A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 67 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E UM

Eu vou me esconder no seu meio, em frente a sua casa e sob a luz

mais brilhante.

 

Astrophel olhou de um lado para o outro do jazz bar – um espaço decorado com sofás vermelhos e mesas de madeira escura, um palco onde instrumentos aguardavam os músicos que não tocariam naquela noite, um jukebox brilhante, um pequeno bar com inúmeras garrafas de bebidas e copos de inúmeras formas e cores. Várias fotos de artistas famosos como John Coltrane, Ella Fitzgerald e Charlie Parker se espalhavam pelas paredes, ficou a observá-las por um momento. Lançou um olhar para Stella, que sentada numa cadeira perto do palco, exibia o efeito acumulado dos últimos dias: encurvada, emagrecida e elegante como um cadáver. Quando se viu refletido num espelho chegou à conclusão de que não estava imune, seus cabelos já estavam completamente grisalhos e rugas mapeavam seu rosto.

– Chame uma das aias, elas precisam cuidar dos meus cabelos – murmurava Stella. – Converse com Próspero, ele sabe o que fazer.

Tentou fazê-la compreender que não estava mais no reino das fadas e que nenhuma aia viria lhe ajudar, contudo, ela teimava em pedir para que os servos viessem atendessem seus pedidos. Já não o reconhecia, assim como alguns objetos simples e certas palavras, que começavam a desaparecer de seu dicionário mental. Os movimentos já lhe abandonavam e as atividades mais básicas inspiravam dificuldade. O tempo estava acabando.

– Me deixe ir embora – ouviu uma voz fraca dizer. – Eu juro que não conto nada para a polícia.

A irmã do garoto, quase se esquecia de sua presença. Ela estava amarrada numa cadeira e não falou muita coisa desde que chegara até ali. Conseguia notar o medo que sentia e lamentava tê-la envolvido nisso, mas era sua única chance de salvar Stella. Sabia que a garota havia acabado de perder um amigo, um triste fato que pesava ainda mais naquele momento. Prometeu a si mesmo que faria o possível para que ela saísse com vida daquela história, tinha sangue demais em suas mãos para que acumulasse mais. Observou a garota com atenção. Anthea já deve estar do tamanho dela, pensou, ou um pouco maior. Todas as garotas que via faziam com que pensasse na filha perdida. Tentava construí-la mentalmente juntando pedaços alheios: um modo de caminhar, olhar, gesticular ou até mesmo um cheiro. Qualquer pessoa servia para que começasse a imaginar. Sem desviar os olhos de Amber, respondeu:

– Eu prometo que não vou te machucar. Tudo ficará bem caso seu irmão faça o que eu disser.

– Quem é você?

– Um homem desesperado.

Virou as costas e foi até sua esposa que respirava com dificuldade. Stella já estava no meio do caminho para a demência; suas palavras confusas e inacabadas. Os olhos já não enxergavam e suas mãos não conseguiam segurar um copo sem que tremesse. Ajeitou os cabelos que caíam sobre a face dela e molhou os lábios secos com um guardanapo umedecido. Era obrigado a resolver tudo o mais rápido possível. Ela não sobreviveria outro dia, e por causa disso, ele também não.

Flutuava entre seus pensamentos quando uma névoa escura começou a se infiltrar por debaixo da porta. Vinha devagar e sem nenhum barulho. A temperatura ambiente despencou imediatamente fazendo com que a respiração de todos formasse nuvens em seus rostos. Uma forma emergiu da nuvem. Mefistófeles estava ali. Era um homem forte e bem vestido; terno gravata e luvas que assentavam perfeitamente. A única coisa que denunciava sua origem verdadeira era o pequeno par de chifres que brotavam do topo da cabeça.

– Boa noite, Bruxo da Terra Velha.

– Conseguiu permissão para sair?

– Eu tenho a alma de um político para recolher e resolvi passar por aqui – e ao olhar para Amber, acrescentou: – E acho que vim num momento propício.

Astrophel conseguia enxergar o horror expresso nos olhos da garota. Entrou na frente do demônio e disse:

– Deixe-a em paz, as coisas são entre eu e você.

– Você é engraçado, feiticeiro. Hoje é sua última chance de conseguir os nomes e pagar sua dívida, caso contrário – deixou em suspenso –, vim para lhe alertar que um esquadrão da D.I.E foi despachado para o mundo humano, você terá companhia.

– Estou preparado para isso.

O fato de que seu destino estava ligado a Mefistófeles lhe agonizava, era como ser obrigado a conviver com uma pessoa que desejava matar. Sentia que cada minuto o aproximava do fim absoluto. Estava, pois, perdido num mar de estorvos que se ampliava a cada braçada. Sua vida era uma tragédia encenada para um publico cego, o destino que lhe aguardava era escuro e cada estratagema usado para escapar lhe deixava mais perto dele. Suspirou, perturbado. O demônio falou alguma coisa que foi completamente ignorada e desapareceu em sua nuvem de fumaça. Qualquer ameaça feita, não era o suficiente para que precisasse ouvir. Observou a garota de um lado e sua esposa de outro, duas pontas de uma corda. Deu um pouco mais de água para Stella e tratou de deixá-la mais confortável usando uma almofada. Enfiou a mão no bolso dianteiro da jaqueta e tocou no segundo e terceiro nome do gato. Agora, era uma questão de tempo até que a filha da Morte surgisse com o garoto para terminar aquela busca. Caminhou até o jukebox e deixou que Miles Davis invadir o ambiente com seu Kind of Blue.