A Morte é Legal
Capítulo QUATORZE
Yo! Se você acha que está pronto
para chutar, é disso que estou falando, a hora é essa.
Astenia. Demasia. Analogia. Pagofagia. Amber lia uma palavra qualquer no dicionário e imediatamente buscava alguma rima para ela. Embora fosse uma péssima aluna na escola, sucessivamente metida em confusões, sempre fora boa com palavras. Gostava de colecioná-las. E o surrado dicionário de bolso que carregava de um lado para o outro, era como uma despensa que podia assaltar. Queria ter todas elas a sua disposição, armazenadas e prontas para serem puxadas quando estivesse fazendo música. Ou num duelo. Estava cada vez mais confiante de que conseguiria participar do duelo de MCs que vira no panfleto do zoológico. Sentiu eletricidade passando pelas veias, competitividade eminente tinha esse efeito sobre ela. Ela sabia que todos os rappers são competidores por natureza. Amber também tinha noção de que suas habilidades eram boas e sabia criar letras ofensivas sem muito esforço.
Eu não tenho medo não, mordo que nem cão/
Com empenho eu desenho e desdenho/
Eu te derrubo no chão, quebro o seu dedo/
Otário, perdeu o enredo, aprende meu abecedário/
Nessa pista de retardatário, vê se me entende...
O sacolejar do metrô quebrou sua concentração, fazendo com que os versos seguintes se perdessem numa nuvem de outros pensamentos. Encostou a cabeça na janela e observou o céu cinzento e carregado de nuvens, os pequenos pingos que batiam de encontro ao vagão e os arranha-céus do centro da cidade. Colocou seus fones no ouvido e deixou que a voz de Nas fluísse os versos de One Mic para a sua cabeça. Aquela era uma música que ouvia várias e várias vezes sem cansar.
Colocou a mão no bolso para conferir se o presente que havia comprado para Jonas estava lá. Uma voz metálica saiu dos alto falantes anunciando que havia chegado à Estação 12. Amber ajeitou a mochila nas costas e seu capuz enquanto saía do vagão. Centenas de pessoas iam e vinham em todos os lados. Um grande relógio mostrava sua situação naquela manhã: trinta minutos atrasada. Droga, murmurou, já caminhando pelas ruas do centro.
Evitava as poças que se acumulavam nas calçadas. Tomou a Nona Avenida e passou pelas lojas que exibiam suas mercadorias. Conferiu as horas novamente e andou um pouco mais depressa. Levou outros quinze minutos antes de avistar a Queensbridge Discos. Uma loja antiga e de dois andares especializada em Hip-Hop. Amber guardou os fones e entrou.
O movimento estava calmo, apenas alguns jovens conversando com Maurice, o dono da loja, um homem negro e careca que usava óculos grandes e muitas joias. Cabeças se viraram quando a porta se fechou atrás dela. Maurice cumprimentou, com seu sorriso costumeiro, mas os outros garotos cochicharam algo e riram, exceto um deles, o garoto mais novo do grupo – tinha dreadlocks e a encarou sem nenhuma expressão. Amber devolveu o mesmo tipo de olhar e foi se encontrar com Jonas na parte de cima.
– Você está atrasada... Como sempre – disse Jonas quando ela se aproximou.
– Cara, eu não tenho culpa se você escolhe os piores horários. É sábado, eu deveria estar na minha cama.
– Pare de agir feito uma garota, é um longo caminho até o topo do hip hop.
– Não sei se você percebeu, mas eu sou uma garota. Ei, quem é aquele pessoal conversando com Maurice? Eu nunca os vi por aqui.
Jonas a puxou para um canto da loja onde tinha certeza de que não havia ninguém por perto.
– É a turma do HOL-K e a gangue dele – começou a dizer. – Ele é o maior. Dizem que ele comanda todo o tráfico de drogas na zona leste da cidade. Os outros quatro são uns cachorrinhos que o seguem de um lado para o outro. O garoto menor é o irmão dele, Lil Darryl-D, e dizem que ele é um fenômeno, indestrutível em duelos. Já existem gravadoras interessadas nele.
Amber riu e balançou a cabeça.
– Ele nunca duelou comigo, Jo. Eu provavelmente vou enfrentá-lo no dia da batalha de MCs e você vai ver quem é de verdade. Se eu derrotar aquele que eles acham ser o melhor... – deixou a frase em suspenso.
A dupla demorou um longo tempo escolhendo os discos que iriam comprar e eventualmente acabavam discutindo sobre as qualidades das escolhas de um e outro. Os dois jovens preferiam comprar discos a simplesmente tê-los num arquivo de computador. Amber costumava dizer que não era a mesma coisa. Estavam numa discussão sobre qual seria o melhor álbum de rap de todos os tempos – Me Against The World de Tupac Shakur ou Illmatic de Nas, sendo que Amber preferia o primeiro – quando Amber enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno embrulho.
– Ay-yo, eu comprei isso pra você há uns dias. Você devia ter me contado que havia garotos mexendo com você, eu sou sua amiga, cara.
Jonas sacudiu a cabeça e abrindo o pacote, respondeu:
– Amby, não faria diferença e além do mais, você não entenderia o que é isso, sabe?
– Eu não entenderia?! OK, gênio, eu sou uma menina branca que canta rap e não liga a mínima para o que qualquer outra da minha escola acha legal. Eu não sou a pessoa mais popular do mundo, entende? Dane-se, você tem um pé e eles têm algo entre as pernas, promova um encontro entre essas duas coisas.
Amber observou Jonas retirar seu presente dali de dentro: um pequeno dragão alaranjado feito de porcelana. O garoto leu em voz alta o bilhete que acompanhava o presente:O dragão é visto como guardião incansável e venerado por afastar influências malignas, ao carregá-lo, estará protegido contra energias negativas. Jonas sorriu e disse:
– Obrigado.
– Não precisa me agradecer. Apenas crie as batidas perfeitas pra mim.
– Pode deixar comigo, Amby.
Amber e Jonas fizeram um toque de mãos e começaram a descer as escadas. Não ficariam mais sentimentais do que aquilo, seria pouco hip hop e arruinaria a pouca credibilidade de rua que não tinham. Estavam no meio dos degraus quando se esbarraram com a turma de Lil Darryl-D.
Amber ficou parada e deixou espaço para que o grupo subisse. Ela já estava pronta para continuar o seu caminho quando o garoto assobiou chamando sua atenção. Ela não se virou:
– Ei, Maurice falou que você sabe fazer rap – disse Darryl, em tom de deboche. – Apareça lá no próximo duelo, estou cansado de acabar com as mesmas pessoas. Sempre bom ter prato novo.
Amber revirou os olhos e respondeu:
– Cara, você é tão patético. Andando de um lado pro outro com suas babás, tem certeza de que você consegue rimar? Oops! Sai da frente quando você me vir.
Os garotos que estavam com Darryl começaram a rir e a fazer piadas. Amber e Jonas foram até o balcão e pagaram pelos discos. Amby, ele não gostou daquilo, disse Jonas quando saíram da loja, ele com certeza quer acabar com você agora. Você zoou com Lil Darryl-D em frente à gangue dele.
– Eu sei o que eu acabei de fazer, não precisa me contar.
Ela sentiu uma onda de ânimo percorrer todo o seu corpo. Era o desejo de competir e mostrar do que realmente era capaz. Olhou para os discos que carregava nas mãos e sentiu que sabia o que deveria ser feito e como deveria ser feito. Independente do que acontecesse com o mundo, duelaria com Darryl e mostraria quem era a rainha da cidade.