A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 70 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E QUATRO

Todas as coisas do mundo estão contra mim, contudo, eu saúdo o oeste

e o leste.

 

Andrew olhou a cidade pela janela do táxi. O mundo parecia mais lento e ainda assim tudo sobre o qual colocava a vista era apenas um borrão: rostos, prédios e ruas – pinturas de luz que se chocavam contra a retina e desapareciam. Seu estômago se revirava e sua cabeça estava pronta para explodir em dor. Amber não deveria estar no meio dessa história, mas em seu quarto, fazendo músicas com Jonas. E isso não era tudo, Ive tremia ao seu lado, a face ainda mais pálida e uma atadura improvisada na perna – o que diminuía qualquer chance de vencer Astrophel numa luta. Prozy estava deitada sobre o colo de sua dona e se mantinha em silêncio. Não poderia deixar que nada acontecesse com sua irmã por causa da busca. Havia prometido isso para sua mãe, que cuidaria dela. E se Astrophel a... – não podia pensar nessa hipótese.

– Eu prometo que ela ficará bem, Andy – disse.

Preferiu o silêncio, sabia que se abrisse a boca alguma coisa estúpida saltaria dela. Aquela não era a melhor hora para perder o controle. Preferiu pensar em outras coisas. Lembrou-se de quando ele e a irmã costumavam assistir a filmes de terror, o que fazia com que ela corresse para sua cama durante a noite dizendo que Beetlejuice estava no quarto dela. Sabia que hoje ela não teria medo desse tipo de coisa, mas podia afirmar que Astrophel era bem pior do que qualquer monstro do cinema. Um movimento sujo até mesmo para ele, usar uma garota inocente para obrigá-los a entregar o nome, o tipo de atitude que servia apenas para validar o fato de que uma pessoa assim não merecia continuar vivendo. Rangeu os dentes. Fora um idiota por pensar que o feiticeiro não iria atrás de sua família.

Olhou para Ive mais uma vez, insistira para que ela fosse para um hospital, mas ela se recusou. Haviam buscado o primeiro nome e feito um curativo improvisado na perna da garota antes de tudo. Não fora um trabalho profissional, mas o suficiente para que aguentasse aquela noite. Duas horas já haviam se passado desde o momento em que largaram Shakespeare e os outros escritores.

– Precisamos pensar em alguma coisa – disse Andrew.

Ive sacudiu a cabeça e respondeu:

– Não. Vamos entregar o nome para ele e recuperar sua irmã, simples assim.

– Se fizermos isso você não será humana.

– Não se preocupe, você não vai me perder tão fácil assim, senhorito.

Trocaram um beijo rápido. In The Air Tonight tocava no rádio do taxista. Quase pediu que desligasse a música, mas Phil Collins era preferível ao que passavam por sua cabeça – pensamentos que gritavam tão alto quanto a vontade de chorar. Os últimos tempos haviam sido bons, porém, isso desafiava a lei que regia sua vida: nada de bom poderia lhe acontecer sem que fosse obrigado a pagar ao flautista com juros. Os dias que passara com Ive foram uma amostra grátis do que sua existência poderia ser caso fosse outra pessoa. E o que acontecia com sua irmã era a punição por quase acreditar que nenhum homem é uma ilha. Melhor fosse que ninguém tivesse sentimentos, como Rivers Cuomo cantara em Pinkerton: sentimento é dor.

– Mantenha a calma, Andrew. Nós vamos sair dessa.

– Não dessa vez – respondeu. – Acho que está na hora de encarar a realidade.

A garota lhe encarou e voltou a face para as ruas. Gostaria de saber o que se passava pela cabeça dela naquele momento. Seria ela capaz de sentir medo como os humanos sentiam? Gostaria de poder tirá-la dali, levá-la para o mais longe possível e fazê-la dormir em seu ombro, mas isso não seria possível. Como acreditar que aquela garota sem cor ou olhos brilhantes era a mesma que lia O Pequeno Príncipe e ria das ilustrações? O rosto que se apresentava tão cansado e a voz despida de ânimo.

– Chegamos – disse o motorista.

O carro parou em frente ao local marcado: Museu Histórico de Dresbel. Um prédio de arquitetura moderna, cujos vidros circunspectos observavam os visitantes do alto até embaixo. Entregou uma nota ao motorista, que partiu rapidamente, e ficou ali parado. O jazz bar ficava no terceiro andar, também conhecido como café do museu pelos jovens da cidade, que iam até ali para conversar sobre filmes de arte e músicos desconhecidos. Costumava frequentar o

lugar com Briony e Kayla, sentavam-se por horas e brincavam de cadáver esquisito [1]. Guardava boas lembranças daquele lugar, das tardes perdidas com os poucos amigos e as conversas preguiçosas, agora, havia um novo significado imbuído naquela estrutura.

– Hora de chutar o traseiro dos velhinhos e pegar sua irmã, ela me dá comida – disse Prozy.

– Isso é você tentando ser gentil? – perguntou.

– Consegui?

– Não.

– Imaginei.

Caminhou em direção à entrada segurando a mão de Ive.

Empurrou a porta de vidro que se abriu como a boca de um tubarão aguardando comida. Ive lançou uma magia para que ninguém entrasse e o trio seguiu rumo ao elevador. O saguão estava vazio. Cartazes anunciavam uma exposição de fotos de André Kertész no segundo andar e pinturas de Keith Haring no último. Um pequeno quadro na entrada dizia: Prato do dia – Panela de cogumelos com shiitake, shimeji e cogumelo-de-paris – Porção para duas pessoas. Como desejava estar ali somente para apreciar a comida. Sorriu consigo mesmo do pensamento e aguardou o elevador. Olhou para um vaso cheio de gerânios pendurado na parede, estavam vivos e cheios de cor – pequenas vidas alheias ao caos que habitava cada um deles e que os aguardava no terceiro andar.

– Andy? – disse Ive.

– Sim?

Andrew sustentou o olhar que ela exibia; os lábios que tremiam sem que ela pudesse controlá-los e as mãos enfiadas no bolso da calça para ocultar os dedos hiperativos e constrangidos. A boca dela se moveu. A voz baixa demais para ser ouvida. O garoto aguardou, sabia que algo importante se debatia dentro dela em busca de escape. Ive baixou os olhos. As palavras vieram:

– Eu te amo.

As quatro sílabas flutuaram dentro de sua cabeça. Sentia, apenas sentia, ali, naquele saguão frio e desolado, vigiado por flores e quadros e estátuas e ruídos noturnos, que lhe era impossível analisar, ainda que minimamente, o impacto de tudo. Moveu o braço com certa rigidez. Sua alma iria se despedaçar. Tocou o rosto dela.

– Eu também te amo, Ive.

A porta do elevador se abriu e os três entraram. Andrew abraçou a garota por lhe faltar palavras. E o que diria mesmo se as tivesse? A última coisa que viu antes das portas se fecharem completamente foram os gerânios no saguão iluminado.

[1] Jogo coletivo inventado pelos Surrealistas em 1925, na França. O cadáver esquisito tem como objetivo colocar palavras inusitadas numa frase usando a seguinte estrutura: artigo, substantivo, adjetivo e verbo.