A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 75 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo SESSENTA E NOVE

Nas primeiras horas da manhã é que você sente mais falta de um

abacate.

 

Astrophel acordou, a consciência chegou aos poucos. Vinha entre imagens fraturadas da memória e a luta para continuar desperto. Era difícil se mover, seus braços estavam lentos e sua visão era tão pouca que mesmo as coisas mais próximas dos olhos eram disformes. Lembrou-se do que havia acontecido: sua esposa estava morta, a filha da Morte a havia assassinado. Tudo estava perdido, toda e qualquer razão para viver. Como prosseguir sua vida sem Stella? Após tantos meses, anos e séculos juntos? A dor que sentia não podia ser dimensionada.

Sabia o que fazer para resolver aquela situação. Havia somente um caminho, juntar-se a ela em morte. Apoiou-se numa cadeira e fez um esforço sobrehumano para ficar de pé. Sua última ação seria a epítome de todas as escolhas de sua vida. Ergueu a mão e concentrou-se no feitiço necessário para fazer com que o teto desmoronasse, transformando aquele espaço em sua tumba. O que anteriormente seria uma coisa simples havia se transformado na coisa mais difícil do mundo e foi somente após tentativas inúteis que reconheceu: a magia o havia abandonado.

Como uma gota de orvalho que cai no chão, a melancolia caiu sobre sua alma. Tudo é inútil e sem propósito, dizia Astrophel a si mesmo. O que fazer? Poderia sair dali, mas não faria diferença, não tinha para onde ir. Cego e sem forças, a única coisa que podia fazer era encontrar o caminho para o topo daquele prédio e esperar que a gravidade fizesse a sua parte. Perdera tanto a esposa quanto a filha, qual fim senão a morte?

Estava começando a tatear seu caminho para fora dali quando ouviu passos que se aproximavam. Deteve-se na espera de mais informações. Sua audição permanecia boa ao menos. Sabia que sua visita já estava ali dentro.

– Quem está aí? – perguntou, mal reconhecendo sua própria voz.

A outra pessoa parou de caminhar e respondeu:

– Relaxe, é apenas seu bom amigo, Mefistófeles.

E assim vem o demônio colher o joio, pensou. Sentia o cheiro de um perfume caro se desprendendo dele. Ficou imaginando qual seria o corpo daquela vez. Ouviu uma cadeira ser arrastada e o visitante sentar-se.

– Astro, estou decepcionado – disse ele. – Tanto esforço e perder tudo no final, amigo. Isso não é muito o seu estilo.

– Mate-me, Mefistófeles, por favor.

O demônio bateu palmas e respondeu:

– E promover um encontro com a fada lá embaixo? Não é divertido. Vou refrescar sua memória, você já deveria estar a sete palmos, camarada. A fadinha era a única coisa que lhe mantinha vivo.

Todos os últimos eventos fizeram com que se esquecesse brevemente dessa lógica. Não fazia sentido que estivesse inteiro sem ter de onde retirar sustento. Uma teoria perpassou sua mente, mas ainda assim preferiu perguntar:

– Por que estou vivo?

– Porque eu quero assim – respondeu Mefistófeles. – Nós tínhamos um trato e você não desempenhou seu papel. Levar sua alma não seria uma boa punição, é exatamente o que deseja nesse instante. Preste atenção no que vou dizer: eu te dei a vida eterna. Astro, mundos serão consumidos, universos criados e você ainda estará aqui. Uma carcaça de homem que viu tudo.

Astrophel reconheceu de imediato o sentimento que cruzou seu espírito: medo. Até algumas horas atrás tudo o que desejava era viver pelo maior tempo possível, mas sem Stella isso era uma ideia descabida de razão. Não podia ser deixado para trás, não daquela forma. Esticou o braço a procura do pescoço do demônio, mas foi repelido com um tapa que lhe atirou no chão.

– Esse não foi o nosso trato, Mefistófeles! Você tem que levar a minha alma.

– Fez um pacto com um demônio e reclama de sair perdendo no final? Você deveria ser um comediante. Não se preocupe, sua esposa está sendo bem cuidada. O pessoal se afeiçoou a ela bem rápido. Bem, eu tenho que ir, o dever me chama.

Mefistófeles se levantou e foi seguindo em direção à porta, mas voltou até o feiticeiro e colocou um papel em sua mão dizendo:

– Ela voltou a ser bonita, Astro. Eu trouxe uma foto, é uma pena que não possa enxergar.

O homem segurou o papel com força e passou os dedos sobre ele. A esperança tola de que ela poderia sentir seu toque distante. Quando a porta se fechou atrás do demônio, Astrophel soube pela primeira vez em centenas de anos o que era estar sozinho. Sua única companhia seria a memória, onde se lembraria daquela mulher de cabelos longos e dourados, olhos vivos e sorriso sincero – sem nenhum traço do serviço dos anos.

Pensou no pequeno coração de vidro dentro do bolso da calça: o último nome do gato, um souvenir de seu fracasso. Foi o que restou e bastaria. O amante de estrelas abraçou a imagem da mulher em sua mente e se levantou para viver o primeiro minuto da eternidade.