A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 37 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRINTA E DOIS

O que mais podemos dizer? Boa noite, você perdeu o seu emprego, Sr.

Cha-cha-cha.

 

Para cada linha que Amber rabiscava em seu caderno, milhares já haviam sido riscadas. Ergueu a cabeça e ficou olhando o grupo se divertindo na pista de skate. O barulho das pessoas e da construção ali perto tirava sua concentração. Foi levada a pensar em seu irmão, Andrew conseguia escrever suas coisas em qualquer momento. Como da vez em que estavam na festa de casamento de sua prima Charlotte e ele escrevera uma história num guardanapo. Algo sobre um garoto mudo que gostava de uma menina e se embrulhava de presente para ela em uma caixa em forma de coração. Era uma história cômica, pelo que se lembrava, no fim de tudo, a garota cometia um engano e mandava o embrulho para o polo sul. Fazia muito tempo desde que lera alguma coisa dele, costumavam ser muito ligados quando ela era mais nova, agora, era raro conversarem por mais que dez minutos. Nunca brigavam, é verdade, contudo, não se importaria em ter seu irmão mais velho lhe ajudando.

Soprou a mecha que caíra sobre seus olhos e voltou a se concentrar nas rimas e versos. Era o melhor que tinha a fazer. O único problema era o fato de que não conseguia pensar em nada que tivesse força o suficiente. Tocou mentalmente a batida que Jonas criara para a fita demo, mas era impossível fazer com que qualquer coisa coubesse. Nada que lhe agradasse. Seu irmão costumava dizer que para criar algo, uma pessoa deveria ter um pensamento divergente, para pensar em um monte de coisas aleatórias, e um pensamento convergente, para fazer com que essas ideias possam trabalhar juntar e criar algo diferente. Até esse ponto estava tudo bem, o tal pensamento convergente era o grande problema. Gostaria que ele pudesse explicar melhor como isso funcionava. Mas Andrew não teria tempo para isso, pensou, tinha sua nova amiga com a qual passar todos os dias.

Amber estava distraída, tentando fazer a palavra «laranja» rimar com alguma coisa coerente, quando Jonas sentou-se ao seu lado e comentou:

– Eu sinto que fui roubado.

– Por quê? – indagou sem tirar os olhos do papel.

– Lil Wayne me assaltou. Eu passei mais de um ano me esforçando para não escutar o último disco dele. Sério, Rebirth é como um Frankenstein de tudo o que existe de ruim no hip-hop e no rock ao mesmo tempo, e isso não é pouca coisa.

A garota riu, insistira durante meses para que ele não escutasse aquele disco – o que, evidentemente, não surtira efeito. Colocou a mão sobre o ombro do amigo e respondeu:

– Eu te avisei e você não acreditou, cara. Depois de Tha Carter III, Lil Wayne era o melhor rapper vivo, nem dá pra entender o porquê de ele inventar um disco de rock. Houve apenas um bom casamento entre rap e rock até hoje: RUN-DMC e Aerosmith em Walk This Way.

– Eu tenho que concordar, embora eu ache que você esteja limitando as coisas. Rage Against The Machine também é um bom exemplo. Eu não sei o que acontece com alguns artistas que parecem escolher fazer música ruim de propósito. O que Tupac pensaria caso pudesse escutar isso?

Amber estava pronta para responder alguma coisa quando sua atenção foi extraída do assunto. Atravessando a pista de skate, vinha Lil Darryl-D com suas correntes no pescoço e seus passos gingados. Amber fechou o caderno e chamou a atenção de Jonas para o convidado indesejado. Respirou fundo e tentou manter a calma. Não esperava que fosse ser obrigada a confrontá-lo tão cedo, embora, já estivesse na hora de exorcizar o que acontecera no duelo. Sabia que Darryl estava ali para tripudiar sobre ela, mas não deixaria que ele saísse dali sem ouvir algumas coisas.

– Acho melhor a gente sair daqui – disse Jonas.

– Sem chance, isso daqui é sobre mim e eu não vou fugir. Não dessa vez.

Lil Darryl chegou com um sorriso torto no rosto e ajeitando o boné na cabeça. Ele é apenas pose, pensou Amber, não há nada que ele possa fazer para me atingir. Deixou que isso circulasse pela sua cabeça como um mantra. Segurou o caderno de notas com força, os dentes rangeram. Quando ele se aproximou, a garota deu as boas vindas:

– Que surpresa, você consegue andar na rua sem suas babás.

Lil Darryl deu de ombros e respondeu:

– E você consegue falar uma frase inteira sem engasgar. Isso sim é de causar surpresa.

– Fale de uma vez, o que você quer comigo?

– Com você? Eu não consigo pensar em nada que eu possa querer com uma perdedora. Branquela, por favor. Eu vim para conversar com o amiguinho aqui.

Amber sentiu como se tivesse acabado de levar um soco. Jonas olhava de um rosto para o outro sem saber o que dizer. Algo frio subiu pela sua garganta. Ficou imaginando o que Darryl poderia querer com seu amigo. Tinha essa vontade de se levantar e desferir um soco no rosto petulante do rival, mas, ao invés disso, deixou que ele desse procedimento ao que iria falar:

– Maurice me mostrou algumas das batidas que você fez, gostei muito delas, sabe. O que eu quero dizer é que quero você comigo. Eu e a turma vamos mandar uma demo pra Young Money e achei que você pudesse ter interesse em crescer.

Amber se levantou num salto e empurrou Darryl com as duas mãos. Sentia toda a raiva do mundo correndo nas veias. Era um carro desgovernado. Ele já a humilhara diante de uma plateia, não tinha o menor direito de ir até ali e tentar levar o seu parceiro. Jonas era seu melhor amigo e ninguém o levaria para a porcaria de lugar algum. Era uma das únicas pessoas com a qual podia realmente contar. Odiava Lil Darryl, o filho da mãe queria tomar tudo o que ela tinha. As palavras foram caindo sem que ela ao menos pensasse no que dizia:

– Você tem bosta na cabeça?! Arrume outro beatmaker porque esse daqui já tem dona. Some daqui! Se você não sair agora, eu vou te arrastar até o asfalto rachar.

Darryl segurou os braços da garota e a empurrou para longe de si com facilidade, em seguida, apontou para Jonas e disse:

– Você tem talento e o dinheiro não dorme, não pode ficar aí servindo de muleta para a Feminem aqui. Ela só quer se aproveitar de você, mano. Eu estou te oferecendo uma chance

de fazer direito. Esse negócio de ser Tio Tom [1] nos dias de hoje não cola. Fique com os seus.

– Amber é minha amiga – respondeu Jonas com firmeza.

– E você é apenas o beatmaker dela. Acho que está na hora de você andar com os do seu tipo e usar suas batidas para a coisa certa. Pensa no que falei e decide o que vai ser.

Ao ouvir os gritos de Amber, os outros jovens que estavam na pista de skate largaram todas as suas atividades e correram para prestar auxílio à amiga. Troot, um dos maiores garotos do grupo foi o primeiro a chegar e se interpondo entre Amber e Darryl, disse:

– Qualé, mano, tá de zuera com a irmãzinha?

Houve um instante de tensão em que ninguém soube direito se o outro garoto reagiria ou não. Mais pessoas se juntaram ao redor da confusão e começaram a gritar ameaças. Amber segurou a mão de Jonas com força. Ele não iria a lugar nenhum. Darryl estava errado, o lugar de Jonas era ao seu lado. Porque ele e ela eram uma equipe. Como Eminem e Proof. E ninguém poderia ir contra o fato de que a amizade deles ia além dos objetivos no rap. Firmou seu semblante e rebateu o olhar raivoso que Lil Darryl lançava. Os dois se encararam durante alguns segundos, até que o garoto mostrou os dois dedos médios para todos e começou a caminhar para fora da pista. No instante seguinte, vaias romperam o ar e persistiram até que o invasor desaparecesse.

– A rua é nóiz! – gritou um dos garotos, dando tapas nas costas de Amber.

A garota se aproximou de Jonas e buscando as palavras certas, disse:

– Jo, eu quero que você saiba que...

– Eu sei, Amby – respondeu o garoto. – Eu já ouvi tanto o disco novo do Lil Wayne quanto as besteiras de Darryl, acho que é o bastante de porcaria por um dia. Vamos embora, você ainda tem que gravar a sua parte na música nova.

Ela sorriu e concordou com um aceno de cabeça. As congratulações mútuas ainda duraram mais algum tempo. O grupo que se reunia na pista de skate, conquanto não se encontrasse com frequência, tomava conta de cada um de seus membros como se fossem parentes, embora, uns não soubessem nem mesmo os nomes verdadeiros dos outros. Um tipo de união estranha que parece surgir apenas em grupos de pessoas deslocadas da corrente principal, que estão à margem das pessoas comuns. Porque eles eram a rua.

[1] Termo pejorativo usado para descrever um negro que age de forma subserviente às figuras de autoridade do branco, ou procurando a integração por meio de uma desnecessária acomodação. O termo “Uncle Tom” deriva do personagem que deu o título ao romance de Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás.