A Morte é Legal
Capítulo TRINTA E TRÊS
Eu não posso nem mesmo correr, as abóboras são altamente
perigosas.
Já estavam de saída da loja de Oberon. O sangue começou a correr mais rápido nas veias. Seu rosto pareça queimar e suas mãos tremiam incontrolavelmente. Enquanto andava por ali, divagou por um momento em quão longe chegara e com que sorte. Contudo, não havia tempo para isso. Estava na hora de colocar seu plano em prática. Andrew não pensou muito em sua ação seguinte. Haveria apenas uma tentativa. Liberou sua mente e deixou que seu corpo fizesse o serviço.
Fez um sinal de aviso para Ive. A garota se virou nos calcanhares e de forma inesperada para todos os presentes, acertou um soco no rosto do antigo rei das fadas, que foi derrubado com um estrondo por sobre Puck e uma prateleira de livros de culinária Khoisan. Andrew aproveitou a confusão para subir no balcão e pegar a caixa de vidro que guardava os escritos de Aristóteles. Segurou a caixa com firmeza e a levantou bem alto, dizendo:
– Ninguém faz nenhuma besteira ou eu posso deixar alguma coisa cair.
Ive deixou que Prozy se escondesse atrás de si e criou um círculo de fogo esverdeado para protegê-las. Andrew deixou que o seu olhar pescasse o de Oberon e o que viu ali confirmou que seu plano estava dando certo. O livreiro tinha os olhos bem abertos e a boca contorcida numa careta de ódio. O garoto conhecia aquela expressão. Era a que todo amante de livros pendurava no rosto quando via alguém dobrar ou amassar uma das peças de sua coleção. A mesma expressão que tinha quando Ive pegava um de seus livros para folhear e abria num ângulo maior do que o necessário. Tinha certeza de que se Oberon fosse minimamente parecido com ele nesse quesito, a ameaça de destruir uma obra seria o bastante.
– Não se atreva! – gritou o livreiro.
– Então diga onde está o segundo nome ou teremos um papel higiênico autografado de dois mil anos de idade – gritou Prozy.
Andrew viu o clima de horror se instaurar entre as lontras bibliotecárias que olhavam tudo como se estivessem prestes a serem transformadas em casacos – começaram a chiar, assobiar, e guinchar. O garoto desceu do balcão e entrou no círculo de proteção da filha da morte. Dezenas de olhos seguiam os movimentos do grupo.
– Onde está o nome, Obie? – perguntou Ive calmamente. – Você sabe como fogo mágico é uma coisa difícil de ser controlada. Não gostaríamos de ver tantas e tantas páginas queimando, não é? Acredite, não é um prazer queimar.
Oberon tentou se aproximar, mas a garota ergueu a cortina de fogo, queimando suas sobrancelhas e a ponta dos cabelos – assim como um exemplar do mais novo romance de Franz Kafka. Por favor, Princesa do Fim Inevitável, disse o desesperado livreiro, entenda a minha situação, eu não posso fazer isso.
– Onde está o nome, Obie? Não me faça repetir isso mais uma vez.
Andrew esperava que sua amiga não queimasse nada de verdade. Aquilo tudo deveria ser apenas um blefe. A temperatura subia gradativamente dentro da loja. Apesar de ter sido um aluno medíocre nas aulas de História, uma coisa nunca saíra de sua cabeça. A queima de livros que os nazistas cometeram em 1933, quando destruíram mais de vinte mil livros. Imagem que ficou gravada em sua cabeça e chegou a lhe causar pesadelos. Talvez, a ameaça de páginas em chamas fosse incentivo o bastante para o livreiro.
– O nome está com Josephine, na Cidade dos Ratos! – gritou Oberon. – Deixem a minha loja em paz.
O garoto nadou em alívio ao escutar aquelas palavras. Olhou para Ive que tinha um sorriso de triunfo, a garota ainda manteve as chamas por um momento, enquanto Andrew colocava a caixa com os papiros em lugar seguro e começava a dar os primeiros passos em direção a saída. Espero que você não esteja mentindo, Obie, disse ela, caso contrário, eu sei onde te encontrar. Oberon olhava para o grupo cheio de ódio. Quando a filha da Morte apagou suas chamas, uma frase explodiu da boca de Oberon:
– PEGUEM ELES!
Andrew olhou para trás apenas para ver um exército de lontras bibliotecárias vindo em sua direção e um Puck mal humorado no comando com uma vassoura em punhos. Ive surgiu correndo logo atrás e usava algumas magias para criar obstáculos no caminho dos perseguidores. Por aqui, gritou a garota tomando sua mão e guiando-o pelo labirinto de corredores e lojas. Iam se espremendo no vão entre mesas de restaurantes e lojas de temperos, As lontras vinham numa debandada destrutiva, não deixando que nada ficasse em seu caminho.
– Vocês não poderiam simplesmente sair de um lugar sem causar problemas, não é? – queixou-se Prozy. – Alguém sempre tem que tentar acabar com a nossa raça.
Andrew sentia seu coração bater tão rápido que parecia estar a ponto de explodir. Segurava na mão de Ive com força e se esforçava por manter o mesmo ritmo que ela, o que se mostrava uma atividade mais do que complicada. Eram obrigados a empurrar pessoas pelo caminho e derrubar os duendes que tocavam pop sueco numa parte qualquer.
– Tenho uma ideia – gritou Ive e o puxou em direção ao setor de animais.
O lugar tinha cheiro de ração e excrementos. Puck e as lontras arremessavam uma chuva de coisas contra os fugitivos, copos, cadeiras, panelas e até mesmo um vaso sanitário. Ive fazia o possível para protegê-los e encontrar a saída ao mesmo tempo.
Corriam por uma parte completamente ocupada por gaiolas de aves, penduras no teto e empilhadas umas sobre as outras e invadindo os corredores. Os pios aumentaram quando a confusão chegou até ali. Andrew cuspiu uma pena que entrou em sua boca e somente então, compreendeu o plano de Ive. A garota murmurou algumas palavras e tudo o que aconteceu a seguir foi confuso e sonoro. Todas as gaiolas abriram suas portinholas ao mesmo tempo e o espaço teve cada centímetro ocupado por criaturas voadoras. Os donos das lojas tentaram inutilmente apanhar suas mercadorias de volta, assobiando, lançando comida para o alto e pulando.
Andrew não conseguiu deixar de se sentir maravilhado com o estouro de sons, cores e formas. O canto de mil aves se tornou ensurdecedor e muitos foram obrigados a tapar seus ouvidos com as mãos – especialmente um grupo de sapos roxos da Cornualha, que, de acordo com bruxos pesquisadores ingleses, tem baixíssima tolerância a ruídos.
Os pássaros tomaram conta de tudo como um dilúvio e avançaram contra Puck e suas lontras bibliotecárias. Uma desordem generalizada interrompeu a perseguição enquanto lontras e aves tentavam se livrar umas das outras.
– E se eles nos seguirem até lá fora? – perguntou Andrew.
– Não podem sair do mercado. E além de tudo, Obie tem medo demais de Astrophel para ousar sair de seu espaço protegido.
Uma placa vermelha com uma seta indicava a saída. Andrew podia enxergar a luz do mundo comum. Repassou a localização do nome em sua mente, aquilo o deixava um pouco mais perto de conseguir ficar com Briony. Via os carros passando lá fora e já escutava as buzinas em alto e bom som. Olhou para Ive que ria como uma criança que acabara de passear numa montanha-russa. Ela apertou sua mão com mais força e disse:
– Você tem que admitir que foi bem divertido!
Atravessaram o Portão e ganharam as ruas de Dresbel. O vento frio tocou suas faces e Andrew olhou para trás somente para ver Puck estacionado na entrada, sem conseguir sair e continuar sua perseguição. Andrew arqueou as costas e apoiou as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade, então, olhou para Ive, e com um sorriso no rosto, falou:
– Divertido? Você tem sérios problemas mentais.