A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 65 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E NOVE

Todos esperam que eu falhe, mas eu tenho uma serra elétrica e uma

máscara.

 

Correu atrás do ônibus como nunca fizera. Suas pernas tremiam; a chuva atrapalhava sua visão. Aproximou-se do veículo em movimento e bateu com a palma da mão na lateral. Foi assim que Amber conseguiu entrar e sentar-se ao lado de uma velha no fundo.

Seus pensamentos corriam em direção a Jonas que havia sido levado para o hospital no fim da tarde. A mãe dele deixara um recado na secretária eletrônica e nem seu pai ou irmão estavam em casa para lhe dar uma carona. Tentara telefonar para os pais do garoto, ninguém atendeu, por isso, pegou sua mochila e o dinheiro que tinha, saindo em disparada. Alguma coisa muito grave havia acontecido, percebera isso pelo tom de voz da mulher.

Os carros pareciam estar empenhados em permanecer no mesmo lugar e o número de sinais vermelhos, multiplicado. Isso tudo vai ser apenas um susto, pensou, e daqui a pouco ele vai estar de volta e fazer uma música sobre isso para ganhar credibilidade de rua. Afinal, 50 Cent levou nove tiros e Tupac fora alvejado por cinco balas em 1994 – ambos sobreviveram. Embora o segundo não tenha repetido o feito dois anos mais tarde. Lembrou-se de uma vez em que se sentaram para escutar Stillmatic do início ao fim no quarto dela. Comentavam sobre como a guerra contra Jay-Z, que estava no auge durante o lançamento daquele disco, fizera com que Nas desse o seu melhor – após anos lançando discos que apesar de bem feitos não eram tão bons quanto o primeiro. Jonas estava num ponto difícil, mas conseguiria sair. Não era isso que Stillmatic significava para eles? Surgir com tudo depois de um período escuro?

O ônibus tomou a rua que levava para a área hospitalar e só então notou o número de idosos que viajavam com ela. Seu pai costumava dizer que velhos gostavam de passear em farmácias e hospitais, talvez fosse assim mesmo. A última vez em que estivera nessa parte da cidade foi quando sua mãe estava doente. Antigamente havia um restaurante chinês chamado Mulan com um grande boneco na porta. Ao olhar para a janela viu que aquilo fora substituído por um estacionamento. Notou como a cidade mudava depressa, com mais prédios sendo erguidos e mais pessoas que se mudavam para lá a cada dia. A cidade de Dresbel estava se tornando maior e maior, mas isso não diminuía o sentimento de que as pessoas estavam se tornando menores e o mundo, mais complicado. Para o resto das pessoas o fato de ela ser boa em alguma coisa não fazia diferença, não era mais a garotinha que todos mimavam; o concreto era insensível a todos e os jornais nunca falariam sobre sentíamos sentimentos de cada um.

O número de passageiros foi diminuindo e dali a pouco o hospital surgiu na paisagem, um colosso envidraçado rodeado por árvores. Amber desceu em frente ao laguinho na entrada, peixes coloridos iam de um lado para o outro. Cada gota de chuva produzia círculos na água que cresciam até desaparecer. Ajeitou o capuz e continuou a andar. O sentimento dentro de si era aquele que uma pessoa em rota de colisão possui ao se dar conta de que o airbag está estragado.

Seguiu o caminho que levava até a portaria. Tentava se esconder da chuva andando sob as árvores, jurou a si mesma que de agora em diante carregaria uma sombrinha na mochila. Um crocitar chamou sua atenção e ao olhar para cima deparou-se com um pequeno corvo saltando de um galho para o outro. Os olhos da ave estavam atentos sobre ela. Talvez esteja esperando a alma de alguém, pensou e riu consigo mesmo daquela besteira. Ao entrar no hospital, dirigiu-se até a recepcionista e soube que Jonas passava por uma cirurgia. Os pais do garoto se encontravam numa das salas de espera.

Nunca soubera como reagir em relação à doença ou morte. Quando sua mãe passou pelas duas coisas as pessoas disseram muitas coisas. Sempre pensava em como seria melhor se todos ficassem calados. Seguiu as placas até a sala de espera e viu o Sr e a Sra. Hurston sentados num dos bancos. A mulher lhe abraçou:

– Oh, Amber, que bom que você está aqui. Jonas gosta tanto de você.

Devolveu o abraço sem dizer nada. Os pais de Jonas explicaram que ele havia sido atropelado depois de ter brigado com outro garoto na saída da escola. Amber sabia exatamente de quem ela falava e imaginou se não deveria contar a ela o que acontecia, entretanto decidiu que não era o melhor momento. Faria isso quando tudo estivesse mais calmo, nenhum deles precisava de mais um fardo para carregar.

Ficaram ali durante duas horas, indo de um lado para o outro e mendigando informações a qualquer enfermeira. Ninguém parecia saber de nada e a angústia que sentiam era esticada até quase arrebentar. Tomavam vários copos de um café amargo que era oferecido e encaravam as paredes em silêncio. A mãe de Jonas orava de cabeça baixa e a garota escutava os sussurros nos quais ela pedia para que seu filho não fosse tomado. Amber também se achou fazendo negociações mentais com alguma entidade superior.

Levantou-se e saiu em busca de água. Os corredores brancos faziam com que se sentisse pior do que já estava. Pessoas doentes eram empurradas em cadeiras de rodas e lançavam olhares curiosos – como se estivessem dizendo que logo ela estaria como eles. Uma voz rouca blasfemava dentro de um quarto. Uma enfermeira empurrava um carrinho onde vidros e seringas estavam milimetricamente organizadas. Amber lembrou-se da vez em que estavam todos os amigos na pista de skate e ela decidiu tentar uma manobra, o que resultou numa queda e joelhos ralados. Eu te avisei, Jonas dissera naquela vez. Uma das frases que ele dizia constantemente. Eu te avisei. Talvez, porque o garoto nunca houvesse sido um otimista nato. Ou porque realmente possuísse a calma de pensamento que faltava nela. Como poderia sequer pensar em fazer música sem Jonas ou não ter um amigo de verdade com o qual conversar? Ainda ontem haviam conversado por telefone, entusiasmados em criar coisas novas. O entusiasmo com o qual ele falara sobre possíveis nomes do álbum que fariam: Ela é a rapper,

eu sou o DJ [1] . Um pequeno sorriso apareceu no canto do rosto ao se lembrar disso. A água do bebedouro era fria e desceu pela sua garganta em pequenas doses.Tirou o seu telefone do bolso e tentou ligar para casa, ninguém atendeu. Seu pai ficava até tarde no trabalho e seu irmão não desgrudava de Ive. Voltou para junto dos pais de Jonas e tomou mais café.

– Alguma notícia? – perguntou.

O casal balançou a cabeça em negativa. Amber estava num cabo de guerra com o desespero e cada minuto que passava favorecia o seu adversário. Passou-se mais uma hora até que um médico alto e de cabelos grisalhos surgisse para falar com eles. Ele vinha com passos curtos e a cabeça levemente inclinada, andava devagar como se não estivesse querendo chegar a algum lugar. Isso era o suficiente para Amber. Não foi preciso nenhuma palavra para que ela compreendesse o que havia acontecido. Conhecia aquela expressão.

– Lamento informar que seu filho... –

A garota não pôde escutar o resto. Não queria que nada entrasse em seus ouvidos. Saiu em disparada. Não conseguiu impedir nenhuma das lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Precisava se afastar das palavras do médico, daquele lugar. Estava em queda livre. O abismo a encarava e contava piadas ruins. Tudo era mentira e mentira. Sentia como se todo o ar do mundo estivesse desaparecendo e seu estômago, golpeado por pedras. Que sentimento era aquele? Um desprendimento do mundo. As coisas se tornavam pó. Seus passos eram pesados, como se cada azulejo tentasse aprisioná-los. Jonas não existia mais. Não haveria nenhuma música, piada ou telefonema. Precisava ir para o mais longe possível, onde pudesse gritar e chorar sem os olhos de ninguém.

A saída já estava próxima. Mais alguns passos, poucos. Precisava sair. Foi nesse momento em que bateu tão forte numa pessoa que caiu. Falou algum palavrão e levantou a cabeça que latejava de dor, viu cabelos pretos encaracolados com muitos fios grisalhos, uma gola tartaruga, luvas escuras e uma mulher velha ao lado.

O homem lhe estendeu a mão e com um sorriso, disse:

– Espero que você não tenha se machucado. Meu nome é Astrophel.

[1]O título faz uma brincadeira com o álbum “He’s the DJ, I’m the Rapper” do duo DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince.