A Morte é Legal
Capítulo DEZESSEIS
Eu sou um peixe e meu agosto não tem luzes, tarde demais.
Astrophel via a cidade se movendo trinta andares abaixo. Os pensamentos conflitantes em sua cabeça enquanto o olhar pescava os acontecimentos noturnos de forma distraída. A sacada do moderno apartamento era castigada por ventos frios e ele não se importava muito, apenas segurava o casaco um pouco mais rente ao corpo. Talvez não chovesse aquela noite, pensou, apenas por aquela noite. Passara alguns minutos lendo a previsão do tempo no jornal, mas não se recordava de nada do que vira por lá. Mais de cinco graus, menos de cinco? Dias de sol, não os via há algum tempo. Olhava a cidade aberta, encarava aquela prisão. Lembrou-se do Príncipe Hamlet e de como ele proclamara que se não fossem os maus sonhos que tinha, sentir-se-ia rei de espaços infinitos mesmo que confinado numa casca de noz. Suspirou. Estava dentro da casca e mesmo assim os pesadelos persistiam.
Apertou as mãos na pedra da sacada até que os nós dos dedos ficassem brancos. Vinha se dedicando tanto a encontrar os nomes para salvar Stella e tudo levava a uma montanha de nada. Era difícil afirmar qual profundeza ele não sondara e qual livro não folheara. Consultara os espíritos dos mais sábios da Antiguidade, os elementais em suas florestas, lagos e montanhas. E nem uma pista sobre como encontrar o primeiro nome e salvar a mulher que amava.
– Você precisa descansar.
Estava tão concentrado em seus pensamentos que não vira Stella se aproximar. Enxugou uma lágrima insurgente e virou-se para ela. É uma noite fria, disse ele tirando o casaco e colocando sobre ela, você não deveria vir até aqui desse jeito. Ela não lhe respondeu, apenas ficou ao seu lado na varanda com um sorriso. Permaneceu ali, serena, frágil e envelhecida.
Abraçou-a. Astrophel olhou para o reflexo de seu rosto num dos vidros e foi atingido por uma pontada de remorso. Era por sua causa que ela se encontrava naquela situação, tendo abandonado a imortalidade das fadas do fogo para lhe dar uma vida longa e eternamente jovem. Ele a amava em tempo integral, mas às vezes não gostava dela, afinal, a face de Stella funcionava como um memorial erguido ao seu egoísmo de ter permitido que tudo chegasse tão longe.
– Você se lembra de um verão que passamos com amigos no castelo do Barão das Névoas ... ou foi um inverno, estou um pouco confusa. Foi naquela época em que podíamos ter amigos, você se lembra, meu amado?
Astrophel balançou a cabeça numa negativa e respondeu:
– Lamento, mas eu não me lembro... O tempo é o ladrão da mente. Mas se é você é capaz de se lembrar, quer dizer que vale a pena saber, conte-me o que aconteceu.
Astrophel sentiu um leve estremecimento quando ela segurou-lhe o rosto e com olhos brilhantes, começou a contar a história. Eu não era farta de dias e nem você o era, disse ela, ainda estávamos em um de nossos primeiros invernos juntos, perdoe a minha memória se eu me esquecer de algo. Você e os outros homens saíram para caçar uma raposa na floresta que ficava lá perto. Eu te esperei durante muito tempo e continuei esperando quando a neve começou a cair e todos os outros voltaram, exceto você. Ficamos esperando durante muito tempo, querido, muito tempo. Todos faziam planos sobre sair à sua procura quando a nevasca parasse, mas ela não parava e éramos obrigados a ficar na casa, ouvindo os ventos correndo. Sim, eu me lembro agora, seu cavalo voltou sem você e um dos cavalheiros lhe deu como morto, vítima de algum infeliz acidente. Mas eu não poderia acreditar nisso, seria demais para mim. Depois de enfrentar um mar de oposições, tomei um casaco, ainda pouco acostumada com o frio desse mundo, e saí contra a branquidão. Eu andei e andei até quase perder as esperanças e imaginar se minha família aceitaria uma filha arrependida. Depois de mais algumas horas encontrei você rente a uma árvore, a raposa morta ao seu lado, e os cinco filhotes dela encolhidos ao seu redor. Você havia tirado o seu casaco e improvisado um ninho para elas, querido... Você pedia desculpas por ter-lhes tirado a mãe. Não sorria desse jeito, é a mais pura verdade. Eu te dei o meu casaco e te levei para a casa, o que não foi serviço dos mais fáceis. Você permaneceu desacordado por dias e mesmo assim perguntava pelas raposinhas, meu amor.
Astrophel sorriu e perguntou:
– O que fez com que você se lembrasse disso?
– Eu te observava. Você tinha o mesmo aspecto daquele dia. Hoje é uma bela noite, não é?
– Sim, é – focou a vista ao longe, na enorme torre iluminada que ficava quase no fim da cidade, então suspirou e respondeu: – Eu acho que sei o que fazer para te salvar. Eu juro que tentei pensar em alguma outra coisa, mas não temos mais nenhum recurso se quisermos vencer a filha da Morte.
– O que você está querendo dizer com isso?
Ele viu a expressão da esposa mudar de leve divertimento para tensão silenciosa. Ela o encarava com seus grandes olhos vermelhos e penetrantes. Fez esforço para não desviar o olhar e tentar dizer exatamente o que estava passando por sua mente. Não podia deixar que o medo que sentia transparecesse, não podia permitir que ela soubesse que estava assustado, ou isso poderia deixá-la pior. Tomou as mãos dela e respondeu:
– Estamos perto dos nomes e de salvar sua vida. Sabemos que estão aqui, mas não é o suficiente. Precisamos jogar sujo ou a filha da Morte os encontrará antes de nós. Eu não permitirei isso.
– Você ainda não me falou o que pretende fazer.
Astrophel pressionou os lábios e voltou para a sacada. A possibilidade que estava aventando era perigosa e sabia que talvez pudesse não sair vivo no fim das contas, ou coisa pior. Fale o que está pensando, insistiu Stella mais uma vez. Ele suspirou e respondeu:
– Invocarei Mefistófeles, o demônio. Oferecerei um pacto a ele em troca da localização dos nomes.
Stella entrou na sua frente e segurou-lhe com força.
– Você não pode fazer isso, demônios são vermes traiçoeiros, você não pode se arriscar dessa forma. Eu não abandonei o meu povo apenas para vê-lo estragar sua vida. Astrophel, reconsidere, deve haver outra saída.
– Eu saberia se houvesse. Lamento muito, meu amor... É um momento em que precisamos ser mais ousados. Acredite em mim, venceremos – respondeu, numa voz entrecortada.
Abraçou-a sem permitir que ela soubesse que mentira. Não tinha a mínima certeza de que venceria. Nada. Tinha esperança, mas não poderiam viver disso. Também não contou que mentira sobre a história que ela contara. Lembrava-se de tudo. Ela se esquecera de uma parte importante da narrativa. O momento em que partiu o pescoço de cada um dos filhotes porque não havia mais nada que pudesse fazer por eles. Ainda ouvia o som dos ossos se partindo com um estalo. Abraçou Stella com mais força. E quando nenhuma solução se apresentasse para ela? Fechou os olhos, preferia não pensar nisso. Pequenas raposas uivavam dentro de sua cabeça.