A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 21 de 79

Páginas do PDF

A Morte é Legal

Capítulo DEZESSETE

É uma coisa estranha e eu não sei como explicar isso para você, mesa

de borracha.

 

Andrew apreciava Hoon. O ambiente de novidade e a sensação liberdade, quase inexistente em seu mundo natal, permitiam que alguma coisa nova se movesse dentro dele, uma engrenagem complexa que ali encontrara espaço para girar.

Um dos pequenos capturou o olhar de Andrew, passeava uma tartaruga numa coleira. Gostava das crianças dali. Elas faziam com que se sentisse jovem outra vez e faziam com que pensasse na forma com que sua vida fora conduzida desde que nascera, como se não tivesse tido escolha. Yorick e os outros eram felizes de uma forma simples que ele invejava, simplesmente eram. Não precisavam de nenhuma coisa grande, apenas uns dos outros e de liberdade. Enquanto ele, um bom garoto educado e culto, parecia viver numa gaiola que construíra para si mesmo.

E as coisas pelas quais estava passando para encontrar a chamada felicidade? Teria algum valor? Era real? As coisas são assim, você tem um dia bom e pensa na vida. Embora, parte de seus pensamentos também se voltasse para a filha da morte. Seria o mundo dos mortos parecido com os das fadas?

O jovem caminhava distraidamente e aproveitava o clima, não deixava de observar as obras que se espalhavam pela cidade. As ruas e as árvores. Yorick, Mary, Horatio, Nina e Pirrip correram na frente para disputarem uma pipa que cairia algum ponto bem adiante. Ive e Prozy se aproximaram dele.

– Eu gosto daqui – disse Ive.

– É um bom lugar. Eu adoraria poder sentar em algum canto e escrever minhas histórias– respondeu Andrew. – É tudo tão diferente.

Ao ouvir isso, Prozy riu e falou:

– Esse lugar é um calvário. Dezenas de crianças, centenas... E você não foi apertado e jogado de um lado para o outro, eu fui. Que lindo e maravilhoso, quintessência da felicidade ao contrário.

– Você é deprimente – disse Ive.

– Eu sou irônica.

– Não, você é dramática.

– Uma ironista dramática – respondeu a coelhinha e continuou a caminhar cabisbaixa.

Ouviram os gritos e risos de Yorick acima dos demais, ele havia pego a pipa. O garoto apenas riu daquilo e continuou a caminhar com elas. A garota das mechas verdes fazia alguns comentários leves sobre algumas outras cidades do mundo das fadas, como por exemplo, uma que tinha a forma de cone e era habitada por pessoas do tamanho de moedas. Andrew ouvia a tudo isso com atenção e guardava as informações em sua cabeça.

– Andy... – começou ela a dizer – você nunca falou muito sobre o livro que está escrevendo. Estou curiosa.

Andrew ficou sem reação por um tempo. Nunca conversara sobre A Violinista de Fevereiro com ninguém. Nem mesmo Briony sabia muito sobre o assunto do livro, melhor dizendo, não sabia coisa alguma. Olhou para o lado, a garota o encarava com um sorriso e olhos interessados. Ele não se acostumaria tão cedo com a forma com que ela não parecia se importar em invadir seu espaço pessoal. Às vezes seus braços roçavam.

– Humn... Não é nada demais, sério, é só uma história boba.

– Ora, sou eu quem deve julgar isso. Eu gosto de histórias, ouvi todas que alguém pode ouvir durante uma vida inteira e por mais seis meses. Acho que é porque conheci muitos escritores e poetas do outro lado e eles não aguentam ficar de boca fechada. Você ainda vai ver as brigas que Bill Shakespeare e o Sr. Molière travam perto da minha casa. Tem muita gente legal lá.

Estavam passando por uma ponte de madeira vermelha. O rio que corria abaixo era pouco volumoso e seguia feito uma linha em direção ao leste, uma linha cruzando a cidade até se perder de vista por entre escombros.

– Eu não duvido. Os bons autores já estão mortos – respondeu Andrew e fez uma pausa antes de prosseguir – A violinista... É uma história idiota. Uma garota mora num velho castelo cheio de regras e etiquetas, mas seu sonho é ser artista de rua e tocar violino nas cidades grandes, mas está destinada a se casar com Bertolt Böll, o grosseiro príncipe dos duendes, para salvar a família da falência.

– Andy, isso não é uma história ruim de forma alguma. Eu adoraria saber o que acontece com ela. Sou a mais nova leitora de testes que você têm.

O garoto riu ao ouvir interesse genuíno na voz dela. Por algum motivo que nem ele poderia explicar, preferiu não contar que começara a escrever o livro como um presente de aniversário para Briony. Convenceu a si mesmo com o pensamento de que aquilo não seria do interesse dela. Estava feliz de que pela primeira vez em sua vida, alguém se interessou pelo que considerava seu único talento. Sentiu um pequeno arrepio. Uma vontade de erguer a mão e passar na cabeça dela para demonstrar o quanto ficara feliz. As pontas dos dedos se moveram, abrindo e fechando. Mas nada aconteceu, ele suspirou e continuou caminhando.

Horatio acenava para eles do fim de uma avenida repleta de tijolos verdes. Todos os muros e paredes daquela parte da cidade haviam sido decorados por virtuoses do giz de cera, do lápis de cor e da tinta guache. Poucas casas se mostravam uma encostada na outra. Eram tortas e pareciam permanecer em pé apenas pelo mesmo tipo de teimosia que certos idosos têm quando passam dos cem anos de idade.

Andrew se aproximou das crianças.

– É Aqui, irmão-médio – disse Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido.

A moradia se diferenciava de todas as outras. Era uma casa de tijolos turquesa e telhados rosa, as janelas eram enormes e com vitrais coloridos e delicados com uma porta triangular. E também havia mágica. O jardim estava sendo cuidado por anões de jardim cantantes. Um quinteto de vassouras trabalhava na limpeza do passeio enquanto três gatos esfregavam as janelas. Abóboras rimadoras cantavam cirandas aqui e ali pelo gramado. Uma placa dizia: Não alimente os tomates!

– Esse lugar é incrível, Mirtza Sosostriz sempre está na última moda – disse Ive.

Andrew sentiu algo bater de leve em sua cabeça e levou a mão até lá. Um pequeno catavento de papel colorido estava aninhado em seus cabelos. Olhou para o alto apenas para ver centenas de centenas dos mesmos voando em todas as direções pelo céu da Cidade de Hoon.

– Isso também é mágica da bruxa? – perguntou Andrew deslumbrado. – Boas vindas?

– Não – respondeu a pequena Mary. – Isso é o meu sistema de alarme avisando que o povo grande está invadindo a cidade para nos prender.