A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 15 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo ONZE

Talvez exista somente um rei, o rei do sorvete.

 

– Ei, acorde, a moça de cabelos verdes está aqui. Você não contou traria sua amiga. Ou melhor, você nunca contou que tinha uma amiga.

Andrew foi acordado pela voz da irmã. Tentou virar para o lado e continuar a dormir, mas não seria possível, podia ouvir passos subindo a escada e as vozes de Ive e Amber. Estavam imersas numa conversa agradável a julgar pelo som de risos. Sentou-se na cama e tocou levemente os lábios. A madrugada anterior infelizmente acontecera.

A porta foi aberta e Ive entrou. Amber estava com Prozy nos braços e perguntou o que havia acontecido com seu rosto. Inventou uma desculpa qualquer e a irmã saiu para cuidar de suas coisas. Ive o observava atentamente e ele sabia que ela estava ciente de que alguma coisa acontecera, mas conversariam sobre isso quando estivessem fora de casa.

– Levante e brilhe, estrelinha, vamos a uma sorveteria!

– Tenho alguma outra opção?

– Sim. Morrer.

– É sempre bom conhecer pessoas abertas ao diálogo.

Andrew se levantou e foi tomar um banho enquanto Ive olhava os livros de sua estante, detendo-se com entusiasmo entre um e outro. Agasalhou-se e arrumou sua cama rapidamente. Ela pediu um volume emprestado e, embora o garoto odiasse que fizessem isso, acabou cedendo, afinal, a mãe dela era uma pessoa ligeiramente importante. Tentou não ficar se lembrando de que aquela era uma edição raríssima de O Vento nos Salgueiros e que Ive provavelmente abriria o volume num ângulo maior que noventa graus. Suspirou e desceu as escadas.

Deparou-se com seu pai tomando café e absorto na leitura do jornal municipal. O homem o cumprimentou com um leve aceno de cabeça e voltou-se para a leitura. Andrew sentia como se suas roupas estivessem cada vez mais apertadas. Ive se despediu e, após tomar a coelha em seus braços, a dupla ganhou a rua.

Iam a passos rápidos ao longo da Rua Astilbe. Por sorte não havia chuva nem muito vento naquele dia e os oito graus nem pareciam tão ruins quando comparados aos níveis inegavelmente frios do ano anterior. Pegaram um ônibus duas esquinas adiante e se sentaram no fundo. Prozy teve uma crise de espirros por causa de sua autoalergia e comentou:

– Buda disse que a vida é sofrimento, mas se ele me conhecesse com certeza acrescentaria: nada em excesso.

– Não seja tão pessimista, querida – disse Ive. – Veja o lado bom das coisas, você não é um poodle ou uma chinchila.

– Eu não sou pessimista, mas uma realista... Nada tem o mínimo valor, sentido ou propósito. Será que essa coisa não anda mais depressa?

– Sou quase capaz de gostar dela às vezes – comentou Andrew e acrescentou: – Ive, ontem à noite, as pessoas sobre as quais você falou apareceram no meu quarto. Astrophel não vai parar enquanto não conseguir os nomes.

– Astrophel e Stella... Eu não esperava que eles soubessem sobre você, provavelmente estavam me seguindo. Bem, Andy, parece que o jogo vai ficar mais emocionante.

– Emocionante?! – indignou-se o garoto. – Lamento, mas não foi você quem levou uma surra. E você pode me explicar quem são eles?

– Ninguém sabe muita coisa. Podemos resumir assim: Astrophel era um mago e Stella uma fada, eles se apaixonaram. Aí o resto é bem lógico, Astrophel era humano e não poderia viver para sempre ou pelo menos não tanto quanto ela. Stella encontrou uma forma de mantê-lo vivo, usando das energias dela.

– E esse dreno de energia a envelheceu – constatou o garoto. – É por isso que Astrophel está procurando pelos nomes, para fazê-la voltar ao normal.

– Não me diga. – murmurou Prozy.

A dupla desceu na Avenida Freesia e Ive apontou adiante: O Rei do Sorvete. Era um lugar bastante simpático. Pintado em branco e de telhado vermelho. Heras cuidadosamente plantadas subiam pelas paredes até certa altura e um letreiro iluminado mostrava o nome e o horário de funcionamento. Um bom número de pessoas podia ser visto pela vitrine. Ali perto, um homem tocava seu violão azul e ganhava alguns trocados:

Vermelho não é bom,

Roxo é bem melhor,

Coração de teflon,

Podia ser pior...

Andrew esboçou um leve sorriso pela música do homem e deixou algumas moedas no estojo aberto. A dupla entrou na sorveteria e escolheu uma das mesas ao fundo enquanto Prozy se encolheu aos pés de sua dona e fez aquilo que deveria ser o som de uma coelha espirrando.

– Tem certeza de que esse é o lugar certo?

Ive riu e respondeu:

– Sim, senhor, senhor. Você não sabe, mas Dresbel fica bem em cima do ponto mais mágico do seu mundo. Apenas alguns pontos da Austrália e do Marrocos conseguem ser tão espirituais quanto aqui.

Andrew, que comentava para si próprio que gostaria de olhar seu cotidiano e vê-lo mais mágico, achou graça da ironia que era a situação exposta pela menina.

– E você está dizendo que vamos encontrar a localização do primeiro nome nessa sorveteria?

– Claro que não, Andy, você é tão estranho... A entrada para o reino das fadas fica debaixo desse lugar e quem cuida de tudo é um homem em dívida com a minha família.

O reino das fadas, pensou , era uma das coisas que nunca pensara em ouvir como algo sério ou como um lugar no qual efetivamente chegasse a pisar. Considerando que levava uma vida tão emocionante quanto um longo artigo sobre química orgânica, isso era muito mais do que podia conceber. Tentou não deixar sua perplexidade chegar ao rosto. Falhou miseravelmente.

Estava a ponto de indagar alguma coisa quando a atendente se aproximou para tomar os pedidos. Ive escolheu um milk-shake de chocolate para viagem e disse que gostaria de conversar com Tord Sandspittown, o dono, e que dissesse que era a filha de uma amiga quem o chamava.

O homem que veio ter com eles dali a pouco era loiro, magro e de rosto grande e feio, caso fosse uma estátua, poder-se-ia dizer que fora esculpido por um bêbado.

– Olá, Ive, Princesa do Fim Inevitável – disse ele. – Vejo que tem companhia.

– Olá, você, Tord. Andrew é o meu amigo e está me ajudando com algumas coisas e Prozy você já conhece.

Andrew apertou a mão de Tord Sandspittown, que pegou uma cadeira e sentou-se. O garoto nunca imaginaria que o dono da sorveteria mais conhecida da cidade fosse algo além disso e se colocou a imaginar quais outras pessoas escondiam segredos.

– Estou aqui porque preciso de uma coisa – disse Ive. – Quero ir ao reino das fadas me encontrar com Mirtza Sosostriz. E o mais importante: minha mãe não pode ficar sabendo.

O homem estava em silêncio, mas era evidente que desaprovava o pedido. Olhou para os dois jovens e após conferir o relógio, disse:

– Você sabe a dívida que tenho com sua família... Mas o que você está me pedindo é arriscado. O caminho está cheio deles e eu não gostaria de ser o culpado por te colocar em perigo, estou cansado desse mundo. Lamento, mas não abrirei a porta, caso contrário eu permaneceria aqui para sempre.

– Só existe essa forma de ir até lá? – perguntou Andrew.

– Sim, a menos que você se mude para Naracoorte na Austrália – respondeu Tord. – Ive, pessoas são atacadas lá embaixo, e o fato de sua mãe ser quem é não faz diferença para eles.

A conversa foi interrompida quando a atendente veio entregar o pedido feito. Havia tensão girando ao redor da mesa durante todo aquele breve momento de silêncio que foi partido apenas quando a garçonete se afastou e Ive respondeu entre um gole e outro:

– Eu sou uma garota crescida, sei me cuidar e realmente preciso ir até o lado de lá – disse Ive, no tom de uma criança que pede para colocar o dedo na tomada. – Minha mãe te deixou encarregado de cuidar desse lugar para sanar sua dívida, mas confie em mim, ela nem vai saber. Eu não vou estar sozinha, Andrew irá comigo.

Prozy, que até então escutava a conversa numa mistura de espirros alérgicos e tédio, comentou:

– Ive, isso é a mesma coisa que ir sozinha.

– Não é surpresa que você seja alérgica a si própria, eu também não me aguentaria se fosse você, sua coelha rabugenta.

– Se é isso que você deseja, eu não posso impedi-la – disse Tord Sandspittown, circunvagando o olhar pelo estabelecimento. – Sou um mero servo de sua família, você bem sabe.

Andrew viu a garota concordar com um entusiasmo mil vezes maior que o dele, que era nulo. Sabia pelo nível da conversa que as coisas seriam piores do que a surra que Astrophel lhe deu. O coração saltou batidas e lhe disse para tomar um táxi e nunca mais conversar com a filha da Morte ou tentar conquistar Briony. Mas não era inteligente o bastante para escutar um bom conselho.

– ...a minha irmã já foi de lá para cá um milhão de vezes e nunca aconteceu nada – dizia Ive.

– Rayla é a capitã da D.I.E e todos conhecem o tamanho de suas habilidades.

– D.I.E? – indagou Andrew.

– Divisão de Investigação Espiritual – respondeu Tord – A irmã de Ive é a capitã mais jovem da história e a chefe de operações. Venham, abrirei a porta, mas depois disso estarão sozinhos.

Andrew pegou a coelha e seguiu a garota e o homem até o fundo da loja onde entraram numa pequena sala abarrotada de caixas e livros de contabilidade. Andrew fechou a porta e ajudou Tord a empurrar uma estante que era quase do tamanho da parede. Puderam então ver que uma porta vermelha se escondia ali.

– Essa é a entrada – disse o homem.

Não tinha nada de especial ou anormal que chamasse a atenção de alguém, feita de madeira e sem nenhum adorno. Mas Andrew sabia que as aparências do mundo estavam erradas e que desde que conhecera Ive, qualquer coisa sólida poderia se desmanchar no ar de um instante para o outro.

– Se acontecer qualquer coisa, você pode dizer a minha mãe que eu te forcei a abrir – disse Ive. – E a propósito, seu milk-shake é ótimo.

Tord Sandspittown tirou uma chave dourada do bolso e a colocou na fechadura. A porta se abriu com um movimento suave e uma forte lufada de vento escapou, batendo em seus rostos e espalhando papéis. Havia somente uma escada que descia em caracol e escuridão.

– Acho que é hora de irmos – disse Andrew. – Não que eu esteja muito ansioso para isso.

O grupo se despediu do homem. Ive, carregando Prozy, foi a primeira a começar a descer os degraus, sendo seguida por Andrew. Não haviam descido muito quando a porta vermelha se fechou atrás deles. Andrew estava plenamente consciente de que caso algo acontecesse dali em diante, seu corpo nunca seria encontrado. Um barulho vindo de baixo. Isso possivelmente não era um bom sinal, pensou Andrew, mas alguém que aceitava descer aquelas escadas com a garota das mechas verdes não devia ser muito sensato desde o início.

E deste modo começaram os eventos que colocariam o rei na guilhotina, ou melhor: Andrew em apuros.