A Morte é Legal
Capítulo SEIS
Cervantes escreveu que às vezes é pior que a encomenda, acredito
nele.
Norte e Sul – alguém pode muito bem começar por qualquer um deles e caminhar em linha reta até chegar ao outro. Não faz muita diferença, porque você nem sempre está alerta o suficiente para compreender esse tipo de coisa. Andrew com certeza não estava. Sua situação era de alguém longe de encontrar uma estrada aberta.
Àquela hora da noite, empurrava a comida de um lado para o outro no prato – uma lasanha preparada pelo homem de olhar severo do outro lado da mesa. Homem de compleição forte, intimidador, sempre atento feito cão de caça. Comiam em silêncio e um observador casual poderia muito bem ser levado a acreditar que ali se encontravam três estranhos uns aos outros e não um pai e seus dois filhos.
Engoliu mais um pouco e não sentiu gosto algum. Pensava na proposta de Ive. Ora, uma vez que a oportunidade se apresentava, não seria mais lógico que aceitasse? Seus pensamentos voltaram-se também para Sylvia – a protagonista de seu romance – e as dificuldades enfrentadas para solucionar um problema de enredo. Deveria ela fugir de casa ou aceitar o casamento com o odioso príncipe Böll? Não sabia.
Suspirou cheio de irritação – um pouco mais alto do que pretendia. O olhar do Sr. Webley caiu sobre si e as palavras dele vieram logo em seguida:
– Algum problema com o jantar...?
– Não, pai, nenhum problema.
– Você não sabe cozinhar, não é – era uma afirmativa simples e num tom pouco maior que um sussurro. Andrew sabia o rumo que essa conversa tomaria. – Com a sua idade eu já sabia cozinhar e também tinha um emprego, aliás, desde os quinze. Acho que você deveria conseguir um emprego.
Andrew olhou para a irmã que lhe devolveu solidariedade muda com os olhos, incapaz de ir além daquilo. O garoto ficaria em silêncio. Não responderia pela segunda vez que desejava se tornar um escritor – a primeira experiência havia sido ruim o bastante.
– Eu ainda vou arrumar um emprego, pai. Tenho outros interesses no momento.
O pai cruzou os braços. Silêncio. Andrew olhou para o prato. Ali estava uma coisa que nunca conseguiria mimetizar: o ar da incontestável autoridade. O porte de alguém capaz de reger tudo sobre o que põe a vista. Queria desaparecer completamente.
– Você já tem idade suficiente para seguir um caminho reto na vida – prosseguiu ele. – Não pode trancar-se o dia todo com livros, isso é um passatempo e não a vida real. É triste ver uma pessoa sem grandes sonhos nem perspectivas, Andrew. Falo isso porque me importo. Seu primo Aiden tem a sua idade e está na faculdade, será advogado, enquanto você é apenas um pirralho ingrato e egoísta.
– Será que não dá pra você gostar de mim pelo que realmente sou e não pelo que você acha que eu deveria ser? Lamento não ser perfeito de todas as formas possíveis. Lamento ainda mais por não ser igual a qualquer outro adolescente que é padrão-você de qualidade. E me desculpe se o meu melhor nunca será o bastante.
Andrew sentiu a mão da irmã segurar a sua por debaixo da mesa. O pai não parecia se incomodar que ela tivesse cantasse rap, mas tudo o que o filho fazia ou não estava errado e não hesitava em demonstrar isso.
– Esse é o problema: você nunca faz o seu melhor. Tanto desperdício de tempo com bobagens e não faz nada de útil para dar um jeito na sua vida. Eu quero me orgulhar de você, filho.
“Eu quero me orgulhar de você, filho”, Andrew repetiu a frase em sua mente um milhão de vezes por segundo. Ou seja, não fui motivo de orgulho nenhum, só de aborrecimento, pensou . Seria ele um Van Gogh da arte de fracassar nas coisas simples? Talvez estivesse casado com aquela situação – aquele tipo de casamento no qual nenhum dos lados tem coragem de pedir divórcio.
Andrew riu e nem sabia por que, simplesmente riu e quando palavras saíram de sua boca, eram frias e destituídas de qualquer emoção.
– Eu queria que você e não a minha mãe tivesse morrido. Teria sido bem melhor para todo mundo.
Não houve resposta da parte do homem do outro lado da mesa. A irmã olhava-o, pálida e com olhos grandes, os lábios dela se moviam. Ou ela não disse coisa alguma ou ele não conseguiu ouvir. Andrew cerrou os lábios e desejou não ter dito nada – queria um barbante vermelho através do qual pudesse puxar as palavras de volta e colocá-las na boca. Mas não poderia fazê-lo: a flecha lançada voava longe. A palavra errada, pronunciada. A oportunidade de calar a boca, perdida.
Levantou-se em silêncio e se retirou. Pegou o cachecol e o casaco no quarto e saiu de casa com os pensamentos escorregando na pista de dança da cabeça. Podia sentir o peso da verdade se avolumar dentro de si: Não tinha o que era necessário para conseguir ser algo. Enxugou as lágrimas com a manga da camisa.
A noite estava fria e o céu não indicava nenhum sinal de chuva. Mas Andrew não ligava para isso. Como seu pai podia ser tão cruel? Estava tão cansado de tudo aquilo que chegava a ser difícil sobreviver àquela melancolia. Dezenove e sem ter conquistado coisa alguma da qual se orgulhasse.
Foi então que um pensamento cruzou sua mente. Tinha sim algo que podia conquistar: Briony. Pensou na proposta de Ive e viu que era a única oportunidade real que surgira em sua vida nos últimos tempos. Sentia medo, mas estava na hora de enfrentá-lo por alguma coisa. Pegou o papel verde que ainda estava no bolso de sua camisa e pegou uma caneta que sempre tinha consigo – para caso tivesse uma ideia para “A Violinista de Fevereiro”.
Apoiou-se num prédio e rabiscou sua resposta com força, a ponto de fazer um pequeno rasgo. Agora precisava encontrar uma forma de queimar aquilo, não podia voltar para casa – não estava a fim de lidar com seu pai naquele momento. Pensou em abordar alguns transeuntes e pedir por fogo, mas ficou com vergonha e deu mais passos até encontrar um mendigo que fumava sozinho perto das ruas Corneille e Donne.
– Ei, pode me emprestar fogo? – perguntou, olhando para os lados para confirmar que não havia nenhuma pessoa conhecida.
O homem acendeu um fósforo e estendeu ao garoto que deixou o papel queimar de baixo para cima. Deu uma nota a ele e jogou o papel flamejante numa lixeira, as palavras sendo consumidas pelo fogo: Eu aceito, me encontre no Lago Lou-Heaney.
E de coração dobrado Andrew deu início a tudo o que tornaria sua vida um pouco mais fantástica dali em diante. Pensou em Briony, que sempre estava sorrindo, mesmo quando as coisas não estavam tão bem e que conseguia levantar seu ânimo. Caminhava sob as estrelas, um garoto desterrado.