A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 74 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E OITO

Sabe qual é a graça em uma onda gigante? Ela levará seu coração

para o fundo do mar.

 

Apenas agora o cansaço se fazia sentir de verdade. Rayla assistiu a tudo em silêncio. Os outros membros da D.I.E se entreolhavam confusos e Shaitiri ficou ao seu lado sem dizer nada, podia ver que a raposa-do-pensamento estava levemente machucada em uma das patas. O inimigo estava neutralizado e sua irmã estava a alguns passos de distância, encarando-a como se soubesse o tamanho da punição que a capitã jogaria sobre ela. Viu Astrophel caído sobre as cinzas de sua mulher e decidiu que viver seria punição o bastante – apenas se certificaria de que sua esposa encontrasse a cela correta no Inferno. Fez um sinal para os seus subordinados e disse:

– Agradeço a todos pela ajuda, isso não será esquecido. Dispensados, preciso conversar com minha irmã. Esperem do lado de fora.

Faaih abriu a boca para protestar, mas foi impedida por Ekopo, que a tomou pela mão e foi saindo. Larrabeite deu de ombros e saiu logo depois de ajeitar sua arma no ombro. A porta se fechou com barulho.

Rayla se colocou de frente com Ive e disse:

– Prozy, minha irmã não precisa mais dos seus serviços. Siga Shaitiri, ela te escoltará até o mundo espiritual, onde uma nova atividade lhe será designada.

A coelha baixou a cabeça e disse:

– Sim, senhora. Eu poderia me despedir de Ive?

– Seja breve.

Sua irmã passou a mão sobre os pelos de sua guardiã carinhosamente. Ela se esforçava para sorrir, embora falhasse miseravelmente na tarefa. Lembrava-se do dia em que a garota escolheu Prozy para ser sua guardiã. A mãe havia insistido para que escolhesse um espírito sábio ou poderoso para aconselhá-la, mas Ive e a coelha se conectaram na primeira troca de insultos.

– Sentirei sua falta – disse Ive. – Arrume um remédio para sua alergia, certo? Não é bom ser alérgica a si própria.

– Eu também quase vou sentir a sua, tola. Eu... Você é legal.

A garota abraçou a pequena criatura. Rayla então fez um sinal e Shaitiri empurrou a coelha, ambas seguiram pela mesma saída usada pelo trio de soldados. Voltou sua atenção para a irmã e começou a falar:

– Ive, você desrespeitou inúmeras leis e colocou humanos em contato com o mundo espiritual, mesmo sabendo que isso é proibido. E sua lista de crimes não termina com isso: viagem ao mundo das fadas, uso indevido dos poderes e ter me desobedecido mesmo depois de um aviso. Você entrou em contato com Kivian!

Não houve resposta. Ive se limitava a olhar para ela sem nenhum traço no rosto. Aquele silêncio lhe irritava, ela lhe devia explicações. Não teria ela pensado em tudo o que poderia acontecer caso se tornasse humana? Em como todas as pessoas iriam tentar quebrar as regras? Rayla sentiu uma onda de raiva tomar conta de si e antes de pensar qualquer coisa, desferiu um tapa na face da irmã.

– Diga alguma coisa! – gritou.

Ive levou passou a mão no rosto e respondeu:

– O que você quer que eu diga? Desculpas e promessas? Rayla, você sabe por que eu estava atrás dos nomes? Para não ser a porcaria da Morte e me tornar uma burocrata sem coração. Você jogou Kivian no Inferno porque não podia aceitar que ela amasse algo mais do que um cargo.

Rayla balançou a cabeça. Jovens são idiotas, pensou, afoitos para encontrar uma dose de romantismo até mesmo no amontoado de esterco. Não era capaz de acreditar que as coisas houvessem chegado naquele estado. Era interessante notar a visão que as pessoas tinham de tudo o que acontecera e de que a maior parte dos problemas de sua existência tinha alguma ligação com a irmã mais velha. Talvez devesse aumentar o castigo dela naquela semana pela paz de consciência que isso lhe proporcionaria. Colocando sua arma no coldre, disse:

– Não, Ive. Eu fiz isso porque ela é louca e perigosa. Você era muito pequena para se lembrar, mas ela não queria os nomes para ficar com Tord. Ela pretendia destruir o mundo espiritual e faria isso começando pela sua cabeça, afinal, mamãe sempre gostou mais de você. Então, estude um pouco mais antes de falar daquilo que não sabe.

A garota ficou em silêncio durante um tempo. É uma menina bonita, pensou ao vê-la assim parada. Não seria Ive um pouco como ela mesma? Indagava-se ao se pensar em si mesma naquela idade – quando se metia em confusões com seus amigos e sua mãe era obrigada a lhe buscar. Pensava em quantas outras vezes seria obrigada a limpar a sujeira de Kivian – fosse direta ou indireta. Sua mãe odiaria saber o que Ive fizera durante seu tempo no mundo humano, mas era provável que, como sempre, a garota não fosse ter uma punição adequada.

– Me desculpe, irmã. Eu não devia ter... Eu nunca vou conseguir ser como você e a mamãe.

Rayla colocou a mão sobre o ombro da irmã que chorava. Que interessante era notar como o vínculo forjado na infância se fazia notar agora, após tantas desventuras e acontecimentos. Ive precisava amadurecer, ainda era uma criança mimada que teve um péssimo exemplo dentro de casa. Era fato que precisava de disciplina, caso contrário, todos os universos entrariam em colapso quando sua mãe se aposentasse. Ambas tinham obrigações com cada ser vivo e não poderiam abdicar das mesmas. Uma parte de si acreditava que Ive aprenderia todo o necessário para ser a melhor Morte que o mundo espiritual já viu. Precisava acreditar nisso, um pouco de esperança não poderia lhe machucar. Ainda estava irritada com a irmã, mas isso iria embora, eventualmente.

Os dias de Rayla no mundo humano haviam sido recheados de trabalho e dificuldades que ameaçaram engoli-la, mas aquele momento fez com que se lembrasse do porque de ter descido até ali: salvar sua família mais uma vez. E faria isso quantas vezes fossem necessárias, mesmo que fosse preciso enfrentar Kivian novamente.

Um outro dia, talvez.