A Morte é Legal
Capítulo DEZ
Estou dançando por dentro, e isso me dá passos inusitados.
Olharam. Encaravam com os olhos daqueles que respeitam e admiram e temem. A pantera negra se deslocava lentamente, deixando seu corpo balançar de um lado para o outro sem se preocupar com as inúteis opiniões alheias, passos de criatura entorpecida. Existe um sentimento diferente em observar um predador artificialmente pacato, artificialmente dócil e cordial. Para entender isso é preciso ter a consciência de que o felino enjaulado – diversão segura para os observadores – é o mesmo que espreita e dilacera suas presas numa eficácia ímpar. Amber sabia disso. Jonas também.
Os pais do garoto lhe convidaram para se juntar a eles naquele sábado e sem nenhuma outra atividade planejada, Amber terminou no zoológico com a família Hurston. Era uma manhã nublada e fria, mas as pessoas pareciam contentes e interessadas em ver animais exóticos. O passeio começou pelo setor das aves e seguiu pelos anfíbios e répteis e peixes e símios na parte oeste. Estavam se divertindo e embora Jonas ainda se mostrasse levemente reservado com ela por causa do acontecimento de duas semanas antes, o fato de a garota não trazer o assunto à tona deixou tudo num humor mais confortável.
Quando os adultos foram descansar sob um carvalho, as duas crianças correram para ver os grandes felinos. Visitaram um leão sonolento que apenas ficava deitado e bocejando. Um tigre que marchava cheio de pompa e circunstância. O guepardo não saíra de sua toca nem por um minuto, deixando uma multidão de crianças em polvorosa. ‘Mãe, eu quero ver aquele gato grande’, choramingava uma delas.
Todos os felinos haviam conquistado a atenção da dupla, mas nenhum mais do que a pantera. Panthera onca, dizia uma placa de informação, felino da família panthera genus e é também a única da família panthera que pode ser encontrada nas Américas. Este espécime foi nomeado Abim . A menina leu as informações e deteve os olhos sobre o animal. Um calafrio pontilhou seu corpo, era como se tivesse visto um fantasma.
– Você acha que ela atacaria pessoas, caso fosse possível escapar daí? – perguntou Jonas.
A menina deu de ombros e respondeu:
– Não sei... Acho que não. É um animal de cativeiro, deve ser bem calma e pacata, provavelmente ficaria perdida e desorientada demais para fazer qualquer coisa. Eu ouvi dizer que quando algumas baleias de cativeiro são libertadas, elas são incapazes de caçar por si próprias.
– Isso não é uma baleia, Amber. Pode ser apenas aparência, fingir estar domada enquanto se prepara para voltar à superfície e chutar o traseiro de todo mundo.
Amber riu daquilo embora soubesse que ele falava sério. Começaram a caminhar para ver os outros animais, iam com passos lentos e se detinham aqui e ali para tirarem uma foto. Compraram bonés em forma de elefante e peixes dourados que vinham em saquinhos plásticos. Não ficaram muito em frente à jaula dos babuínos porque eles tinham o hábito pouco requintado de atirar excrementos em quem passava.
Na entrada do aquário havia um homem entregando panfletos e os dois jovens ficaram próximos para ler o anúncio de um duelo de MCs que aconteceria dali a alguns dias. Amber e Jonas se entreolharam cheios de excitação.
– Nós temos que ir – disse a garota.
– Meus pais chamariam a polícia se eu fizesse isso. É muito tarde, eles nunca levariam a gente até lá.
– Eles não precisam nos levar, podemos muito bem ir sozinhos. Eu não posso afirmar quanto a você, mas eu não sou um bebê que não sabe se cuidar. Eminem não teria se tornado o segundo melhor rapper se tivesse ficado com medo de sua mãe não deixar que andasse por Detroit.
Jonas sentou-se num banco e respondeu:
– Você sinceramente acha que meus pais vão me deixar por aí à noite? Ambie, pessoas são roubadas e mortas quando isso acontece. E por favor, não tente forçar comparações: Eminem morava num trailer e não se preocupava em pedir permissão para a mãe porque os dois se odiavam.
Ela sentou-se ao lado dele e segurando-lhe o ombro, disse:
– Eles não precisam saber. Nós vamos sair escondidos e voltaremos antes de eles sequer perceberem que não estamos em sono profundo.
Amber viu diversas coisas passarem pelo rosto do garoto – vontade, medo e desejo. Era uma oportunidade que não poderia perder, mas ao mesmo tempo não queria se arriscar. Talvez ele fosse dizer alguma coisa quando uma voz os distraiu.
– Ei, Hurston! – disse um garoto pálido e gordo que estava cercado por outros de aspecto pior. – Estamos precisando de mais um no time de futebol. Acho que você é perfeito para servir de bola.
Amber olhou para o amigo. Ele fechava os punhos e sua respiração estava entrecortada. Medo. Podia senti-lo escapar de cada poro do amigo. Os outros garotos riam e trocavam apertos de mãos como se houvessem acabado de marcar um gol numa partida importante. Jonas permanecia quieto e mudo e apático e apenas observando os outros virarem as costas. Sabia agora como ele havia se machucado e não gostava disso.
– Você tem que fazer alguma coisa! – disse ela.
Jonas balançou a cabeça negativamente e retorquiu num murmúrio:
– Aquele é Gabe e seus amigos idiotas, ninguém gosta deles na escola. É melhor deixar para lá. Eles perdem a graça se você não dá muita atenção.
– Não é assim que funciona – respondeu a garota e começou a caminhar no rumo dos garotos. Gritou por eles, mas ninguém se virou. Jonas a seguiu pedindo para que não fizesse aquilo. Amber ignorou e continuou andando. A raiva estava subindo dentro de si. Eles não tinham o direito de ofender seu amigo daquela forma. Pegou uma lata de Coca no chão e atirou com toda sua força. O gordo soltou um grito de raiva e colocou a mão na cabeça. Os olhos dele e da garota se encontraram.
– Você enlouqueceu? – perguntou ele, de forma exasperada.
– Não, isso foi apenas um aviso, fique longe do meu amigo. Você faz isso para descontar o fato de que você não tem cérebro? Eu não ficaria triste se fosse você, aposto que consegue emprego num circo.
– Eu não ligo de bater em meninas – respondeu ele, dando passos adiante.
Amber riu e disse:
– Eu também não ligo se a outra menina for você, mas te machucar é errado. Ouvi dizer que as baleias do seu tipo estão em extinção.
Os amigos do primeiro garoto tomaram partido e dispararam insultos contra a dupla. Amber simplesmente deu de ombros e começou a caminhar na direção oposta.
– Seu amigo está marcado e eu vou me certificar de que ele ganhe o que merece – gritou um deles, que foi prontamente ignorado. Jonas, que havia ficado em silêncio durante acompanhou a amiga. Os impropérios continuavam e nenhum dos dois ligou para aquilo.
Corriam tanto que os transeuntes se afastavam com burburinho. A pantera rugiu com violência quando passaram em frente a ela mais uma vez. Foi um rugido cheio de potência e força. As duas crianças riram e conversaram em voz alta. Aquele estava sendo um bom dia.