A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 43 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRINTA E OITO

808 estados da mente e nenhuma relação com o velho Roland e suas

batidas.

 

Andrew costumava lhe contar histórias sobre um Monstro de Espaguete Voador que criara o mundo e que a devoraria caso não se vestisse de pirata numa data específica, também falava sobre esse deus-polvo que vivia adormecido no fundo do oceano e que um dia acordaria para destruir o mundo. Estas eram as histórias que seu irmão lia na hora de dormir. O problema em crescer era descobrir que as coisas assustadoras não estavam vagando pelo espaço, em águas desconhecidas ou reinos distantes, mas sim em cada esquina da vida comum. Que cada canto reserva menos esperança do que o anterior, que o número de pessoas relevantes é sempre menor que o de irrelevantes.

Amber continuou a pedalar, o vento em seu rosto e os cabelos soltos. Era obrigada a subir na calçada para se desviar de carros. Ouvia algumas pessoas xingando e isso não fazia a menor diferença naquele momento. Jonas precisava de sua ajuda. Recebera a ligação alguns minutos antes, o garoto havia sido atacado pela turma de Gabe, o gordo idiota com quem se encontraram no zoológico, e não tinha coragem de chamar os pais. A garota pegou algumas roupas emprestadas do irmão, montou em sua bicicleta e saiu disparada pelas ruas em direção à escola.

Pegou a Rua M. e seguiu direto até avistar o grande edifício branco onde Jonas estudava. Já era hora da maior parte dos alunos ter ido para casa, mas Jonas ficara um pouco mais para compor algo usando instrumentos da escola e foi abordado na saída.

Amber deixou a bicicleta no estacionamento e entrou no prédio, que já conhecia de visitas anteriores. Perguntou a um aluno onde ficava o banheiro e foi andando até lá em passos ligeiros. Ia com passos rápidos pelo corredor quando algo fez com que estacasse onde estava, Gabe e seus amigos empurravam um garoto menor contra a parede e tentavam tirar as calças dele. Amber sentiu uma pontada fria no estômago, ali estava a versão masculina das meninas da sua escola. Imaginou se pessoas tão idiotas nasciam desse jeito, com uma tatuagem de boçalidade nos genes ou se aprendiam isso em qualquer lugar. Conseguia escutar o choro da nova vítima de Gabe, que tentava escapar enquanto os outros riam e puxavam sua cueca para cima. Amber tomou fôlego e deu dois passos adiante, dizendo:

– Parem com isso.

Todos os olhares se voltaram para ela. O garoto sem calças foi largado no chão e aproveitou a brecha para sair pulando dali. Gabe abriu um sorriso, como que satisfeito por ter encontrado uma presa há muito esperada.

– Olha só, a macho-fêmea de orelhas grandes veio tirar com a gente, Mike? – disse ele se dirigindo a um dos garotos. – Eu falei que ia pegar o seu amigo e cumpri. Demos um novo visual para ele, sabe como é.

Amber riu. Já esperava alguma coisa desse tipo, pessoas assim são previsíveis. Havia aprendido uma coisa no rap: acertar onde dói. Deixou seus olhos capturarem tudo o que poderia usar de volta, qualquer coisa ao redor, roupas, ambiente, tiques, tudo era uma arma. Valentões não têm criatividade, basta tensionar um pouco e o arco cede.

– Deve ser bem legal mexer com alguém mais fraco e que não consegue se defender, não é a verdade, Free Willy? Você faz isso por diversão ou tem um motivo secreto? Sei lá, papai bate na mamãe, ou porque garotas não vão querer saber de um menino que tem seios maiores do que elas.

– Cale a boca, sua vaca. Ou eu vou...

– Fazer o quê? – atalhou Amber. – Rolar em cima de mim? Aposto que você fedia quando criança e todo mundo te chamava de feio. Você é um fracote, galinha, falso, quarenta anos nas banhas e fica zoando com crianças no recreio. Faça as contas e me diga uma coisa na qual eu não sou melhor que você. Quantas pessoas a senhorita pode enfrentar sem a ajuda das namoradas?

Amber podia ver o rosto dele corando e a determinação esmaecendo, somente aqueles que já perderam começam a gaguejar. Os amigos dele não sabiam como reagir, estavam acostumados a ver Gabe com a resposta final. Existe algo de mágico em ganhar de outra pessoa com palavras, em atingir tão forte que intercepta a voz ainda na garganta. Os garotos podiam ser mais fortes do que ela, mais populares, com roupas melhores e até levarem vidas mais interessantes do que a sua, mas nunca seriam capazes de igualar o que fazia. Inventar, criar e dobrar palavras como ela. Amber pendurou um sorriso de escárnio nos lábios e esperou uma resposta, estava carregada e engatilhada. Vamos embora, disse Gabe para seus amigos e virou as costas depois de lançar um olhar furioso em direção a ela. Os garotos falaram alguma coisa e o acompanharam sem olhar para trás.

A garota cruzou o corredor e tirou o pedaço de madeira que barrava a porta do banheiro. As luzes estavam apagadas e o chão estava cheio de água, tufos de cabelo e papel higiênico. Um sentimento ruim se alojou na boca do estômago. Viu um tênis pendurado no lustre do teto e a camisa do Tupac que dera a Jonas no último natal rasgada dentro da pia. Escutou soluços baixinhos. Abaixou-se para descobrir em qual cubículo o amigo poderia estar. Viu os pés descalços no terceiro à direita.

– Jonas, sou eu. Não precisa ter medo, eu já dei um jeito em Gabe e nos outros.

Não houve resposta. Imaginou que o amigo não quisesse muita conversa naquele momento. Caminhou até a porta e passou a mochila com roupas por baixo. Aguardou enquanto Jonas se trocava. Sabia o que havia acontecido ali, já haviam feito a mesma brincadeira com uma garota da sua escola: Tirar a roupa de uma pessoa, cortar seus cabelos, e deixá-la trancada apenas com um telefone no banheiro. Depois de longo silêncio, a porta se abriu e Jonas saiu com os dedos do pé encolhidos e o cabelo repleto de falhas. Seus olhos estavam vermelhos e Amber teve que se segurar para não fazer a mesma coisa. Isso fez com que todo o ânimo por ter vencido Gabe desaparecesse.

– Obrigado, Amby – disse ele e pegou seu boné no chão. – Eu agradeceria muito se você não contasse nada disso para.

– Jonas, você precisa contar isso para os seus pais. Alguém precisa fazer aquele idiota pagar.

O garoto sorriu e sacudiu a cabeça. O tipo de sorriso acabrunhado que se dá porque não há o que dizer. Estava tão acostumada a vê-lo sempre empolgado com alguma música e naquele momento, era obrigada a uma faceta diferente do amigo – cansada e assustada. Deixaram o banheiro em silêncio e foram até o estacionamento. Não havia nenhum ritmo, timbre, volume, rima ou batida no mundo que pudesse aliviar o fardo preto e cinza que pesava sobre aqueles jovens. Tupac havia dito em uma de suas músicas que sempre há um dia brilhante após uma noite escura, mas a cada segundo ficava ainda mais difícil manter a cabeça erguida. Quando eram eles contra o mundo e não havia um livro com as respostas certas. Quando ser leal ao jogo parecia não fazer a diferença.

Jonas parou e disse:

– Você me trouxe uma camisa do The Backstabber’s Club, essa banda é horrível.

– Eu não tenho culpa se meu irmão gosta de música ruim.

Os dois riram e continuaram a andar. Amber sabia que aquela história não havia acabado e que muitas coisas ainda iriam acontecer. Podiam não ter a melhor disposição de ânimo naquele momento, entretanto, possuíam um ao outro e isso deveria ser o bastante por agora.