A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 13 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo NOVE

Mãe, eu sou como uma pintura de Banksy nas ruas de Bristol.

 

Um adulto não entenderia a solidão de Andrew naquela madrugada. Cabeça recostada na janela com o olhar sobre a cidade em chuva, pensando em Briony enquanto ouvia uma canção do The Get Up Kids ou Rites of Spring – não escutava com atenção suficiente para distinguir. Um adulto não entenderia isso. Kafka, Gabriel García Márquez ou Bukowski entenderiam. Mas não um adulto como seu pai. Pensou nele e não sabia como seus pensamentos haviam transitado de Briony para a face paterna. Ele tão forte e prático e amplo em todas as coisas, enquanto Andrew se aninhava na fragilidade que barrava o caminho da retidão. Deveria estudar alguma coisa útil como engenharia ou odontologia, pensava, ou no mínimo procurar um emprego.

Tudo. Exceto escrever. É verdade universalmente conhecida que literatura não serve para nada. O velho Platão expulsou os poetas de sua república ideal! – exclamava consigo. – Contudo, não seria feliz acordando de manhã e indo para um emprego entediante onde colocaria dinheiro nos bolsos de alguém provavelmente menos inteligente do que ele. Apenas Wallace Stevens conseguiu ser escritor e levar uma vida burocrática e calma. Sentia-se como um pássaro que lutava para cantar numa gaiola – lembrou-se do incidente na praça e da paixão de sua mãe por aves.

Sua mãe teria apoiado que continuasse a escrever, ela provavelmente teria apoiado qualquer coisa que escolhesse. O primeiro sinal de que ela estava doente veio quando um copo escapou de suas mãos, subitamente débeis, e dali em diante cada extensão do seu corpo sofreu o mesmo destino até que por fim tudo havia sido derrubado. Foi mais ou menos nessa época que o mundo começou a se tornar mais cru e escuro enquanto seu coração e estômago iam se comprimindo em nós.

Suspirou. Pensava no Etna de erros e fracassos que era sua vida. Como se todas as portas estivessem trancadas. Quando conseguisse reunir os nomes do gato com Ive as coisas seriam diferentes e nunca mais precisaria se sentir tão sozinho. Olhou para o manuscrito inacabado sobre a mesa: A Violinista de Fevereiro. A história de uma garota perdida num mar de eventos que não deseja compreender.Mas Andrew não pensaria nisso por enquanto. Estava mais preocupado com a figura encostada na parede. Conteve o grito que subia pela garganta e ficou olhando assustado para a outra pessoa no canto do quarto escuro. Um jovem de aparentemente vinte e poucos anos, alto e magro, pele cor de oliva. Seus cabelos eram pretos, encaracolados e curtos. Lábios eram finos e estavam comprimidos numa linha. Tinha o queixo proeminente e uma barba rala. Os olhos eram intimidantes. Vestia-se com uma calça jeans e uma jaqueta preta de couro sobre camisa de mesma cor.

– Não grite. Ou seus pedaços ainda estarão sendo recolhidos daqui a um mês – disse ele, friamente. – Qual é o primeiro nome?

Com a voz tão tremida quanto o resto de seu corpo, Andrew respondeu:

– Eu não sei de nada.

– Não minta para mim. Eu o vi com ela e tenho observado com atenção. Olhe pra mim e diga a verdade.

Andrew reuniu a coragem que restava dentro de si:

– Eu. Não. Sei. Insistir não vai fazer com que eu fique sabendo através de osmose do ar.

Um soco atingiu seu rosto.

– Qual é o primeiro nome? – continuava a exigir o outro jovem. – Responda.

Seu nariz começou a sangrar. Andrew usou uma das mãos para limpar e repetiu sua resposta enquanto fechava os olhos para esperar um novo golpe. Houve um som de tosse e Andrew foi jogado ao chão. Somente então percebeu uma segunda figura no quarto. Ao contrário da primeira, não era forte e nem jovem. Era uma mulher cujo rosto não ocultava estar farto de anos. Tinha longos cabelos grisalhos e a pele rosada. Usava um longo vestido branco com luvas e estava descalça. Percebia-se que já havia sido muito bela no passado e ao vê-la tomada pelo violento acesso de tosse, Andrew sentiu pena.

O jovem de cabelo escuro a amparou cuidadosamente e com voz mansa disse:

– Desculpe-me, Stella, eu não tinha a intenção de me exasperar. Garoto, se eu não encontrar os nomes logo, ela morrerá. Não se envolva nessa história. Dê-me a informação e se esqueça de tudo.

Andrew podia ver nos olhos do outro uma cólera e abatimento sem par. Ouvia a respiração descompassada e entrecortada dele, fato que lhe afetava. Lamentava que estivessem ambos numa corrida pela mesma coisa.

– Astrophel – murmurou a velha, e após uma pausa acrescentou – Vamos embora, estou cansada.

Andrew ficou em silêncio observador enquanto o jovem ajudava a idosa a se recompor e lhe dirigia a palavra:

– É melhor que você não esteja mentindo. Fale para a sua amiga que estou a um passo dela e que ela escolheu jogar contra a pessoa errada. Os nomes são meus e eu não terei clemência de pessoa alguma. Seja você, garoto, ou a filha da Morte.

Havia uma certeza naquele cenário: Astrophel não estava mentindo. Andrew não viu o instante em que desapareceram. Tudo aconteceu antes que seus olhos registrassem qualquer evento. Ficou sentado no chão durante algum tempo a espera de entender o que havia se passado ali. Quando ficou claro que isso não aconteceria, levantou-se e foi até a cozinha procurar gelo para colocar sobre o rosto. Murmurou todos os impropérios conhecidos. Ainda chovia torrencialmente lá fora.