A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 16 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo DOZE

É apenas o que você diz, um gubbinal.

 

Andrew mal podia acreditar em sua própria situação. Cada pelo do corpo eriçado. Aquela escuridão acumulada impedindo a visão do milímetro seguinte. Tropeçou num degrau quebrado e quase rolou, mas foi amparado por Ive, que tomou sua mão enquanto continuavam. Sua alma estava ancorada no medo, nem firme ou segura. O mau agouro pousado em seus ombros.

Estava a mais de meia hora descendo a escadaria quando um barulho chamou sua atenção. Podia ouvir um formando cada vez mais alto. Invadia seu ouvido lentamente e não era irreconhecível: o som de água corrente.

– Estamos chegando – murmurou Ive.

Os olhos de Andrew, agora mais acostumados à escuridão, conseguiam divisar os degraus e até mesmo as pinturas rupestres nas paredes. Quando finalmente terminaram a descida, estavam no início de um longo túnel. Prozy foi colocada no chão e sua dona disse:

– Você sabe o que fazer.

– Infelizmente – respondeu a coelha.

Andrew observou o pequeno animal começar a tremer e riscar o chão com suas patas, no mesmo instante cada um de seus pelos começou a brilhar num leve tom azul turquesa. O caminho se iluminou permitindo que Andrew pudesse ver milhares de pinturas em todos os cantos – cenas que pareciam ter sido extraídas de um filme assustador. E ossos espalhados pelo chão, nem todos humanos.

– Onde estamos? – perguntou Andrew.

– No meio do caminho para o mundo das fadas – respondeu a garota. – Mas não precisa se preocupar, docinho de tinta, está tudo sob controle, não pense demais nisso. Fique em silêncio, não podemos chamar atenção aqui embaixo.

Como se pudesse fazê-lo, constatou para si, era o equivalente a jogar uma pessoa sangrando no mar e pedi-la para não pensar nos enormes tubarões que a rodeavam. Olhou para os restos ao longo do lugar e confirmou que sim, iria pensar demais no assunto.

Ive desvencilhou-se de sua mão e foi caminhando logo atrás de Prozy. Andrew a seguia bem de perto. O barulho de água ia se tornando mais presente. Avançavam com cautela. Viraram à direita no fim do corredor e foram seguindo o túnel.

Andrew apontou para um contorno nas sombras, no fim da curva. Ive assentiu com a cabeça e foi se aproximando lentamente. Havia uma multidão de novos temores à medida que discernia a forma esparramada no chão: Tinha o aspecto de uma pessoa com quase dois metros, estava envolto em uma túnica carmesim esfarrapada. Uma coisa tão magra que a pele – branca como leite e suja como esgoto – se esticava sobre os ossos protuberantes. Não possuía orelhas, os olhos eram verdes e fixos, a boca era uma fenda costurada.

– O que é isso? – perguntou Andrew, tampando o nariz com a mão.

– Um gubbinal morto, provavelmente de fome. Eles vivem no caminho entre os mundos e se alimentam de cores, imaginação e pensamentos – eles têm bocas nas mãos. Uma criatura assim só consegue viver num mundo feio onde as pessoas são tristes.

Andrew nunca sentiu tanto medo quanto naquele instante. Para uma pessoa como ele, ter sua imaginação roubada seria o pior tipo de sofrimento possível. O pequeno conceito de felicidade que habitava sua vida provinha da imaginação e se isso fosse tomado, não haveria muito pelo qual viver. Olhou para o gubbinal e pediu do fundo da sua alma que não encontrassem outros pelo caminho. Seria válido pôr em risco a coisa mais importante por causa de uma garota? Começava a se perguntar.

– Temos que ir – disse Ive.

O barulho de água foi se tornando cada vez mais forte. Andrew olhou para a garota e viu que ela, apesar de não deixar transparecer tanto, estava tão assustada quanto ele – tremendo e olhando para todos os lados. Foi sua vez de segurar a mão dela. Ive o olhou e mexeu os lábios em agradecimento, nenhum som veio, mas ele soube o que ela quis dizer. Havia um brilho não muito distante e por isso caminharam mais depressa.

Chegaram até a origem do som e luz. Estavam à margem de um rio volumoso e enorme em todos os sentidos, e havia vários outros túneis que desembocavam ali. As margens eram cobertas de grama e pedras redondas que pavilhavam o caminho até uma ponte vermelha em estilo japonês que levava até uma porta do outro lado. Contudo, não foi nada disso que capturou a atenção do garoto. Ao se aproximar da água viu coisas brilhantes que não reconheceu de imediato, mas ao fixar sua atenção reconheceu serem letras dos mais diversos tipos e feitas de luz. Também havia as carpas que arrastavam os nomes em suas caudas.

– O que é isso? – perguntou.

– Um rio de nomenclaturas. Quando uma pessoa morre o nome dela vem parar aqui e corre até voltar para o lugar de onde vêm, nem a minha mãe sabe onde fica. Aqui é o ponto exato que divide o mundo mortal da terra das fadas.

Andrew se abaixou e esticou o braço para tentar colocar a mão em algum nome, mas antes que fizesse isso, Prozy lhe disse:

– Eu não faria isso se você fosse. Um nome é apegado ao seu dono e irá te atacar se tocá-lo sem permissão.

Eu poderia incluir algo assim no meu livro, pensou Andrew, e a violinista teria que atravessar um rio para chegar até algum lugar muito importante para ela. As ideias o inundavam de caminhos sobre os quais trabalhar. Talvez essa descida de morte fosse o que precisava para conseguir de volta seu impulso criativo. Surpreendeu-se por conseguir pensar em literatura nos momentos mais inesperados. Perdido em seus devaneios, não chegou a ver quando Ive ergueu a mão e desferiu um tapa. Sentiu a dor se espalhar pelo rosto, o som ecoou pelo túnel.

– Você enlouqueceu? – perguntou com raiva. – Por que você fez isso?

– Porque você estava imaginando coisas.

– Você por acaso aprendeu a ler pensamentos também?

– Não, mas sei que o cheiro deles é atraente.

Ocorreu a Andrew que sua sorte era como um oceano que tinha um sério problema de vazamento de petróleo. O silêncio que se seguiu foi longo e perturbado e mais alguma coisa que o silêncio costuma ser em momentos assim. E depois o barulho de respiração pesada, como o de uma pessoa sendo submersa. Seu estômago estava gelado, despencar oitenta andares dentro de um elevador, sim, essa era a sensação. Olhou adiante e concluiu que Ive deveria tê-lo estapeado antes. Vários gubbinals saíam dos túneis e caminhavam em direção ao grupo.

– É por isso que é tão difícil gostar de você – comentou Prozy.