A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 56 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo CINQUENTA

Eu tenho um estegossauro na estante, minha mãe não consegue

enxergá-lo.

 

Amber tocou a campainha de novo e de novo. Mal podia conter sua empolgação e tinha certeza de que derrubaria a porta caso Jonas não a abrisse logo. O garoto havia ligado para sua casa e deixado um recado com seu irmão dizendo que havia terminado de produzir a demo. Os minutos que separavam suas casas nunca foram tão longos. Fez a campainha soar mais uma vez. Aquele era o dia em que enviariam a demo tape para Dr Dre – um dos maiores

produtores de hip hop do mundo e criador do G-Funk [1]. Dre era um dos três produtores favoritos de Jonas, ao lado de Kanye West, J. Dilla e Marley Marl – aqueles que mais influenciavam as batidas que criava. A porta se abriu dali a pouco e o garoto surgiu fazendo uma careta. Ninguém é surdo por aqui, Amby, disse ele. A garota deu de ombros e foi entrando na casa.

– Onde está todo mundo? – perguntou ela.

– Meu pai saiu para comprar algumas coisas e mamãe está no escritório trabalhando no artigo.

A mãe de Jonas escrevia um livro acadêmico há anos, alguma coisa sobre Ralph Ellison ou coisa do tipo. Nenhuma pessoa estava autorizada a incomodá-la quando estava lutando contra aquilo.

A dupla foi até o estúdio e Jonas entregou o trabalho a ela. Amber admirou a capa que o garoto fizera. Uma foto dela quando criança e em letras coloridas estava escrito: Amber Webley EP. Era uma piada recorrente entre os dois que todo rapper deveria ter um disco com uma criança na capa desde que Notorious B.I.G e Nas fizeram isso na década de 1990. Olhou a parte de trás do encarte onde estavam listadas as cinco músicas que compunham o EP. A garota sorriu e respondeu:

– Você fez um lance muito bom aqui. Acho que está na hora de despacharmos isso de uma vez. Jo, esse negócio pode nos colocar dentro do jogo.

– Bem, esse é o lado bom de ser um gênio, eu faço esse tipo de coisa.

– Idiota.

Os dois riram e começaram a se preparar para sair. Amber colocou o CD num envelope e escreveu o endereço enquanto Jonas buscava seu skate e um casaco. Ela não pôde evitar se lembrar de quando o conhecera na pista de skate. Ele estava sempre ouvindo alguma coisa nos fones de ouvido e ficava horas observando o pessoal fazendo suas manobras. Começaram a conversar porque em alguns meses Eminem lançaria Relapse – depois de vários anos sem gravar nenhum disco – e Amber usava uma camiseta com a capa do disco. Jonas se aproximou sem muita coragem e fez algum comentário sobre a estampa. Começaram a se tornar amigos de verdade quando um descobriu os talentos do outro e decidiram criar alguma coisa. Ela tinha alguns cadernos cheios de letras e ele compusera milhares de coisas no estúdio do pai. Sua ligação com Jonas era um dos principais fatores para que não desistisse do rap e da chance de ser uma artista de verdade.

– Ambie, esse é o melhor trabalho que já fizemos – disse ele.

– Eu sei. E o suficiente para que ninguém tente me chamar de Feminem – respondeu fazendo uma careta. – Talvez seja melhor do que Illmatic.

– Minha mãe diz que blasfemar é pecado. Nada é melhor do que Illmatic. Contudo, é melhor do que qualquer coisa do Vanilla Ice.

– Jo, se eu gravasse o meu arroto em cima de uma batida seria melhor que Vanilla Ice.

Os dois riram e continuaram rumo ao correio. As ruas estavam calmas e Jonas ia de skate ao seu lado. O barulho das rodas deslizando sobre o concreto era familiar, mas era somente agora que prestava atenção nelas. Quantas vezes não as escutara na pista com todos os outros garotos? Porém, o que havia de diferente para que roubasse sua atenção? Não saberia responder. O garoto assobiava alguma coisa, provavelmente estava pensando numa próxima canção. A cola que os unia era essa, música. Que fazia com que suportasse os olhares estranhos, que alimentava sua esperança de ganhar respeito fazendo aquilo que nascera para fazer. Sabia também que a música era o caixote no qual Jonas podia subir e vislumbrar o que estava além da muralha formada pelos idiotas de sua escola e dos acontecimentos diários. A única coisa que faltava agora era que todo esse esforço chegasse até as mãos certas.

– Se fôssemos trabalhar num álbum, o que você acha que poderíamos fazer? – perguntou ela.

Jonas deu de ombro e respondeu:

– O que quisermos. “Amber Webley EP” vai nos colocar no mapa e só precisamos continuar a mandar bem. O Hip-hop está morto e a velha escola está se aposentando, tudo o que a gente vê por aí é um bando de posers usando auto-tune.

Amber sabia disso desde que começara a se interessar por música, que os artistas estavam mais preocupados em chamar atenção do que em fazer música de verdade. Em que a cada esquina havia uma Nicki Minaj fazendo qualquer coisa que não era rap, enquanto Missy Elliot estava parada. Seu irmão comentara certa vez que quando uma coisa se tornava famosa demais era natural que se diluísse. O mesmo acontecia no mundo dos livros e acontecera com o jazz e o rock.

Chegaram ao correio em menos de vinte minutos. Jonas pegou o disco e olhou para a garota dizendo:

– Você está pronta?

– Não, mas vamos acabar com isso de uma vez e começar a dominação global.

A dupla trocou um aperto e seguiu adiante. Ela com as mãos no bolso e ele com o skate debaixo do braço e um envelope. Não sabiam se aquele pequeno disco de plástico faria algum efeito ou se alguém o escutaria. Isso não fazia diferença, o importante era o sentimento que tinham naquele momento: como se estivessem na mesma altura que seus ídolos.

[1] O mesmo que Gangsta Funk. Foi o Subgênero principal do hip-hop mainstream durante um período que vai do lançamento de “The Chronic” de Dr Dre em 1992 até a queda da Death Row Records em 1996. Caracteriza-se pelo ritmo hipnótico, samples de P-Funk, sintetizadores e vocais femininos.