A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 12 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo OITO

Makaveli já havia falado sobre isso e se você não sabia, agora está

sabendo.

 

O sol surgia timidamente entre as nuvens escuras daquela manhã. Um prédio estava sendo construído não muito longe dali e o barulho voava em todos os cantos. Os trabalhadores andavam com seus capacetes e ferramentas, alguém lá em cima havia perdido uma das plantas que caiu num vai-e-vem, sendo empurrada pelo vento até ficar aos pés de Amber e Jonas na arquibancada da pista de skate onde vários jovens lutavam contra a gravidade sobre quatro rodas. Um dos garotos trouxera um aparelho de som e doava a trilha sonora para o dia: Jay-Z rimando seu Takeover.

A garota sabia de memória cada verso e incluía alguns quando encontrava uma brecha nas batidas. Jonas ouvia em silêncio e olhava para os garotos e manobras. Amber imaginou se ele não estava gostando do que via ou do que ouvia. Ela continuou até que a música foi perdendo volume até ceder lugar para a faixa seguinte.

– Você tem linhas matadoras, Amby, mas não tem um alvo e chuta qualquer coisa.

– O jogo não está procurando Buda, a coisa é mais no estilo Bruce Lee. Você ainda está pensando em mandar a demo?

Jonas sorriu e assentiu com a cabeça, sim, disse ele, assim que terminarmos aquela faixa – que é a melhor coisa que já produzi. Amber realmente considerava #36 – ainda sem um título definitivo – contagiante de forma única e sabia exatamente o que fazer para que funcionasse. Mas precisava, antes de tudo, convencê-lo de que ela estava certa sobre como deveria cantar.

– Eu só acho que devemos cair na música com um flow assassino. Precisa ser feito com força e velocidade, Jo. Precisamos de napalm nesses versos ou ninguém vai nos respeitar.

– Ou talvez a gente precise de boas vibrações. Você não pode cantar como se estivesse pronta para morrer, Amby, aquele som é mais para vida após a morte, entende o que eu quero dizer?

As tensões musicais eram frequentes e cansativas entre eles, discutiam sobre um arranjo ou ritmo durante semanas até que um desistisse. Mas era a primeira vez em que realmente falavam sobre tomar uma atitude e não apenas brincar no estúdio do pai dele. Imaginou como foi quando Notorious B.I.G decidiu se devotar à música. Teria ele hesitado antes do primeiro passo? Ela sabia que perseguir um sonho traria um monte de decepções e talvez não trouxesse resultados, via o irmão sofrendo com aquele livro que crescia rápido feito uma pedra – não tinha certeza de que queria terminar como ele. Jonas, disse Amber num tom de voz que parecia distante e despido do ego habitual, você acha que realmente temos uma chance de... sabe, chegar lá?

Ela esperou e Jonas não respondeu, mas fitou a Rua Holton que estava além da grade que circundava a região: os carros e a massa de anônimos apressados que não se esbarravam. Os trabalhadores e o prédio em construção. Uma pequena discussão parecia estar acontecendo entre dois grupos na pista, mas Jonas ignorou isso e apontou a planta arquitetônica que havia voado do prédio e agora estava pressionada pelo vento num poste.

– Olhe um pouco adiante do papel, Amby – disse ele com um sorriso. – Preste bastante atenção e me diz o que você está vendo, acho que é um daqueles momentos em que Bruce Lee ouve o que Buda tem a dizer.

Amber riu e balançou a cabeça. A sombra do que acontecera no estúdio dias atrás desaparecida por um momento. Ainda estava incomodada com toda aquela história, mas talvez devesse simplesmente ficar num canto e esperar que o amigo viesse falar o que estava acontecendo. Estreitou os olhos viu o que ele mostrava: uma flor perto do garoto com o aparelho de som. E entendeu o que ele estava dizendo. Tupac falou sobre isso em um de seus poemas, sobre a rosa que nasceu de uma rachadura no concreto. Sobre a rosa que ganhou força e cresceu mesmo quando tudo estava contra. A rosa que vira uma chance onde todas as outras estavam dizendo ‘não podemos’. Shakur estava certo, eles tinham uma chance de sair do concreto e fazer alguma coisa e detonar um monte de outras. Acho que vale a pena tentar, pensou ela, e daí se o Dr. Dre nem ouvir a nossa música? E daí se ele jogar a fita no lixo? O importante é manter as mãos ocupadas e as palavras fluindo. Se perdendo na música e no momento, como Eminem cantava. Amber deixou um sorriso pendurar no canto da boca e respondeu: acho que devemos mesmo fazer a nossa coisa e chutar o universo onde dói mais, entre as pernas.

A dupla riu e conversou sobre inúmeros outros assuntos e também com os outros jovens ali

presentes. Alguém pediu para que Amber improvisasse enquanto Jonas fazia o beatbox [1]. Fizeram um circulo e alguns garotos se revezaram para desafia-la. A atenção se desviou da pista e se focou nos adolescentes que riam, aplaudiam e vaiavam uns aos outros. Até mesmo curiosos paravam por um breve espaço de tempo e observavam de longe o que acontecia.

Mas o que ninguém percebeu naquele momento e nem mesmo depois foi que o garoto do aparelho de som, em seus passos até a roda de duelo, pisou sobre a flor branca, aquela que assim como a rosa de Tupac Shakur, nascera de uma fissura no concreto. E ninguém se importou. Não conseguiam parar de festejar.

[1] Uso de percussão vocal no hip-hop. Reproduzir sons de bateria e outros instrumentos musicais com a voz, boca e cavidade nasal.