A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 25 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo VINTE E UM

Diretamente de Dresbel, a maior ameaça à sociedade desde o cubo de

gelo.

 

A noite de sexta-feira era fria e disposta a manter pessoas longe das ruas, mas essa opção não passava pela cabeça de Amber Webley. Era uma noite de guerra. Ela saiu pela porta da frente às dez da noite, passos leves e olhando para os cantos. Jonas a esperava do outro lado da rua, parecia estar com medo da própria respiração. Conferiu mais uma vez se seu pai ou irmão não haviam acordado com o barulho. Tudo em paz. Ajeitou o agasalho e colocou o capuz sobre a cabeça. Seu amigo se juntou a ela e juntos começaram a descer a rua que levava em direção a área central da cidade. Ia murmurando alguns versos de Ghostface Killah e improvisando outros para se aquecer mentalmente.

– Amby, a minha mãe vai me matar quando ela descobrir.

A garota riu e respondeu:

– Não seja tão medroso, cara. Vamos estar de volta antes que qualquer um perceba que saímos da cama. Jo, eu tenho que derrotar Lil Darryl e cada um que aparecer na frente. Eu só vou ganhar credibilidade de rua se fizer isso.

– Eu ouvi dizer que a coisa fica bem pesada por lá. Você está preparada, Amby?

– Sempre pronta, Jonas. Vai ser um massacre quando eu terminar, eu vou levar drama pra eles.

– É bom ver que você está confiante. Vai precisar disso quando estiver lá em cima.

O duelo de MCs havia ocupado espaço na mente de Amber durante cada minuto dos últimos dias. Ela sabia que não chegaria a lugar algum se ficasse apenas no porão da casa de Jonas, o respeito nasce das vitórias em batalhas. Estava preparada para os ataques que receberia, usariam o fato de que era uma garota branca e de que estava tentando entrar no jogo. Vencer é a única opção, pensou, eles não querem me ver no topo, mas vou fazer cada um deles se ajoelhar e beijar minha mão. Tinha essa fome de provar que não era uma fraude. Provar que todos estavam errados.

– Vamos nessa, Jonas.

Iam tomando as ruas mais movimentadas da cidade. O centro de Dresbel estava sempre apinhando de carros e pessoas a procura de atividades para o fim de semana. As avenidas eram barulhentas e os dois jovens evitavam tomar ruas ermas. Os telões de propagandas brilhavam. Anúncios de automóveis, cosméticos e tênis esportivos. Amber ergueu o olhar e durante um momento deixou que este se detivesse ao longe, sobre a iluminada Torre de Dresbel. Continuaram a caminhada. Após quarenta minutos, começaram a notar alguns jovens que aparentemente se dirigiam ao mesmo destino, eram garotos que brincavam de improvisar rimas e que riam alto.

Quase lá.

Já havia participado de inúmeros duelos em sua cabeça e improvisado rimas na pista de skate com seus amigos, mas o sentimento era diferente ali. Era a coisa de verdade, como ter um buldogue na coleira e estar a poucos instantes de soltá-lo em cima de um desafeto.

Amber socou o braço do amigo com excitação. Já começavam a ouvir o som de música, um sample de “The Message” do Grandmaster Flash. Os duelos eram realizados debaixo do viaduto Santa Balbina – um dos marcos da cidade, uma enorme construção em concreto armado que servia para unir o centro ao bairro West Coast. O lugar era sujo, coberto de grafites nas paredes. Alguns policiais faziam a vigilância andando de um lado para o outro. A dupla foi se aproximando até ver uma grande movimentação perto do palco. Havia um círculo desenhado no chão e jovens se revezavam numa batalha de dança. A dupla ficou ali durante um tempo, assistindo a animação que pairava. Todos riram quando um mendigo entrou na roda e tentou improvisar alguns movimentos do street dance. Um número maior de curiosos ia chegando.

Aquele lugar era um ringue lhe chamando para ser Muhammad Ali, acertá-los como Mike Tyson. Pensou em todas as coisas que lhe irritavam. As meninas da escola que lhe incomodavam por não ser como elas, as pessoas que faziam piadinhas porque era uma garota no hip hop, a irmã ruim. Deixou todos aqueles pensamentos serem inalados, sabia que é impossível fazer rap se não há raiva passando nas veias. Mas ela tinha sua Glock 9mm carregada com munição de palavras na câmara. Era a chance de fazer como Roxanne Shanté, mostrar que nenhum menino estava no nível dela.

Jonas puxou a manga de sua blusa e apontou para o outro lado do viaduto. Um velho Hummer H2 prateado cantou pneus ao estacionar. A gangue do HOL-K desceu como um exército e foi passando por entre as pessoas que abriam caminho, todos vestiam jaquetas amarelas com o nome de cada um estampado. Amber sabia que até aquele momento a credibilidade de rua estava com eles, mas isso estava para mudar. Eu não vou perder, pensou ela, eu não vou perder. O olhar de Amber se cruzou com o de Lil Darryl-D, que apenas sorriu com o canto da boca e mostrou o dedo médio para ela. Ela respondeu com o mesmo gesto. A tensão estava instalada e isso era bom.

– Amber, você não acha melhor apenas assistir ao duelo hoje e participar outro dia? – perguntou Jonas ao ver os possíveis adversários dela. – Dessa forma você poderá ver o estilo de Lil Darryl antes de duelar.

– Eu não preciso disso. Ele vai ser apenas um cara com uma faca em um tiroteio.

A música ia sumindo enquanto os participantes da roda de dança saíam. Toda aquela parte ia sendo invadida por pessoas ansiosas pelo duelo. O palco foi iluminado e lá estava o DJ, um homem oriental gordo e Maurice, o dono da loja de discos – servindo de apresentador aquela

noite. Um hype man [1] também surgiu no palco e pediu para que todos fizessem barulho. Era um garoto de uns dezoito anos que corria de um lado para o outro e fazia alguns refrões de pergunta e resposta enquanto as coisas eram preparadas.

– Está na hora, Amby. Boa sorte, vou torcer por você aqui. Não deixe Lil Darryl te assustar. Eu ouvi dizer que o flow dele é lento e que ele coloca humor nas linhas dele, é assim que ele costuma atrair o povo.

Dane-se Lil Darryl!, pensou Amber, eu sou a melhor MC. Sentiu um frio no estômago. Ficou repetindo seus pensamentos feito um mantra. O mais importante era manter sua cabeça em ordem e não deixar que nenhum pensamento de medo entrasse, ou poderia acabar gaguejando ou não conseguindo rimar e isso seria o fim. Olhou para o garoto do HOL-K e se concentrou em uma ideia: iria derrotá-lo.

– E ai, família! – gritou Maurice, sua voz amplificada pelas caixas de som. – Todo mundo fechando aqui com o Duelo de MCs de Dresbel?! Quero todo mundo que vai participar aqui no palco e colocando o nomezinho na lista do Dr. Seung-Hwa, nosso DJ da firmeza.

Amber trocou um aperto de mãos com Jonas e sem dizer nada foi em direção ao palco. Algumas pessoas apontaram e fizeram comentários quando ela subiu, a única garota no meio de doze. Ela fechou os punhos e respirou fundo. Limpou o suor que começava a escorrer pela face. Imaginou se estaria começando a sentir medo quando menos deveria. Um garoto esbarrou nela de propósito ao passar. Volta pra casa, branquela, comentou o outro pouco atrás. Amber tentou não dar atenção, sabia que Tupac ou Missy Elliot ou Nas nunca seriam intimidados por coisas inferiores. Escreveu seu nome num pedaço de papel e colocou na caixa de papelão ao lado do DJ. Após todos terem feito a mesma coisa, Maurice voltou ao palco e gritou:

– To vendo que a coisa vai ser da boa! Uma MC no duelo, galera, pode rolar de tudo aqui. Será que hoje é o dia em que Lil “Prodígio” Darryl-D, vai perder o trono? Então vai lá, Dr. Seung-Hwa, organiza a bagunça.

O DJ fez um scratch quando Maurice acabou de falar e começou a tirar os pedaços de papel e fechar as chaves do duelo. Não demorou muito, mas para Amber foi como se a eternidade inteira estivesse acontecendo enquanto os nomes eram retirados e escritos num quadro improvisado. Procurou o rosto de Jonas no meio da multidão. Não achou. Onde estava ele, droga? Limpou a testa e foi conferir como tudo ficou organizado no fim.

As pupilas de Amber foram seguindo a tabela em busca de seu nome. Houve uma mistura de sentimentos estranhos quando finalmente avistou seu nome na lista. Eu não vou perder, repetiu dentro de si. Conferiu mais uma vez a lista e foi tomar o seu lugar em frente ao Dr. Seung-Hwa.

 

DUELO DE MC’s DO VIADUTO SANTA BALBINA

6° duelo: Vinny Jones X Jaz Wallace

5° duelo: Christopher Corey X Calvin Young

4° duelo: O’Shea Patterson X Eric Hale

3° duelo: Warren Brown X Jack York

2° duelo: William Todd X Bruce James

1° duelo: Lil Darryl-D X Amber Webley

 

Amber encheu os pulmões de ar. Estava a um passo de colocar seu nome no mapa ou na lixeira. Sabia que havia chegado a um ponto sem volta e sua única opção era fazer com que todos vissem o seu potencial. Estava na hora de tomar tudo.

[1]No mundo do rap e hip hop, é a figura responsável por aumentar a excitação da plateia com suas intervenções. Pode ou não ter aspecto humorístico.