A Morte é Legal
Prefácio
Você está prestes a ser enganado. Talvez tenha sido a capa, ou talvez a sinopse. Pode ter sido o primeiro parágrafo. Não importa. Este livro não é o que você pensa sobre ele.
Isso normalmente acontece com os bons livros. Eles despedaçam expectativas, planos e projeções. Como um namoro. Um bom namoro. Ou como um coelho branco. Esses também nutrem um enorme prazer em acabar com os planos de qualquer um. Pensando bem, talvez a morte também seja assim, enganadora e surpreendente. No fim das contas, a morte pode não ser o fim de tudo, ou a pior coisa passível de acontecer a um ser humano. É. A morte deve ser bem enganadora. Como um bom livro. Como este livro.
Deixe-me dizer: você vai achar que este livro é sobre um relacionamento improvável, ou sobre a busca por um romance não correspondido. Vai torcer para que o mocinho conquiste seu objetivo. Vai vibrar com a primeira cena de beijo. Mas após alguns capítulos você verá que o mocinho não é o único com razão. Que a moral daqueles por quem você torce não está no manual do bom-mocismo. Não estamos em Kansas, diria o protagonista. Não estamos mesmo.
E fora de Kansas, todo tijolo na estrada tem um nome, um significado e uma história para contar. E quando essas palavras-tijolos falarem com você, leitor, você perceberá que foi enganado pela segunda vez. Porque normalmente buscamos conforto nos livros. Mesmo nos bons livros. Queremos uma história que emocione, que surpreenda, que amedronte, até, mas que apenas entregue um bom desfecho. Que seja uma leitura assim: página após página, de cabo a rabo.
Pois aposto que antes da décima página você estará googlando a primeira referência que conseguir pescar. Estará na Wikipedia e nos fóruns da internet tentando juntar cacos de cultura pop que te faltam para entender esses personagens adoráveis e terríveis. Porque, honestamente, pouca gente entende, ao mesmo tempo, de hip-hop, rock alternativo e literatura pós-moderna. Eu não entendo. Não de tudo ao mesmo tempo. E nem você, admita.
Alguns, no entanto, conhecem. E estes acabam adquirindo o hábito de escrever livros só para trollar o leitor, só para jogá-los no fosso de seus próprios sonhos. Como um coelho branco muito mal intencionado. Esta má intenção é outro fator indicativo que você será enganado. Porque este livro entrega coisas para além da história. Pouquíssimos livros ousam entregar esta carga cultural a leitores jovens ou maduros.
Então, se você é adolescente, ou um jovem adulto, como dizem os anglófonos, saiba que você acaba de ganhar um tíquete para uma montanha-russa literária. Você não lerá apenas sobre Andrew e Ive. Lerá sobre Alice e Holden Caulfield. Huckleberry Finn e Sandman. Tupac e Rivers Cuomo. Já você, leitor adulto, que achou ter nas mãos um livro para adolescentes, sinto muito. Você também foi enganado. Porque você não esperava um jovem autor brasileiro usar Pynchon, Beckett e T.S. Elliot de forma divertida e ainda colocando uns mortos-vivos no caminho.
Ah, sim, este livro tem muitos mortos-vivos. Shakespeare. Cervantes. Goethe. Estão todos aqui. Você só terá que encontrá-los.
Essa, por fim, é a maior das artimanhas deste livro enganador. Você vai buscar referências, mesmo quando não houver nenhuma. Você passará desapercebido por outras que tornariam a leitura muito mais profunda e, por outro lado, dedicará alguns minutos, horas, meditando sobre uma alusão que está lá apenas para colorir. Você não será obrigado a ler mais de uma vez, mas vai querer fazê-lo. Só para ter certeza. Você seguirá o coelho branco. E eles nos enganará a todos com suas letras.
Jacques Barcia [1], 16 de julho de 2012
[1] É escritor de ficção especulativa com foco no bizarro, surreal e estranho. Jacques tem diversos contos publicados nos Estados Unidos, Inglaterra e Brasil.