A Morte é Legal
Capítulo SESSENTA E DOIS
Oh, não, o coelho zumbi está atrás do meu avô e ninguém poderá
salvá-lo.
Aquilo não era verdade, pensou Andrew.
Fadas, ceifadores, gubbinals e até mesmo filhas da Morte poderiam existir, mas não William Shakespeare num palco. Passava pelo mesmo tipo de emoção que pessoas fantasiadas em convenções de ficção científica sentiriam caso Philip K. Dick surgisse diante delas. Olhou as pessoas ao redor e entendeu porque pareceram familiares à primeira vista: ali estavam os escritores mais famosos do mundo, educadamente acomodados para ouvir uma palestra do bardo. Reconheceu Tonya Ellison – autora de O Olho Mais Verde – sentada logo adiante. Assim como identificou dois dos três homens que presidiam a palestra: Sam Rush, o indiano que escrevera um de seus livros infantis favoritos, Hassan e o Oceano de Poemas; ao seu lado estava Phil Rock, que escrevia sobre judeus neuróticos e famílias disfuncionais – forte candidato ao Nobel de Literatura. O último homem permaneceu uma incógnita por tempo maior, um senhor de uns sessenta anos e dentes estranhos, ostentava uma camisa de dinossauro voador e um bigode igual ao de Pancho Villa. Ao olhar para o crachá em seu pescoço, leu o nome Thomas Pinkerton e soube que se tratava do autor mais recluso do mundo – cuja única foto conhecida datava de cinquenta anos atrás. Uma das anedotas acerca dele dizia que saltou pela janela e fugiu para a Espanha quando um repórter bateu em sua porta. Andrew desejou que deixassem a busca pelo último nome para depois da palestra, adoraria perguntar uma coisa ou outra sobre Iago ao seu criador.
– É melhor pegar o seu queixo no chão, moleque – disse Prozy.
Ive mancava em direção ao palco. Andrew a seguia, envergonhado por interromper o evento. Tinha a impressão de que um semiólogo italiano estava profundamente consternado com o alvoroço. Todos os olhos e comentários estavam sobre o trio. Ainda sem acreditar muito no que via, observou Shakespeare, era bem parecido com o que as pinturas mostravam dele e se movia lentamente, olhando a filha da Morte com atenção.
– Não sabia que você gostava de dar voltas por aí – falou Prozy. – Marlowe comentou que você sumia às vezes.
– Ah, Prozy, minha querida, a arte é para os vivos – disse o poeta. – Mortos não lidam bem com a tragédia, sensíveis demais, a comédia lhes é muito mais interessante.
Foi nesse momento que Sam Rush se levantou e chegando um pouco adiante, disse:
– Este é um evento particular. Receio estejam atrapalhando nossa palestra.
– Você diz isso porque não viu o que fizemos lá embaixo – respondeu Ive. – Lamento pelo incômodo, mas preciso perguntar uma coisa para o Bill. Estaremos fora daqui antes que percebam e em troca eu garanto outros escritores mortos. Acho que não me apresentei, sou uma das filhas da Morte e a próxima na cargo. Tenho certeza de que Oscar Wilde adoraria vir aqui, ele adora a alta sociedade.
O auditório se encheu de sugestões. Rimbaud, gritava um, manda o Conrad, pedia um africano, outros pediam nomes que iam de Homero até Dante Alighieri e Jane Austen. Andrew se encolheu em meio a tantos gritos e somente quando Phil Rock pediu silêncio em seu microfone o frenesi foi contido. William Shakespeare se aproximou do trio. Era um homem calmo e de olhar melancólico, que evitava qualquer contato visual na maior parte do tempo.
– Do que precisam? – perguntou ele.
– Estamos procurando o terceiro nome do gato – falou a garota tentando se manter em pé. – Kivian disse que você sabia onde estava.
O fantasma suspirou e respondeu:
– Pequena Ive, sempre a minha favorita, se isso lhe tiver algum valor, ouça o que digo, não prossiga. Apenas um mar de provações lhe espera nessa região sem volta.
Andrew imaginava se Shakespeare não estaria certo e o futuro de ambos estivesse armado de setas e pedras. Seria mais nobre que aceitassem o destino que lhes fora reservado ou deveriam pelejar até que um fim aprazível existisse? Ou talvez, esse tipo de questionamento fosse a muleta do covarde, separando o cérebro da ação.
A garota balançou a cabeça negativamente e respondeu:
– Desistir não é uma opção – disse ela. – Rayla está atrás de mim. Vê esse garoto ao meu lado, eu preciso dos nomes para ficar com ele. É igual seu Romeu e Julieta, com a diferença de que não queremos morrer. Por favor, nos ajude.
Ao escutar a garota referir-se a ele daquela forma, Andrew sentiu como se um balde de lava escorresse pelo seu rosto. Algo indescritível que rodava à procura de expressão. Por ser um escritor, esperava ter a capacidade de analisar os acontecimentos – emocionais ou não – e encontrar as palavras que melhor faziam justiça, mas ali estava mais uma vez, a rebeldia das letras, lhe impossibilitando de absorver a situação adequadamente. Uma coisinha branda e violenta. A única definição que fazia sentido para sua mente estava num paradoxo.
– Por favor, Sr. Shakespeare – conseguindo falar pela primeira vez – nos ajude. Se aprendi algo lendo tudo que o senhor escreveu, foi ouvir a mim mesmo. É exatamente isso que estamos fazendo: ouvindo o que nós dois queremos.
– Bem, acho que você ignorou a parte do descrédito que deposito na humanidade e da ironia dramática – respondeu o fantasma. – Jovens, adoraria ajudar vocês, mas isso não está mais ao meu alcance. O terceiro nome estava aqui duzentos anos atrás, mas o próprio gato o levou e eu não faço a mínima ideia de onde possa estar.
Os ânimos do trio bateram num iceberg. Estavam perdidos, pensou, Astrophel não demoraria em encontrar o terceiro nome e quando fizesse isso, todas as esperanças estariam soterradas. Olhou para os escritores ali reunidos e concluiu que nem o mais inteligente dentre eles teria uma solução para aquele impasse. Thomas Pinkerton diria alguma coisa relacionada com paranoia e entropia; Phil Rock provavelmente lhe mandaria procurar um psiquiatra e escrever um livro e Sam Rush chegaria à conclusão de que o fracasso era um bom adubo para alegorias. Nenhuma resposta útil.
– Muito obrigado, Bill – falou Ive. – Vamos encontrar outra forma. E me desculpe por ter matado o polvo da metralhadora.
– Não se preocupe, eles têm outro no estoque – respondeu ele.
Estavam se despedindo do fantasma quando viram um enorme corvo invadir o auditório e derrubar um rolinho aos pés da filha da Morte. A garota se abaixou e apanhou o papel enquanto a ave pousava sobre um dos lustres. Andrew viu os olhos de Ive percorrendo as linhas e seu rosto adquirir traços de medo que nunca existiram ali. Emily Dickinson escrevera que o pressentimento é uma longa sombra na grama indicando que o sol vai embora. O garoto sentia isso passar por sobre ele.
– O que está escrito? – perguntou.
A garota não respondeu. A boca dela se movia sem que nenhum som fugisse. Enxergou uma lágrima presa no canto do olho e sem outra escolha, tomou o papel de suas mãos. As palavras lhe acertaram uma de cada vez, lentamente, como se prazerosas em saber o que significavam. Andrew retesou os ombros. A respiração interceptada e os lábios que tremiam.
– Temos que ir agora – disse ele saindo sem dizer adeus a qualquer um dos presentes.
Tinha que entrar no primeiro táxi que visse. Escutou Ive e Prozy chamando seu nome, não se deu ao trabalho de responder. Seu pensamento exclusivo era correr. Estou com a irmã de seu namorado e o terceiro nome no Holiday Jazz Club, traga o primeiro ou ela morre. Astrophel havia ganho o jogo e a única coisa que lhe restava era resgatar sua irmã com vida – uma coisa difícil levando em consideração que o feiticeiro não era a melhor das pessoas, sua cicatriz confirmava isso.