A Morte é Legal
Capítulo TREZE
... Mais verdadeiro e mais estranho.
A coragem abandonou o coração de Andrew numa velocidade surpreendente e é bem possível imaginar o desespero que lhe acometeu. Era como se a energia que mantinha o universo coeso fosse se dissolvendo até que sobrasse somente um caos de sentimentos. Uma entropia emocional.
Estavam cercados em todas as direções. Os gubbinals vinham em blocos e com braços que se arrastavam pelo chão. Seus passos não faziam som algum. Andrew ouvia os murmúrios que escapavam pelas bocas costuradas. Olhou para Ive em busca de alguma solução e o semblante dela não lhe forneceu nenhum motivo para esperança.
– É melhor a dupla pensar em alguma coisa ou não iremos pensar em mais nada daqui a pouco – disse Prozy.
Podia sentir o cheiro das criaturas e o efeito que elas produziam sobre ele. Tinha os olhos secos, náusea e uma sensação de afogamento comprimindo seu peito. Esse sentimento sem nome era como uma árvore, simplesmente estava ali. Andrew olhou em todas as direções e sabia que a única saída estava na porta do outro lado.
– Temos que passar por eles e depressa! – disse ele recuando alguns passos.
Ive não respondeu de imediato, Andrew notou que a garota estava buscando alguma solução alternativa. Ela pegou a coelha nos braços e disse:
– Eu posso distraí-los – disse ela – mas será por pouco tempo. Iremos passar no meio deles e correr para a ponte o mais rápido que pudermos.
Andrew olhou adiante e ficou pouco contente. O cerco se fechava por todos os ângulos e Prozy brilhava fraca, tudo retornando às sombras. Apanhou algumas pedras no chão e atirou contra os gubbinals mais próximos. Surtia pouco efeito. Ive murmurava algumas palavras desconhecidas, como fizera com o pássaro no parque.
– Eu odeio te apressar, mas as coisas estão ficando complicadas por aqui – disse o garoto, estremecendo.
Ive não deu atenção, mas continuou a murmurar palavras ininteligíveis, seu rosto suava e cada palavra parecia vir de um enorme esforço interno. Parecia que nada daria certo até que algo lhes deu mais esperança. Andrew viu uma pequena esfera de luz púrpura surgir na mão dela e girar. A garota olhou para os gubbinals, que estavam agora a poucos metros de distância, e com um pequeno sorriso de triunfo, atirou no meio deles.
Houve um estampido que ressoou em todos os caminhos, fazendo com que Andrew fosse obrigado a cobrir os ouvidos. Uma explosão de luz foi derramada, o brilho de mil sóis roxos. Os gubbinals irromperam em brados de ódio e se encolheram, cegos e desorientados.
Andrew sentiu a garota puxar sua blusa e dispararam por entre as abominações. Sentia seu corpo bater de encontro com os deles e o fedor invadia suas narinas, fazendo com que a náusea ficasse ainda pior. Dezenas de mãos tateavam em busca do pequeno grupo e Andrew as repelia com socos desajeitados e o máximo de sua força, o que não era muita coisa.
– O que você usou? – perguntou.
– Uma granada de anti-imaginação. É a coisa que mais odeiam, é como sal para lesmas, e...
A conclusão foi substituída por um grito de horror, um gubbinal havia acertado a garota no estômago e a atirado contra a parede. Andrew ficou de pé com dificuldade. Viu quando a criatura se ajoelhou perto de Ive e agarrou seu pescoço. Estava se alimentando. Gritou seu nome repetidas vezes, mas Ive estava inconsciente. Localizou Prozy tentando empurrar inutilmente o adversário com a cabeça, a coelha insultava furiosamente.
O toque frio dos gubbinals em suas costas e rosto, fazendo com que um pensamento sinistro ganhasse voz: eles vão me pegar. Andrew levantou-se e teve uma ideia que esperava ser o suficiente para ajudá-la. Empurrou o gubbinal que segurava sua amiga e usou seu cachecol numa tentativa fraca de enforcar a figura que, apesar da aparência frágil, tinha o dobro de sua força. O jovem e a criatura se debateram enquanto os outros lentamente iam recobrando as forças.
Rolaram pelo chão. Andrew fazia um esforço considerável para se afastar, contudo, nada parecia ser o suficiente. Sua cabeça bateu com força numa pedra. Estava sendo dominado facilmente e sem que pudesse fazer qualquer coisa, mãos geladas circularam seu pescoço. E então foi como se uma faca perfurasse sua mente e suas veias se tornassem vazias.
O mausoléu que abrigava seus pensamentos estava ruindo. Fios e fios de ideias desapareciam. Era uma luta injusta. Forçou-se a pensar em coisas insignificantes. Precisava manter os pensamentos sobre seu livro a salvo da criatura, não podia dar-se ao luxo de entregar aquilo, lutaria até o último suspiro. Sabia que era necessário se afastar daquilo, mas nenhum músculo lhe obedecia, estava inerte feito um paciente anestesiado.
Encontrava-se a um passo de abandonar a luta quando houve uma forte explosão de luz verde e o gubbinal foi atirado longe, para dentro das águas revoltas do rio de nomes. Sentiu as mãos de Ive lhe ajudando a se pôr de pé. Ive, murmurou, ou pensou tê-lo feito – não sabia e nem se importava.
A visão de Andrew abandonou a escuridão e discerniu o contorno das coisas. Olhou para o rio e viu quando vários nomes luminosos envolveram o gubbinal que batia os braços em desespero e o apertaram como uma cobra faz com sua presa. O sentimento de felicidade pelo sofrimento alheio gritou forte dentro de Andrew.
– Ei, moleque, firme seus passos.
– Vamos, Andy, temos que sair daqui!
Consentiu com um movimento de cabeça e olhou adiante, faltava pouquíssimo para chegar na ponte. Fizeram uso das pernas com o máximo de vontade. Ive tentava afastar os agressores da forma que conseguia. Iam passando por entre os vários braços que se esticavam como longos galhos de uma árvore sem folhas. Andrew tropeçava e se esforçava para não se perder de Ive, que o puxava bruscamente.
As tábuas rangeram quando pisaram sobre a ponte. Ive lhe lançou um pequeno sorriso, como se dissesse estamos quase lá. Os perseguidores se aglutinavam para ganhar passagem, causando a queda de iguais no rio, onde eram imediatamente destruídos pelos nomes que corriam nas águas.
– E tem gente que não acredita nos benefícios da natação – comentou Prozy.
Chegaram até a porta vermelha e a expectativa voltou a brotar dentro dele. Não suportaria muito mais o suplício de continuar naquele lugar. Ive estendeu a mão e girou a maçaneta que cedeu sem reticência. Houve vento e luz e um cheiro estranho. Fecharam a porta bem a tempo de ouvirem as batidas dos gubbinals do outro lado, irados pela refeição perdida. Andrew suspirou e olhou para a paisagem que se estendia adiante de seus olhos. Surpreendeu-se o suficiente para uma vida inteira e não afrouxaria tão cedo essa expressão do rosto.