A Morte é Legal
Capítulo CINQUENTA E QUATRO
Se Eilert Løvborg escrevesse uma canção, ela seria mais ou menos
assim, Juanita.
O teatro estava lotado e qualquer pessoa seria capaz de escutar um alfinete caindo. Todos concentrados em admirar a tragédia de Hedda Gabler e das pessoas ao seu redor. Era a quinta vez que Astrophel e sua esposa assistiam aquela peça. Entretanto, esta era uma representação diferente da obra, em que a Noruega era substituída por alguma ilha no Caribe. Feiticeiros dividiam o palco com os dramas da esposa de Jørgen Tesman e suas tramas. Isso o lembrava da versão vodu que Orson Welles fizera de Macbeth, uma das favoritas de Stella.
As mãos dela se entrelaçavam nas suas. Sabia que ela ainda estava abalada pelo que acontecera no restaurante, mas ambos tentavam evitar o assunto todas as vezes em que o mesmo ameaçava surgir. Isso apenas piorava na companhia dos pequenos acontecimentos da última semana. Ao olhar-se no espelho, Astrophel encontrara mechas brancas em seus cabelos e rugas espalhadas pela face – um sinal claro de que Stella estava ainda mais fraca e que a espiral decrescente os carregaria em breve. Quanto tempo mais poderia suportar dessa forma? Um ano, dois no máximo? Essa certeza de que poderia deixar de existir em breve fazia com que cada pelo de seu corpo tremesse.
Assistiam a parte da peça em que Hedda lamenta que seu antigo admirador não tenha se matado da forma triunfal planejada por ela, mas com um tiro acidental no baixo ventre num bordel. Algumas pessoas soltavam risinhos nervosos e outras permaneciam enclausuradas em sua seriedade. Astrophel, um membro do segundo grupo, acabou desviando os olhos, apenas para encontrar Mefistófeles na porta. O demônio fazia um sinal para que fosse ter com ele e o feiticeiro sabia que mesmo enojado, precisava fazê-lo. Avisou a Stella que precisava sair e avançou por entre as cadeiras. A presença do outro significava uma coisa: a localização do terceiro nome. E isso o deixaria a um passo do grande prêmio.
O demônio o aguardava logo na saída para a área dos banheiros. Havia possuído o corpo de uma mulher dessa vez, roupas sóbrias e elegantes. Astrophel fechou a porta atrás de si e encarou o demônio.
– Não sabia que você gostava de teatro, Astro. Eu amo Hedda Gabler, ela definitivamente joga no meu time. Teremos uma montagem de Fausto no andar de baixo semana que vem – com um final melhorado – posso conseguir os melhores assentos da casa para você.
O homem cruzou os braços e respondeu:
– Não tenho tempo para algo que nem vale a pena ser assistido. Agora diga o que você tem para mim.
Mefistófeles sorriu e disse:
– Antes que eu revele onde está o nome, preciso avisar mais uma vez que essa é sua última chance. Recupere o nome perdido para que eu possa ter minhas férias.
Astrophel sustentou o olhar e o silêncio. Estava cansado e isso lhe tirava as forças necessárias até mesmo para responder alguma coisa. O ânimo com o qual começara a busca se perdera pelo caminho, havia chegado ao limite em que apenas um fim – qualquer um – lhe interessava. O último nome tanto para ele quanto para a filha da Morte e somente um deles sairia contente. A busca pelos nomes era como ter uma cenoura pendurada na sua frente, que não importava o quanto andasse, estaria sempre adiante. Chegava a desejar que Baz nunca tivesse lhe contado sobre os nomes. Frustração, a palavra necessária para definir o nó. E se conseguisse todos os nomes e salvasse Stella, isso traria felicidade esperada? Traria sua filha? Ou uma nova necessidade surgiria para fazer com que continuasse a perseguir a cenoura? Talvez, não fosse tão diferente de Hedda Gabler – trazendo destruição sobre tudo o que encostava.
– Você ouviu o que eu disse, feiticeiro?
– Sim, eu ouvi.
O demônio enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel colorido. Astrophel leu as informações que estavam contidas ali e pensou que o local era apropriado como qualquer outro. O Finale daquela sinfonia já começava a tomar forma e os coristas logo se colocariam a cantar. Podia vê-los no palco, esperando pelo momento em que a explosão de vozes começaria.
– Nos veremos em breve, Astrophel. De um jeito ou de outro.
Mefistófeles se afastou e em menos de segundos, já havia desaparecido de vista.
O homem permaneceu ali – não soube por quanto tempo – buscando uma resposta. Suspirou e deixou que seus olhos se fixassem no teto, nas lâmpadas. Conhecia bem o verme que dançava em seu estômago naquele momento, o seu nome era medo. Tentava buscar alguma imagem de conforto: visões da infância, o rosto da mãe, algum cheiro ou memória de quando as horas e as pedras não eram as mesmas coisas. Nada foi encontrado. Encostou-se parede ao escutar o barulho de um tiro. Um instante de silêncio. Astrophel sabia o que isso significava, Hedda Gabler havia acabado de se matar com a arma de seu pai – acolhendo a morte ao invés do vazio que a aguardava pelo resto da vida. Centenas de aplausos explodiram, a peça havia terminado. Astrophel escorregou as costas até estar sentado no chão. Então, aquilo era a vida. Hedda estava morta.