A Morte é Legal
Capítulo QUARENTA
E todos os hipopótamos foram sacrificados num pote de maionese sem
prazo de validade.
Havia uma réstia de sol iluminando aquela tarde. Pessoas faziam piqueniques em diversas partes e algumas crianças soltavam pipas, alheias a todo um mundo. O dia está bonito, comentou Stella, já faz algum tempo que não via tanto brilho. Astrophel concordou com um movimento de cabeça. Olhava para os patos no lago, eram quatro e seguiam um atrás do outro. Gostava de observar aquilo, aquela ordem invisível e silenciosa que permeava a natureza, lembrando-lhe que em algum lugar havia uma coerência. Abriu o cesto e pegou uma maçã, em seguida cortou metade para si e a outra parte deu a esposa.
Estava começando a se preocupar com a demora em obter qualquer novidade sobre o segundo nome. Conversara com toda e qualquer criatura mágica que habitava Dresbel, seguira todas as pistas que pudera e subornara até mesmo uma das funcionárias de Oberon, tudo em vão. Ainda tinha outra tangente com a qual esperava se encontrar ali. Conferiu o relógio mais uma vez e suspirou de impaciência.
– Ele está atrasado – murmurou por fim.
– Eu devo admitir que não ficaria triste caso ele sumisse de nossas vidas para sempre.
– Já conversamos sobre isso, é um mal necessário.
Houve um momento de silêncio entre eles. Astrophel lia na face dela que alguma coisa além daquilo a incomodava, o tipo de conhecimento que existe quando se conhece tudo sobre uma pessoa, quando se sabe que o menor dos movimentos possui um significado: o modo como ela coçava os cabelos quando estava intrigada, ou a forma como cruzava os braços em seguida num silêncio de estátua.
– O que te aflige? – indagou.
– É verdade o que dizem por aí? – começou ela. – Rayla está nesse mundo?
– Sim, ela está investigando as anomalias que têm ocorrido aqui. Um dos meus contatos no mundo das fadas disse que ela matou Mirtza Sosostriz.
– Pela Deusa, isso é terrível, imagino o que ela não seja capaz de fazer. Aquela mulher é uma assassina.
Essa era a palavra certa! Uma assassina. Seus pensamentos se voltaram para Rayla. Ambos tinham medo da filha mais velha da Morte, seria imprudente caso não fosse assim. Muito pouco se sabia sobre ela e aquilo já era motivo o bastante para que não se entregasse a atitudes irracionais. As informações que sabiam acerca dela estavam naquela charneca onde fatos e lendas se mesclavam. Já havia escutado a história dela uma vez, seu amigo Baz lhe contara. Estavam sentados numa das ruas de Viena, duzentos anos atrás quando ele começou a falar sobre ela.
– Eu não sei o quanto é verdade – disse ele –, mas é história que tribos na África contam. A Morte viu muitas almas das quais cuidar e poucos trabalhadores na tarefa, assim sendo, resolveu criar três filhas. As três ajudavam-na a receber as almas ceifadas. A primeira filha, Kivian, ficou responsável por criar mundos onde os espíritos de todas as criaturas encontrariam conforto. ‘Criarei sóis e estrelas’, disse ela, ‘e um mundo para cada dia do ano’. A segunda filha, chamada de Rayla, ficou responsável por manter a ordem nos novos mundos espirituais. ‘E não haverá criatura viva que não obedeça a tal regência’, foram as palavras dita por ela. A terceira filha, menor e mais frágil, de nome Ive, não parecia estar apta a receber alguma obrigação, visto que não tinha a criatividade da primeira ou a liderança da segunda. Sua função seria a de não atrapalhar o trabalho das outras. As irmãs viveram em paz até o dia em que a primeira delas decidiu visitar o mundo humano e se apaixonou por um mortal. Kivian convocou sua família e todos os parentes para anunciar que abandonaria suas funções para viver como uma mortal. Houve discussões e oposições, já que, pessoas morriam todos os dias em todos os mundos existentes e sem ela, não haveria espaço para mais ninguém. Com isso, o caos tomaria conta de tudo, pois sua mãe já não era tão ágil quanto antes. Após longa deliberação, Rayla julgou sua irmã culpada de traição contra a família e a lançou no abismo, onde ficaria até o fim dos tempos pagando por seu erro de ter desejado amar.
– No que você está pensando? – perguntou Stella.
A voz da esposa o arrancou de seus devaneios.
– Estava apenas me lembrando de Baz, acho que ainda estou surpreso pela morte dele – disfarçou e lançou um sorriso.
– Lamento por isso, eu também gostava muito dele – respondeu a mulher, satisfeita com a resposta.
O fato era que a filha mais nova da Morte estava ali, na mesma cidade que ele, e aquilo não era bom. Não poderia levar em conta o que ela aparentava ser. Ive era tão ruim quanto qualquer uma de sua família, ou aquilo que ela fizera a Stella não havia sido evidência o bastante? Ela estava tão interessada e disposta a ir tão longe quanto ele. E havia outra questão: qual longe estava disposto a ir? Nunca quisera tirar vidas ou machucar pessoa alguma, tudo o que queria era poder salvar a mulher que amava e ficar com a filha. O que Ive e o garoto poderiam desejar tanto que não conseguissem de outra forma? Cruzar fronteiras entre o bem e o mal é fácil, a parte complicada é tentar voltar uma vez que isso acontece. É como uma gota de sangue que cai no mar e se espalha até que tudo esteja vermelho.
Sua atenção foi chamada para algo adiante. Um garoto de uns dez anos de idade e boné azul caminhava em sua direção, andava de cabeça baixa e com passos desajeitados. Astrophel reconheceu seu contato de imediato.
– Ele chegou. – disse, sem tirar os olhos do visitante.
Stella aproximou-se e segurou suas mãos. Foi obrigado a admitir que ela parecia estar ainda mais fraca que antes. Era uma enfermidade galopante, ficando silenciosamente mais agressiva. A única coisa que poderia fazer era conseguir os nomes e salvá-la. Focou sua mente nisso.
Mefistófeles, o demônio, havia possuído o corpo de um garoto para que pudessem se encontrar. O demônio já estava mais próximo, suas feições eram fechadas e seus olhos estavam completamente azuis.
– Boa tarde, Bruxo da Terra Velha – disse ele ao chegar. – Quase lamento que não tenha conseguido o primeiro nome, mas não se preocupe. Estou preparando um lugar especial no Inferno para você.
– Não tenho tempo para cortesias, demônio. O que tem para mim?
O garoto demônio fez um muxoxo e cruzou os braços, aborrecido com o tratamento dispensado pelo feiticeiro.
– Astrophel, somos dois cavalheiros aqui. Seria bom se mantivéssemos o nível.
– Que seja, não é como se você valesse muita coisa. Fale.
– O segundo nome está com Josephine, rainha dos ratos. Existe um problema nisso: o lugar foi abençoado pelo gato e nenhuma magia funciona por lá. Coloquei um vigia atrás da filha da Morte e soube que ela e o garoto pretendem ir hoje à noite. É a sua chance de matar dois coelhos.
Aquilo atiçou a curiosidade de Astrophel e um plano aflorou imediatamente em sua cabeça. Ocorreu-lhe que nem tudo estava perdido, deveria começar seus preparativos desde já. Olhou para o demônio e isso serviu de lembrete que não poderia fracassar dessa vez, sua alma dependia disso. Você já entregou sua mensagem, disse Astrophel, vá embora antes que alguém note sua falta no Mundo Inferior.
O demônio lançou um olhar de quem se regozija e foi andando para longe do parque. Chegou a imaginar o que aconteceria com o corpo usado por Mefistófeles, mas a preocupação foi logo substituída pela necessidade de se preparar para a grande noite. Os jovens desceriam até a cidade de Josephine e Ive estaria indefesa, nunca tivera chance maior. Talvez pudesse até mesmo chamar de volta o corvo que pusera para seguir a irmã do garoto. Qual era mesmo o nome dela... Ah, sim, Amber Webley. Uma garota interessante, tinha de admitir. Os olhos dela lembravam os de Anthea.
– Querido, você tem certeza de que precisamos disso? – perguntou Stella.
– Claro que sim, já viemos até aqui. Não há volta – e num tom mais baixo, como que afirmando para si próprio, repetiu: – Não há volta.
A verdade era que sentia uma melancolia sem precedentes e outra coisa estava no meio disso. Um sentimento frio que nascia na boca do estômago e se espalhava como ervas daninhas; a planta chamada medo, que ia fincando suas raízes e se alastrava com vigor por todo seu corpo. Não gostava de pensar nisso, mas a verdade era que estava com medo. O peso de todo o mundo estava sobre seus ombros, sentia-se como uma espécie de Atlas que nunca pode perder a compostura. Mas sua mulher contava com ele, não estava sujeito a mostrar esse medo, nunca. Segurou a mão de Stella. Tinha medo de perdê-la, medo de morrer, de nunca mais ver sua filha e de como se sentiria depois de matar o garoto.
Um vento frio varreu o parque, virou-se para a mulher e disse:
– Acho que está na hora de irmos. O tempo está esfriando.