A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 63 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E SETE

Não, querido, você não é Molly Brown, agora, pule na água e se

afogue de uma vez.

 

Jonas caminhou pelo corredor a passos rápidos, como sempre, era um dos últimos a sair. Gostava de permanecer na sala de música após o fim, isso se devia ao fato de que tentava compor algo usando o piano da escola – bem melhor do que aquele em casa. Quanta coisa não precisaria para entrar de verdade no mundo da musical? Seu pai dissera que caso suas notas permanecessem altas ganharia uma nova mesa de som, o que facilitaria bastante sua vida.

– Que venha isso – murmurou consigo mesmo.

Os murais de avisos estavam lotados com as datas dos eventos escolares daquele mês e até mesmo um cartaz sobre um cão: Se você encontrar nosso cachorrinho, por favor, avise. O nome dele é Flush e se trata de um spaniel muito amado. Ofereço Recompensa. O garoto leu aquilo e continuou a caminhar. Lamentava pela pessoa que havia perdido seu animal, mas era obrigado a admitir que não era o maior fã de coisas peludas. Isso fazia com que se lembrasse de uma história que sua mãe contava sobre seus dias de faculdade. Ela dividia um apartamento com outras três garotas. Uma delas tinha um gato e um cachorro – cheios de pulgas e vazios de educação – e reclamava quando alguém não limpava a sujeira que ela mesma fazia. A outra garota evitava o uso de papel higiênico para que não precisasse tomar parte na limpeza do banheiro. A terceira – que tinha os cabelos pintados de rosa e gostava de desenhos japoneses – era mentirosa e dissimulada. Sua mãe viveu com aquelas pessoas durante quase seis meses e aprendeu uma coisa: não importava quão sujos os animais pudessem ser, as pessoas conseguiam ser piores.

Bem, as coisas não haviam mudado tanto desde a época dela. Podia ver isso na sua escola, com todos os garotos que lhe incomodavam diariamente. Chegava a se perguntar que diferença seu esforço na música poderia fazer num mundo com gente desse tipo. Continuou a distribuir seus passos pelo corredor. Não podia se permitir pensar dessa forma. Sua arte era a única coisa que ninguém poderia ferir. Um dia as aulas acabariam e o mundo de verdade começaria e ter sido do time de futebol não terá nenhum valor. Lembrou-se de que a mesma coisa acontecera com Eminem e que ele chegou a entrar em coma por causa de uma das várias pancadas que levou. Anos depois o garoto que impunha pânico na escola cresceu para se tornar catador de lixo e ser humilhado numa das músicas do The Slim Shady LP.

Ia de cabeça baixa, olhando para o piso que estava cheio de marcas. Fez a curva que levaria até onde estava sua bicicleta e empurrou a porta de saída. O céu já começava a escurecer e o pátio estava vazio. Chutou algumas pedrinhas no meio do caminho e tirou o cadeado. Seu pai lembrava-o mil vezes todos os dias que era importante trancar sua bicicleta porque muitos bandidos rondavam escolas. Ao guardar a chave acabou encontrando o dragão de cerâmica que Amber lhe dera.

Riu consigo mesmo. Ela tinha ideias estranhas, pensou, como aquilo iria protegê-lo se um asteroide decidisse cair sobre sua cabeça ou se dinossauros tentassem comer seu cérebro? Apesar disso, ficava contente por ela ter se preocupado. Amber era a única que entendia a importância de conseguir sair de onde estavam e ganhar respeito. Poucas pessoas encontravam sua metade criativa e isso fazia a diferença na amizade deles, para cada batida que ele criasse ela conseguiria encontrar o flow adequado ou o delivery exigido. Talvez ela não soubesse o quanto o garoto admirava sua coragem ao ter subido no palco para enfrentar Lil Darryl. Talvez a lógica da coisa fosse isso, não parar.

– Indo embora, choco? Eu fiquei curioso; seus pais nunca te pediram para fugir de casa?

Reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Virou-se rapidamente para encarar Gabe parado na escada com um sorriso. Conhecia o ritual que viria a seguir. Apertou o dragão com força. Olhou para os lados a procura de algum adulto que pudesse estar por ali, ninguém surgiu. Tentou não demonstrar o medo que sentia enquanto o outro garoto vinha em sua direção – os ombros balançando como os de um gorila e o sorriso de um selvagem pendurado. No ano anterior sua mãe lhe dera um livro de presente: O Senhor das Moscas. Naquela época, leu-o apenas como uma história de aventura sobre meninos numa ilha, mas pela primeira vez, compreendeu-a de verdade. Tudo aquilo era verdade, garotos são propensos a maldade e matariam uns aos outros se lhes fosse dada a chance. Gabe era apenas um dos milhares de Jacks espalhados pelo mundo. E nenhum Jack daria ouvidos ao seu Simon ou Porquinho interior – a concha pertencia somente a ele.

– Eu não quero briga – obrigou-se a dizer.

– Quem liga? Se você beijar a sola do meu sapato eu prometo não te bater muito.

Estavam a dois passos um do outro. Gabe deixou a sola do calçado levemente à mostra, esperando que cumprisse sua ordem. Os olhos de Jonas foram do chão para a face do outro. Tentou encontrar algum motivo que desse a ele o direito de fazer isso. Olhou para o dragão em sua mão. Gabe havia sido um incômodo de todas as formas possíveis nos últimos. E isso nunca terminava, apenas piorava. É apenas eu contra o mundo, cantou Tupac lá atrás e mais, nunca se contentar com pouco e manter sua essência mesmo quando estiver ilhado. Eu contra o mundo. Isso era a verdade. Nunca conseguiria respeito se não fosse com suas próprias mãos.

Sem nada a perder. Todos aquelas pessoas da Harlem Renaissance [1] que sua mãe estudava fizeram isso. Tupac não aceitaria que alguém lhe dissesse o que fazer. Jay-Z, Ice Cube, Rakim, Eminem e Nas também não. Então, essa era a função de se ter heróis: mostrar que um sonho

não precisa ser postergado, mas explodido [2].

– Estou esperando – disse o gordo.

Jonas colocou seu dragão no bolso e se aproximou do garoto sorridente. Ao contrário do que esperava, sentia-se calmo e atento, como se nada pudesse dar errado.

A hora certa.

O que aconteceu no momento seguinte foi rápido e inesperado. A mão de Jonas fechou-se e voou de encontro ao rosto de seu oponente. Houve um baque surdo quando seu inimigo caiu. A chance havia se apresentado. Saltou de joelhos e não parou de acertá-lo. Podia escutar o outro guinchando e tentando se livrar, mas isso não faria com que cedesse. Viu sangue escorrer pelo rosto de Gabe. Ele não parecia tão durão agora.

Levantou-se e limpou as mãos na calça. Olhou para a criatura encolhida e chorosa. Era difícil acreditar que passara tanto tempo com medo de um garoto tão insignificante. Prometeu a si mesmo que nunca mais deixaria alguém quebrá-lo.

– Você nunca mais encostará em mim – disse Jonas se agachando ao lado de Gabe. – As coisas mudaram, bola de carne, e se você não sabia, agora está sabendo.

Chutou a perna do colega de classe e caminhou até sua bicicleta. Amber adoraria ouvir sobre o que acabara de fazer. Começou a pedalar sem pressa pelo pátio. Jonas acreditava que tudo aquilo seria lembrado anos depois como um marco de onde as coisas começaram a mudar. E levaria esse mesmo sentimento às suas músicas, como cantava Rick Ross: é melhor ir para a cova do que ser um fracote. Colocou mais velocidade na bicicleta, a saída já estava adiante. Era a primeira vez que sentia orgulho de si mesmo por ter tomado uma atitude. Não tinha nenhum medo, não poderia dizer se o nome daquilo era felicidade – mas, podia afirmar que era tranquilidade. O nome do primeiro disco do The Notorious B.I.G era Ready To Die, talvez porque fosse dessa forma que Christopher Wallace – também conhecido como Biggie Smalls, Big Poppa, Frank White – se sentisse ao escrever aquelas músicas, pronto para morrer. O garoto nunca saberia a resposta para isso e não se importava, pois, naquele momento, Jonas estava diametralmente oposto à Biggie: Pronto para viver.

– Eu tenho 99 problemas, mas o mundo não é um deles – murmurou consigo mesmo e riu.

Estava tão distraído por seus pensamentos que mal viu o ônibus que lhe acertou.

[1] Movimento cultural negro que aconteceu entre os anos de 1920 e 1930; também conhecido como “New Negro Movement”.

[2] Referência ao poema “A Dream Deferred”, de Langston Hughes.