A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 44 de 79

Páginas do PDF

A Morte é Legal

Capítulo TRINTA E NOVE

Você ainda não me colocou em um altar, tudo bem, eu tenho uma

coleção de facas.

 

Andrew encarou os olhos que piscavam atrás da portinhola. Imaginou o que estaria para acontecer e pensou que nada poderia assustá-lo ou surpreendê-lo: já vira mais coisas estranhas do que um enfermeiro de hospício. A porta começou a se abrir e o porteiro pode ser visto. Ive e Prozy trocaram um olhar assustado. Ali estava um rato que atingia a cintura de Andrew em tamanho, vestia-se com roupas esfarrapadas e joias falsas. Era uma das coisas mais feias que já vira em toda sua vida, de cheiro insuportável e sujeira acumulada que faria um mendigo se passar por uma atriz de Hollywood.

– Estamos procurando por Josephine – disse Andrew,

– Como chegaram até aqui? – perguntou o rato.

– Oberon nos deu o caminho – falou Ive. – Leve-nos até ela, diga que Ive, Princesa do Fim Inevitável, está aqui.

O rato os encarou durante um longo tempo e em seguida fez um sinal para que o seguissem, estava visivelmente desconfiado e olhava para trás constantemente. Começaram a seguir por um túnel repleto de sucatas amontoadas onde outros ratos trabalhavam arduamente procurando por coisas de interesse. Andrew foi obrigado a imaginar como todo um povo era capaz de viver logo abaixo de seus pés e ninguém nunca ter imaginado. À medida que iam passando, várias cabeças se viravam para acompanhá-los.

Andrew pôde observar que todos os ratos trabalhavam incessantemente separando, catalogando e carregando coisas. Eram metódicos e eficientes em suas atividades. Estavam se aproximando de uma enorme galeria de onde vinha o barulho alto de música. Andrew não conseguiu discernir muita coisa.

– Nossa amada Josephine estará fazendo um concerto – alertou o rato que os guiava –, vocês devem permanecer em silêncio durante o evento.

– Ela é uma cantora? – perguntou o garoto.

O rato guia abriu pela primeira vez um sorriso largo e sua voz adquiriu o tom de alguém que fala sobre o melhor chocolate do mundo.

– Ela não é apenas uma cantora. Uma raridade, isso sim. Seu canto belíssimo nos ajuda a suportar os duros dias de trabalho. Quem nunca escutou nossa rainha não conhece música.

Andrew olhou para Prozy que fazia uma cara de tédio para cada palavra que o rato dizia. Fez um sinal para que a coelha ficasse quieta e não atraísse atenção indesejada. Ive caminhava ao lado deles, mas ia calada e tinha o semblante sombrio, como se alguma coisa a incomodasse profundamente. Aproximou-se dela e cochichou:

– O que há de errado?

– Eu sinto como se toda a minha magia estivesse trancada. Eu não sei por que isso está acontecendo, mas significa que estamos completamente indefesos.

Haviam acabado de chegar ao local onde Josephine se apresentava. Era um teatro oval e muito grande, onde dezenas de ratos se sentavam imóveis ouvindo sua líder cantar. O guia os levou pelo corredor até estarem bem em frente à cantora, que embora tenha percebido a presença deles, não parou sua apresentação. Josephine era uma figura frágil e esquelética, que se vestia com roupas de cores vivas e joias falsas. Uma pequena banda lhe fazia companhia tocando metais. Andrew não soube muito bem o que pensar. Platão havia dito que a música tem efeito direto sobre a alma, ele devia estar certo, porque tudo o que a alma do garoto queria naquele momento era ficar surda. Não havia como formular nenhum julgamento acerca do valor e da excelência da música de Josephine – pelo simples fato de não existir nem uma coisa nem outra ali para julgar. Era uma balada sentimental e de sofisticação peculiar. Josephine, de voz tão melodiosa, doce – a Björk dos ratos! – que uma pessoa em são consciência não seria capaz de ouvir por mais de um segundo.

(Refrão x8)

Eu que sinto paixão, jogada

Na solidão, sem um coração,

Seu sorriso, meu paraíso,

Não pode ser o fim, você sem mim,

O que dizer, o que fazer?

Andrew concluiu que os humanos não eram os únicos com uma tendência inexplicável para gostar de ruídos duvidosos. Alguns ratos choravam e levavam lenços aos olhos como se Billie Holiday ou Ella Fitzgerald houvesse descido dos céus e cantado algo da discografia dos anjos. O grande problema em assistir ou escutar uma coisa cuja estética não ajuda, é que existe a possibilidade de que um efeito inesperado aconteça, como por exemplo, uma risada involuntária. O garoto só foi perceber tarde demais que sua indiscrição fora mais alta do que esperava e chegou aos ouvidos de Josephine, que interrompeu a canção no meio e cravou os olhos em cima do trio.

– Minha canção te diverte? – perguntou ela, segurando o microfone com suas longas unhas.

– Não é isso... – Andrew se apressou em dizer.

– Então quer dizer que ela não te diverte – falou Josephine.

Houve comoção na plateia. Começavam a gritar em protesto contra o garoto. Josephine se aproximou ainda mais da beira do palco e deixou que sua raiva transparecesse.

– Sabe o que você é? Um crítico! E ninguém gosta de um crítico que esnoba grandes talentos quando os encontra. Qualquer um pode ser um crítico hoje em dia, veja só. Eu tenho inúmeros fãs e eles não gostariam de mim se eu não fosse boa.

– Se você não gosta, faz melhor – gritava um dos ouvintes.

– Você não gosta dela porque tem inveja! – berrava outro. – Você não tem mais o que fazer além de falar mal dos outros?

Andrew sabia que algumas pessoas tinham uma enorme tendência para levarem qualquer crítica para o lado pessoal e alguns fãs são levemente obcecados com seu objeto de adoração. Também sabia que críticos podem ser tomados por arrogantes com a mesma facilidade com que se corta um pedaço de bolo, mas nunca pensou que uma crítica fosse colocar sua vida em risco. Claro que se estivesse num meio onde a plateia não possuísse dentes afiados, comentaria sobre a parte em que música é outra coisa, mas preferiu ficar em silêncio e deixar que Ive tomasse as rédeas da conversa.

– Desculpe o comportamento de meu amigo, como vossa majestade pode ver, ele não é muito culto e por isso não é capaz de compreender toda a beleza da música – disse Ive.

A rainha dos ratos pareceu se acalmar diante daquele argumento e fez um sinal para que todos ficassem quietos. O público os encarava com raiva crescente, entretanto, obedeceu à ordem. Eu encontrei o nome, cochichou Prozy para o garoto, é a tiara na cabeça dela. Andrew olhou disfarçadamente e notou a única peça verdadeira em todo o traje dela, uma tiara repleta de brilhantes e com uma pedra azul no centro. Colocou seu cérebro para pensar em uma forma de conseguirem aquilo.

– O que vocês querem? – indagou Josephine.

– Eu sou Ive, Princesa do Fim Inevitável e estou procurando o segundo nome do gato.

– Como ousa? Esse nome foi dado a mim e a mais ninguém. O gato aprecia boa música e me presenteou, não é como se eu fosse entregar isso a qualquer um que me pedisse.

– Eu não faria isso se fosse você, senhora. Ela é a filha da Morte, acredite em mim, a família dela adora uma encrenca – falou Prozy. – E ela tem um monte de poderes coloridos...

– Que não funcionam aqui em baixo – respondeu Josephine. – O gato nos abençoou com sua proteção, queridos, nenhuma magia funciona nos esgotos de Dresbel.

Então ali estava o motivo por Ive estar de mãos atadas. E mais uma vez, não pela última, imaginou se ter entrado nessa história não havia sido um erro. Uma coisa era enfrentar ameaças sabendo que a filha da Morte estava pronta para salvá-lo com uma granada de anti-imaginação ou coisa do tipo, outra era estar cercado de ratos fãs de uma cantora ruim – intimidavam-lhe muito, porque não cessavam de murmurar ofensas e cutucá-lo. Tinha ainda uma saída, todavia: conseguir a tiara. Puxou a coelha para mais perto e sussurrou seu plano. Prozy protestou contra a ideia e usou palavras grosseiras para isso. Andrew não deu importância e se limitou a enfatizar a importância de erro nenhum. O guia que os trouxera estava a dois passos de distância, seria o suficiente para fazer o que pretendia. Ive se mantinha perto, mas parecia estar desligada do mundo, chocada por não ter como usar seus poderes. Bem-vinda à existência humana, pensou Andrew.

Josephine batia um dos pés no palco e um sorriso lhe ganhava a face, dirigindo-se ao público, falou:

– Cortem a cabeça deles – fez uma pausa e acrescentou: – Mas deixem as orelhas intactas, que é para que me ouçam mesmo após a morte!

O instante seguinte foi um momento confuso para o trio. O mundo perdeu sua organização e a paisagem se tornou um emaranhado de pernas e braços de roedores que se impelia contra o grupo. Andrew olhou para todos os lados e com um grito tratou de pôr seu plano em ação.