A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 77 de 79

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A Morte é Legal

Amber

 

Amber encarou o teto. O fim da tarde produzia sombras disformes pelo quarto e elas eram sua única companhia. Permaneceu debaixo dos cobertores e escutando o silêncio sendo quebrado pelas gotas de chuva na janela. Os olhos corriam pelos pôsteres, pela cômoda abarrotada e os sapatos espalhados até chegar à pasta verde jogada no chão – e isso fez com que seu coração doesse. Sabia que ali estavam os CDs com as últimas músicas que gravara com Jonas e os milhares de rabiscos que fizeram no estúdio do porão. Ainda não conseguia se envolver no fato de que nunca mais haveria outra música feita por ele e que estava sozinha. Era simplesmente errado que houvesse partido dessa forma, tão de repente e sem adeus. Rolou de um lado até o outro da cama. Pensou em tudo o que vira nos últimos dias. Se Ive era a filha da Morte e a cidade estava repleta de coisas mágicas, ainda havia alguma coisa além da curva. Tinha que se apegar a esses pensamentos ou desabaria. Sua casa se tornara mais quieta do que o habitual e seu irmão parecia meramente decorar a paisagem.

Levantou-se e trocou de roupa, precisava sair de casa ou enlouqueceria. Pegou a capa de chuva e os fones de ouvido e saiu do quarto sem fazer muito barulho. A porta de Andrew estava fechada, mas sabia que ele estava por causa da música que escapava. Imaginou se deveria tentar conversar, mas abandonou a ideia e desceu as escadas. Esfregou os braços para afugentar o frio, seu pai havia deixado dinheiro para o jantar na mesa da sala, um sinal de que não voltaria cedo. Deu de ombros e saiu de casa.

As ruas de Dresbel estavam tão molhadas e movimentadas quanto sempre e isso não lhe incomodava. I Need a Doctor tocava nos fones de ouvido, mas não sentia vontade de cantarolar ou imitar o flow – apenas não desejava ouvir a cidade. Podia enxergar os telões de propaganda do centro brilhando na noite que começava. Ficou ali parada por um tempo, tentando decidir o que fazer e foi caminhando em direção à pista de skate na esperança de que os garotos ainda estivessem por lá. Olhou para uma jovem que corria para se esconder da chuva e imaginou se ela seria humana. Quantas pessoas naquela cidade eram? Bem, gostaria de ter tido a chance de perguntar a Ive como era a vida do outro lado, embora, tivesse uma leve impressão de que ela não responderia. Tinha saudades dela andando pela casa. Sentia falta até mesmo de Prozy. O que estariam fazendo naquele momento? Apesar do que acontecera, acreditava que Ive realmente gostasse de seu irmão.

Atravessou a rua e entrou na pista. Estava vazia, a enxurrada trouxera lixo e galhos de árvore para o lugar. Talvez nenhum dos garotos da turma se sentisse confortável em voltar ali depois do que acontecera com Jonas, pensou. Olhou para os bancos onde costumava se sentar com o amigo e seu coração saltou duas batidas. Flores amontoadas e cartazes feitos em grafite. Thug Life, Jonas, estava escrito num deles, assim como Stillmatic e Drezbell Most Wanted! Ver aquelas homenagens fez com que tudo o que segurara desabasse. As lágrimas guardadas e sua vulnerabilidade estavam ali. Como poderia continuar adiante sem seu amigo, conselheiro, hype man e irmão? A mesma pergunta penetrando mais fundo na alma.

Caminhou até as flores e ajeitou a foto de Jonas que alguém havia deixado ali. O funeral na casa dele e ela ainda não havia conseguido encontrar coragem para ir até lá. Sabia que se o fizesse a coisa seria de verdade. Não queria que a última visão do amigo fosse aquela. Lembrou-se de quando ela e o garoto assistiram a uma velha reportagem sobre o funeral do The Notorious B.I.G em Nova York, como as pessoas se aglomeravam para receber seu corpo, as flores vermelhas que formavam BIG e todos os rádios que tocavam Hypnotize em uníssono. Todos no vídeo estavam tristes, mas ao mesmo tempo tinham consciência de que Christopher Wallace estaria sempre com elas através de suas músicas, que a cada vez que alguém apertasse play e Juicy ou Who Shot Ya tocasse, elas estariam em boa companhia. Talvez o segredo para superar alguém estivesse em se lembrar delas antes da perda.

No meio das coisas sua atenção foi capturada por algo, um folheto anunciando um duelo naquela noite. Segurou-o em suas mãos durante um longo momento, deixando sua mente trabalhar. Talvez aquele fosse onde precisava ir antes de se despedir amigo. E os pensamentos seguindo um ao outro: Jonas não iria deixar que ela se afundasse daquela forma, caso contrário, todo o esforço que fizeram teria sido em vão e o hip hop nunca a levaria a lugar nenhum. Deveria ir até lá e fazer com que outros falhassem. Jogou o papel numa lata de lixo e saiu dali.

Tomou um atalho cruzando Hope’s End e seguiu direto. Ajeitou o capuz e enfiou a mão nos bolsos. Bateu de frente com uma senhora que a xingou com voracidade, mas Amber permaneceu em seu caminho. Eu tenho 99 problemas, mas vencer o mundo não é um deles

[1]. Deveria usar tudo o que sentia ao seu favor. A minha música é a única coisa que eu tenho, porque sou eu contra o mundo, Jonas dissera quando ela engasgara no primeiro duelo. Aquela era sua única oportunidade de colocar tudo para fora e colocar tudo em dia.

Estava completamente encharcada ao chegar no viaduto onde o duelo de MC’s já acontecia. Amber olhou ao redor e viu as dezenas de pessoas que se acotovelavam. Os mendigos que se reuniam para pedir dinheiro e os vendedores de bebidas. O cheiro de suor, roupas molhadas e cigarros. O som que vinha das ruas. Olhou para o palco onde dois garotos duelavam – que logo reconheceu como Big Vinny e Lil Darryl-D. As rimas eram cuspidas cheias de vontade e a plateia reagia com barulho. Não sabia o que a havia levado até ali, mas parecia ser o lugar certo para estar. Abriu caminho por entre o povo e chegou perto do palco. Maurice, o dono da loja de discos, era o mestre de cerimônia mais uma vez. Os aspirantes faziam uma fila e desafiavam o vencedor daquela noite. Os minutos iam passando e Lil Darryl permanecia como o campeão.

A garota colocou seu nome na lista de competidores. Alguns dos garotos a sua frente soltaram risadas ao notarem sua presença, comentando sobre a última vez em que estivera ali. Fingiu não ouvir e tratou de observar seu oponente em busca de falhas. Os duelos continuavam e os aspirantes iam sendo eliminados um a um. Sem medo, pensou. Maurice aproximou-se dela. Lamento pelo seu amigo, Amby, disse ele, tem certeza de que quer duelar hoje? A garota assentiu com a cabeça e o homem deu passagem para que subisse ao palco. Não havia se esquecido do sentimento de estar ali, todos os olhos sobre ela.

Lil Darryl-D lhe lançou um olhar que ela interpretou como uma condolência silenciosa por Jonas. Ele não poderia mostrar mais do que isso, estavam no palco e aquilo era um ringue, não havia espaço para solidariedade. Maurice fez as devidas apresentações. Os competidores se cumprimentaram e uma moeda foi jogada para decidir quem começaria. Amber foi a escolhida. A multidão gritou e fez piadas.

Tomou o microfone e se colocou de frente para seu oponente. O DJ coreano fez um sinal e deu início às batidas. A garota olhou para a multidão, esperando e esperando. Todos aguardavam o seu fracasso. A primeira batida passou. A segunda, terceira e quarta também. As palavras vieram logo depois. Faria de cada verso um soco e através deles conquistaria o

trono. Ela era o A para o B do MBER [2]. Lograria aquela vitória e todas as seguintes em nome do amigo, para que lá do céu ele soubesse que a lista dos melhores incluía o nome dela. E ela seguiria em frente até o dia em que não estivesse matando numa música, sacudindo as masmorras do rap. Precisava de apenas um microfone para isso. Seu flow iria colocá-la no topo e se o hip hop estivesse morto, iria ressuscitá-lo. Sabia que seu tempo estava acabando, mas não iria parar até que todos soubessem que ela era cada rua de Dresbel e estava colocando o rap em um novo platô. As batidas chegaram ao fim. Suas palavras duraram um pouco mais.

Jogou o microfone para Lil Darryl-D e caminhou até a beirada do palco e olhou para a plateia. Os aplausos vieram logo depois e seu nome foi gritado por todos da primeira até a última fila. Não conseguiu encontrar nenhuma outra reação que não a de olhar para cada um dos rostos.

Contudo, Jonas não estava lá.

Illmatic.

[1] Amber brinca com a música “99 Problems” de Jay-Z, “Black Album”.

[2] Referência a Rakim que criou o padrão de usar o próprio nome dessa forma, posteriormente, outros rappers, como Nasir Jones, a tornaram ainda mais popular.