Eu gosto da mesma coisa que milhares de pessoas e não me apaixono por elas. Andy, sinceramente, eu acho que você é apaixonado pelo sentimento de estar apaixonado, entende. Acho que ela é apenas o meio que você usa para satisfazer sua paixão através da imaginação.
– Você está errada, as coisas não funcionam assim...
Andrew estava pronto para se engajar num monólogo infinito sobre o assunto quando Briony voltou com um embrulho em mãos.
– Eu vi isso numa loja e achei que fosse a sua cara – disse ela.
O garoto tomou o presente em suas mãos e tomou cuidado ao abrir. A Menina Que Roubava Livros. Andrew já havia lido aquele livro alguns anos antes, em que a Morte conta a história de uma menina e sua relação com os livros. Ficou tentado a imaginar o que a mãe de Ive pensaria acerca daquilo. Sorriu e agradeceu. Ive tomou o livro em suas mãos e leu a sinopse com um sorriso que apenas o garoto compreendera. Foi nesse momento que um garoto se aproximou de Briony.
– O palco já está pronto, Kayla está esperando – disse ele.
– Já estou indo. A propósito, deixe-me apresentar vocês dois. Andy, este é Phil, ele é meu namorado – virando-se para o outro, falou: – Andy é um grande amigo meu, vocês vão se dar muito bem, ele também gosta de livros.
O mundo desabou debaixo de seus pés e tudo o que existia perdeu a forma por um momento. Como tratar aquilo que ouvira com alguma serenidade ou coerência? Seus pensamentos eram uma televisão fora de sintonia. O que era aquilo? O que era aquilo? Talvez fosse a polícia do karma, brincando de lhe prender pelo crime de desejar que algo desse certo em sua vida. Ive segurou sua mão numa tentativa silenciosa de apoio enquanto Briony e o namorado subiam no palco.
– Boa noite, nós somos Disco Sushi e agradecemos a presença de todos – falou Briony.
A garota pegou seu violino e começou a tocar enquanto Kayla e o namorado acompanhavam com violão e bateria. Era alguma música do The Corrs cujo nome Andrew não se recordava. Os sons foram passando pela sua cabeça sem se fixarem. A voz de Briony era um chicote que o golpeava.
– Lamento por isso, Andy – falou a filha da Morte.
– Não lamente. Isso não foi nada. Eu só tenho que me dedicar ainda mais para encontrar aqueles nomes.
– Você tem certeza de que quer fazer isso? Não seria melhor, sei lá, encontrar alguém que simplesmente goste de você do jeito que você é, seu cabeça dura?!
Andrew riu e respondeu:
– Como se isso existisse. Você não é humana, não vai entender como é isso.
Ive sacudiu a cabeça negativamente e se levantou colocando a bolsa no ombro. Não conseguia compreender por que o humor dela mudara tão rapidamente. Ela rangia os dentes e soprava como se fosse capaz de criar furacões dessa forma. Tentou segurar o braço dela.
– Aonde você vai? O show acabou de começar.
A garota pegou o refrigerante e jogou contra o rosto de Andrew, então, saiu correndo. O que aconteceu a seguir foi inesperado e assustador em medidas iguais. Lâmpadas se apagaram, mesas tremeram e caixas de som explodiram ruidosamente, incendiando cortinas. Gritos e pessoas correndo eram as únicas coisas perceptíveis naquilo que se tornara um pandemônio generalizado. Andrew olhou adiante e viu que Briony estava em segurança. Toda a sua noite havia sido reduzida a nada. Segurou o livro que ganhara de presente e foi para a rua em busca de Ive..
Olhou para todas as direções e não viu a garota de mechas verdes em lugar algum. Uma voz interior lhe dizia que ela havia ido embora, o abandonado ali e levado com ela todas as esperanças. Nunca seria capaz de conseguir os nomes sem a ajuda dela, e ainda pior que isso, não teria uma amiga como ela em nenhum outro lugar do mundo. Continuou descendo a rua e algo chamou sua atenção do outro lado da rua. Atravessou o mais rápido possível, apenas para encontrar um par de sapatos de salto que reconheceu como sendo de Ive. Ela não poderia ter ido muito longe. Olhou todos os restaurantes e de repente, ocorreu-lhe onde ela poderia estar.
Pegou os sapatos e continuou a descer a rua, pisou em algumas poças de lama e nem mesmo se importou. Esbarrou contra várias pessoas até chegar em frente a uma sorveteria pela qual haviam passado no caminho. Entrou com a cabeça esticada, em busca das mechas facilmente reconhecíveis. E lá estavam elas, na mesa da janela, com três copos de milk-shake diante de si. Andrew pensou nas próximas palavras com cuidado. Foi silenciosamente e sentou-se ao lado dela, que se afastou num susto, mas ao reconhecê-lo, apenas virou o rosto.
– Aí está você – disse Andrew. – Não precisava ter destruído tudo.
– O que você quer? Eu não conversaria comigo se fosse você. Não sou humana e nem tão legal quanto vossa majestade Briony.
Andrew passou a mão pelos cabelos e numa mistura de culpa e vergonha, falou:
– Me desculpe, eu fui um idiota.
– Você sempre é idiota. Eu só te aguento por dó.
Andrew notou que, apesar do esforço em parecer sob controle, a garota tinha os olhos cheios de lágrimas e a maquiagem borrada. Não sabia o que poderia dizer para ajudar. Talvez nem houvesse algo a dizer. Colocou seus braços ao redor dela e deixou que Ive chorasse como nunca a havia visto fazer. Eu me sinto tão ruim, Andy, dizia ela, tão ruim... É como se eu estivesse perdida, eu não sei o que eu sou. Eu não sou humana, eu não quero ser o que eu sou, eu não posso ser igual a minha irmã. Estou tão sozinha. Por favor, Andy, eu não quero ficar sozinha.
Ficaram naquele abraço de tempo indeterminado, cabeça contra ombro. Em silêncio de impasse. E então, seis palavras escorregaram da boca de Andrew.
– Eu não vou deixar você sozinha.
Ficaram na sorveteria até depois da meia-noite, conversando sobre todas as coisas triviais da vida. Naquela espécie de conforto e leveza que alguém pode sentir após chorar durante uma noite inteira, quando se ganha um coração leve e menos tímido. O livro que Briony lhe dera de presente continha uma dedicatória escrita na letra firme e cheia de curvas da violinista. Para Andrew, com muito carinho, não há pessoa melhor para extrair deste livro seu maravilhoso significado. Uma dedicatória bonita e verdadeira que não cumpriu o seu papel. Pessoas escrevem dedicatórias quando sentem a necessidade de expressar o que sentem por uma pessoa. Assim são os autores com seus livros e, também, as pessoas com seus presentes. No entanto, elas só justificam sua existência quando o destinatário corre os olhos pelas letras e extrai dali o seu sentido. Isso não aconteceu naquela noite.
Andrew jogou o livro numa lixeira.