A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 7 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRÊS

Perturbando o universo e calculando as coisas daquele jardim que

você não pode visitar.

 

Pessoas acordaram em 8 de dezembro de 1980 para descobrirem que o sonho estava acabando porque John Lennon havia morrido. E em 1994 a MTV falava sobre o suicídio de Kurt Cobain. 2003. Elliot Smith morre em Los Angeles. Andrew não se recordava de nenhum desses fatos, mas conhecia bem o sentimento de abandono que um fã sente ao ver seu ídolo partir: era o que acontecia quando Briony sumia de vista.

Deixou a tensão afrouxar e ficou de cabeça baixa, encarando o chão. Como era complicado ser interessante na frente dela. O que poderia fazer? Estava com essas coisas em mente quando notou um passarinho morto a pouco mais de um passo. Olhou para o alto da árvore mais próxima e viu o ninho de onde provavelmente caíra. Estava completamente absorto quando sua atenção foi desviada.

– Problemas com garotas?

Olhou na direção de quem havia falado e viu a garota com seu coelho. Tinha aparência oriental e cabelos negros com mechas verdes. Vestia-se de forma despojada e elegante, com um trench coat de gabardine preto sobre calça de mesma cor e sapatos. Ela sentou-se ao seu lado.

Sorriu um pouco constrangido e respondeu:

– Culpado. É tão evidente assim?

– Vamos dizer que você tem essa aura ao seu redor. Meu nome é Ive, sou nova na cidade. Intercâmbio. E essa é a Prozy – disse ela, mostrando o animal em seus braços. Tinha um sotaque leve e agradável.

Andrew balançou a cabeça de um lado para o outro e movendo as mãos respondeu:

– Prazer em conhecê-la, eu sou Andrew. Ive não é um nome muito oriental. Espero que goste de Dresbel, é um lugar interessante se você gosta de café e bolinhos.

– Eu não vim do oriente. Cara, eu amo essa cidade, sério, as pessoas daqui são engraçadas. E fiquei viciada em chocolate, juro, posso comer milhares e não enjoar, também adoro a chuva, é uma coisa tão... tão diferente.

Andrew riu do entusiasmo com que ela falava. A garota o acompanhou na risada.

– É bom você gostar de chuva. E quanto a chocolates, tem uma loja não muito longe daqui que vende os melhores, posso levar você até lá se quiser – fez uma pausa, e acrescentou: – humor com certeza é uma dessas coisas que muda drasticamente de país para país, afinal, só assim alguém poderia considerar um dresbelino engraçado.

– Mesmo? Eu iria amar! E poderíamos trocar chocolates de amizade por causa do dia dos namorados. Eu adorei esse costume de vocês, no lugar de onde eu venho é quase impossível achar alguma coisa legal assim. Uma sociedade cheia de etiquetas velhas e tal, não tem um pingo de vida.

O bastante. A lembrança do dia fez com que Andrew se abatesse como um narciso no meio do Saara. E a garota pareceu notar isso imediatamente, pois seu semblante perdeu um pouco de graça e sua voz ganhou um tom mais sério ao falar:

– Ei, não fique assim. Ainda pode dar certo, uma das coisas que aprendi na vida é que as pessoas surpreendem. Não se coloque tão para baixo por causa de uma garota, isso pode destruir você. Mas se você acha que existe uma chance, corra atrás.

Não costumava expor seus sentimentos para estranhos, mas ela o deixava à vontade e as palavras simplesmente foram marchando uma depois da outra.

– Você não entende, eu não teria chance. Você nunca viu os caras com os quais ela namorou, eram misturas de tanques de guerra com cachorros. E o pior de tudo: ela é minha amiga e provavelmente nem pensa em mim de outra forma.

Ive colocou Prozy no chão e de modo bem calmo respondeu:

– Tem certeza de que você não é uma garota? Andy, você é um cara legal, mas tem um pensamento bem patético.

– Obrigado. Bom saber que sou a graxa para a máquina de piadas de alguém.

– Não seja tão dramático. Você nunca pode imaginar o que uma garota pensa, porque ela nunca está pensando o que você acha que ela está pensando.

– E você diz isso do alto da própria experiência.

– Nem tanto, nunca me envolvi muito nesse tipo de coisa. E ela provavelmente já sabe que você gosta dela.

Andrew balançou a cabeça negativamente e contestou:

– Isso é impossível. Se ela soubesse, provavelmente as coisas estariam diferentes... a tendência natural seria ela se afastar.

– Não. Isso poderia dizer que ela é egoísta, do tipo: Se ele falar alguma coisa, eu penso, e, se ele não falar, eu finjo que não sei. Toda garota gosta de se sentir atraente. Mas como eu não a conheço, estou chutando.

Andrew tinha aquelas palavras como um dos grandes medos dentro de si e odiava não ser capaz de perscrutar a cabeça de Briony em busca das respostas exatas. Levantou-se e forçando um sorriso respondeu:

– Vou torcer para que você esteja errada.

Ive levantou-se e encarou-o de uma forma séria. Havia um jogo nos olhos escuros dela. Um jogo de olhos capaz de fazer com que um urso faminto rolasse e fingisse de morto.

– Você realmente gosta dessa menina?

– Claro que sim.

– E se houvesse uma forma de você ficar com ela sem sofrer, você aceitaria?

– Se fosse possível... Quem não desejaria isso? Mas as coisas simplesmente não funcionam assim.

– Funcionam, Andy, garoto de pouca fé.

Andrew não entendeu de imediato o que ela queria ao se abaixar na grama e apanhar alguma coisa, mas logo viu se tratar do pássaro morto. Ela o segurava cuidadosamente e passou uma das mãos para ajeitar as penas. Sua mente não conseguia adivinhar o propósito daquilo e estava começando a pensar que a garota tinha um sério desajuste mental.

– Nunca conte isso para minha mãe, seria ruim para os negócios da família. E o mais importante... silêncio, bobinho.

– O que você...

– Não diga nada. Eu preciso de concentração.

Ficou observando sem entender o desenrolar da cena. Viu os lábios dela se moverem em silêncio. Estava começando a se sentir desconfortável. Olhou em todas as direções para checar se mais alguma pessoa estava com os olhos postos sobre aquela situação atípica. Mas as pessoas de Dresbel não davam atenção a qualquer coisa que não fosse um obstáculo imediato ao próximo passo.

– O que você está fazendo? – perguntou, a voz esganiçando como na puberdade.

Nenhuma resposta. Talvez o melhor fosse simplesmente se despedir dessa garota esquisita e ir para casa escrever. Imaginou o que um observador casual poderia pensar ao ver aquela cena. Preocupar-se com as opiniões alheias era tão natural quanto respirar para ele. Talvez isso fosse culpa de sua garota de treze anos interior, uma drama queen cuja escala Richter de ataques ia de nada a dez num piscar de olhos.

Andrew nunca havia sido raptado por alienígenas nem enfrentado um rinoceronte faminto. Nunca se meteu em uma briga ou nadou além do que seus pés alcançavam. Nem mesmo viu um fantasma ou esteve em um tiroteio. Sua vida tinha sido um grande tédio desde o início. Mas no segundo em que viu o pássaro começar a bater asas e sair voando para o alto e mais um pouco, pensou: Ah, droga!