A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 61 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA E CINCO

O que eu encontrei lá era mais verdadeiro do que estranho, e depois

eu tomei um chá.

 

Sempre acontece de repente e com um golpe. Primeiramente você sente que não está lá e que tudo o que já foi ou seria era falso. Sem substância ou peso. Sair de um sonho é como estar sem roupas no frio polar.

Andrew acordou e seu quarto surgiu quieto diante de si. Ive estava na sua frente e o observava com olhos grandes e atenciosos. O garoto levantou-se e caminhou de um lado para o outro. Lamento por tudo isso, disse Ive. Encostou-se à janela, gostaria de responder alguma coisa, mas tudo aquilo que vira na mente de Briony ainda estava passando por sua mente. Seria ele uma pessoa que se levava escondido – uma praia escura? As palavras de dela ficaram passando por sua mente: o que salva o amor é isso, que vem de mãos dadas com a raiva, ciúmes, ódio, inveja e vingança. Não poderia acreditar nisso. Se assim fosse, o amor era apenas uma flor de plástico: muda, imutável e sem cheiro. Tudo o que fizera nos últimos anos era regar essa coisa inanimada com águas que não mereciam esse fim.

Ive o abraçou por trás e perguntou:

– Como você se sente?

– Bem, como alguém que descobriu a verdade.

– E a verdade o libertou... – ao ver que o garoto permanecia apático, acrescentou – desculpa, era pra ser engraçado.

Ela segurou sua mão e fez com que se virasse para encará-la. Ninguém disse coisa alguma. Ive acariciou sua face e sorriu. Havia algo de diferente naquele sorriso. Algo que não sabia explicar, mas que produzia um tornado em seu cérebro – aprisionando seus pensamentos com apenas um olhar. Ela se ergueu nas pontas dos pés e encostou os lábios nos seus. O calor da respiração de um na face do outro, capaz de apascentar um coração como um pastor e suas ovelhas. Ali no quarto, num mundo de dois, os jovens desconstruíam os muros de qualquer timidez que existia antes. O perfume dela, quase imperceptível, era impossível de ser ignorado. Então é isso que se deve comparar a um dia de verão, sentia Andrew em cada poro da pele. Era capaz de perceber o relevo de cada linha nas palmas das mãos da garota, o formato dos dedos e a temperatura. O raio de sol depois do inverno que passou e da chuva que cessou. Fique comigo, ouviu a si mesmo dizer por entre um beijo. Ive balançou a cabeça afirmativamente e colocou uma mão atrás de sua cabeça enquanto o abraçava com a outra. Andrew não sabia definir onde estava a linha entre a beleza e o terror.

As cortinas da janela se agitaram e fizeram barulho. Os olhos estavam fechados, mas seus ouvidos velavam. Fique comigo, pensava enquanto era guiado até a cama; amiga minha, namorada minha, ave minha. Seu coração, uma pianola que executava melodias descompassadas, confundia pausas e batidas.

Se deitaram na cama e ficaram de olhos bem abertos.

– Eu estou com medo – disse a garota.

– Eu também – respondeu Andrew.

Ive chegou perto.

Estendidos sobre o lençol, um garoto e uma garota, trocando o silêncio por um vai e vem de olhares.

Ive chegou bem perto.

Um abraço desajeitado aconteceu por entre tentativas erradas. As línguas que se esbarravam levemente ou com força. As mãos que exploravam cada parte um do outro. Os olhos que vez por outra se abriam para espiar. Era o fluxo e o refluxo de um mar desconhecido por cada um deles de forma diferente. A mão dela em suas costas, se esgueirando por debaixo da camisa – um deslizar. O garoto tinha o rosto quente, ela também. Algumas palavras eram murmuradas ao pé do ouvido, mas nenhuma delas era registrada na mente. Andrew teve sua camisa retirada lentamente pela garota. Seu corpo tremia por mil motivos. O jovem se aproximou com cautela, como se um movimento em falso pudesse fazer com que ela se machucasse. Houve um tremor quando ela beijou seu pescoço para logo em seguida morder levemente seu ombro.

Lembrou-se da primeira vez em que a vira – sorrindo na praça. Gostaria que houvesse alguma música tocando agora, cogitou em dizer isso em voz alta, mas tinha medo de ser um passo em falso. Sentia-se vivo como nunca se sentira antes, como se estivesse no meio de uma floresta e Ive houvesse se tornado aquela coisa que ficava no limite entre a luz de sua fogueira e a escuridão além das árvores.

– Eu gosto de você, docinho de tinta – disse ela.

– Eu gosto de você – respondeu.

Andrew ajudou a garota a se livrar de sua blusa, com certa dificuldade e calma. O corpo era delgado e havia uma pequena marca perto do umbigo. Encararam-se durante um momento. Passou a mão nos cabelos dela, enrolando uma das mechas. Moveu-se lentamente, tinha medo de fazer qualquer movimento brusco e assustá-la. E se fizesse alguma coisa errada? Tentou deixar esses pensamentos num canto da mente e encostou os lábios sobre os ombros da garota, passando por entre o seio até chegar perto do umbigo. Ajoelhou-se na cama e tirou os sapatos dela e os seus em seguida. Ela encolhia os dedos.

Ive sussurrou alguma coisa e desabotoou a calça, o garoto a imitou. E assim eles se despiram, sem nenhum som que não o silêncio. Andrew sentiu-se envergonhado de estar nu diante de uma garota e a julgar pelo olhar baixo, a garota também estava. Abraçaram-se com força, o que servia como um código de amparo entre eles. Uma canção pacífica e melódica, acústica e suave sem nenhuma percussão.

Ela o puxou para bem próximo.

E daí em diante ele não teve mais consciência de onde começava seu corpo e terminava o dela. Um balé romântico de passos improvisados. Sentia seus corpos deslizando um sobre o outro. Havia suor escorrendo pelo meio de suas costas. Ive respirava pesadamente e sua boca entreaberta deixava que vocais desconexas fugissem.

No meio dos pensamentos que cruzavam a mente de Andrew naquele momento, estava o fato de que se sentia protegido, como se nada no mundo pudesse atingi-los naquele momento e um fosse o abrigo do outro.

Andrew não soube quanto tempo aquilo durou. Quando o fim chegou, foi sem fogos de artifícios ou gritos, chegou calmamente, uma música que vai perdendo intensidade no final. Permaneceram abraçados ainda, até que Ive sorriu e disse:

– Você está com o sorriso de uma marmota numa casa na árvore.

– Pelo menos eu não pareço uma torta de abóbora.

Os jovens deixaram que a risada escapasse por entre a serenidade e o constrangimento.

Teriam rido de qualquer coisa. O tipo de contentamento que poucas pessoas conseguem sentir. A alegria de rasgar uma calça, desenhar um relógio no pulso, cantar no chuveiro, jogar sapatos no mar, ter um bigode de leite ou pintar o rosto com tinta guache. O cheiro de um livro novo, um abraço inesperado, a risada de nosso melhor amigo, um filme que nos faz sorrir quando estamos tristes. Correr na chuva, rir de uma piada sem graça, assistir a um episódio de Doctor Who com alguém que amamos ou descobrir que sua prova de química orgânica não foi tão ruim.

A felicidade tão efêmera, ainda assim, tão eterna para quem sente.