A Morte é Legal
Capítulo VINTE
Sim, eu peguei o que era seu, você estava usando errado.
Crianças corriam pela avenida e se aglomeravam na rua de Mirtza Sosostriz. Andrew reconheceu os rostos de algumas delas como estando presentes na praça anteriormente. Também podia avistar outras que vinham ao longe. Gritos e choros podiam ser ouvidos enquanto os mais velhos tentavam acalmar os mais jovens da forma como podiam. Andrew viu Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido conversando com Pirrip e Nina, estava desgostoso em ter que sair dali para levá-los até o ponto indicado pela bruxa.
– Precisamos ir agora! – gritou o garoto ruivo.
– Aí está uma coisa com a qual eu concordo – disse Prozy.
Pediu para que o garoto indicasse o caminho e puxou Ive para perto de si. Mais e mais crianças chegavam com os rostos sujos e joelhos machucados, vinham caindo e se atropelando. Uma sirene tocava e uma voz escapava de um alto falante em algum lugar, mas longe demais para entender o que dizia.
Andrew tinha um mau pressentimento enfiado na garganta. Despediu-se de Horatio e das outras crianças e segurou a mão de Ive. Não fique com medo, Andy, vai dar tudo certo, murmurou ela em resposta. As crianças desejaram boa sorte e pediram para que fizessem uma nova visita numa ocasião melhor. Andrew tinha certeza de que essa era a última coisa que queria fazer na vida. Viu Yorick ajeitar seus óculos de aviador e gritar para que corressem. Estavam prontos para começar.
Havia um aperto em seu coração, um suor frio que escorria pelas costas e a sensação de que alguma coisa não estava certa. O sentimento de que seu universo interior estava fora dos eixos.
Andrew pensou por um momento que suas pernas não fossem obedecer, mas elas deram um passo após o outro e dessa forma o pequeno grupo foi deslizando por entre a multidão que vinha no sentido inverso. Dezenas de cataventos no chão iam sendo quebrados. Os prédios iam passando ao seu lado sem que o jovem registrasse nenhum deles com o olhar. Passavam por uma rua deserta e escura, sons mais altos.
– Eu te compenso por isso quando chegarmos a Dresbel, Andy – disse Ive. – Um pote de sorvete por minha conta.
– Se chegarmos – respondeu Prozy, que corria aos pés de sua dona.
A cidade sem crianças era uma visão estranha. Hoon era um mausoléu e cada esquina parecia lamentar isso. A corrida por entre becos e ruelas não ajudava a amainar essa impressão. Detiveram-se numa bifurcação e avistaram a praça mencionada por Mirtza. Ela juntava as avenidas principais da cidade e no centro estava a fonte que os levaria para casa. Silêncio. Esculturas e velhos cafés abandonados dividiam a vista. Yorick colocou a cabeça num canto, olhou para os dois lados e, com um pequeno sorriso, disse:
– Eu prometi a bruxa que levaria vocês até lá, acho que vou conseguir sem problemas. Sinceramente, quando tudo isso acabar, vou pedir a Mary que crie novas invenções para manter o povo grande longe daqui... E também vou preparar uma grande festa para celebrar a vitória de hoje.
Andrew observou sua amiga afagar a cabeça do menino antes que começassem a andar em direção a fonte. Uma pequena emoção crescia dentro dele, estava quase voltando para casa. Começaram a rumar para a praça. Ao olhar para o lado, viu a expressão de alívio surgir no rosto de Yorick. Ive era outra que parecia estar menos tensa, embora às vezes fosse difícil perceber o que ela sentia ou pensava.
– Hora de nos despedir uns dos outros – disse a filha da Morte. – Espero poder voltar aqui e experimentar aquela receita de Mirtza, o doce de quimera...
Ive não teve tempo de terminar o que estava dizendo, pois a praça começou a ser invadida por adultos em todas as direções, vinham em grandes jipes, triciclos ou a pé. Seus rostos eram pintados de branco e preto, usavam nariz de palhaço, vestiam ternos pretos e idênticos chapéus. Riam e causavam destruição na praça, quebrando vidros e pichando estátuas. Um grupo de quatro homens e uma garota grávida carregava uma mulher gorda num caixão, a velha berrava impropérios e maldições. Aquela é a Addie Peixe-Morto, disse Yorick cheio de medo, é a matriarca deles.
Andrew sentiu seu estômago dançar. Estavam cercados por todos os lados e o cerco ia se fechando cada vez mais. Os adultos gritavam e gargalhavam para o pequeno grupo. O caixão da velha foi posto no chão e ela se colocou de pé, olhando para o grupo, gritou:
– O meu pai já havia me dito que eu deveria estar preparada, oh, eu estou, estou, estou. Yorick, o destino finalmente colocou você no meu caminho para que possa ser educado convenientemente.
– Eu nunca irei para sua cidade nojenta! – respondeu Yorick.
A multidão riu da bravata infantil. Andrew viu que não seria possível atravessar toda aquela multidão e chegar até a ponte. Olhou para Ive em busca de ajuda, a garota tinha o rosto tenso e olhava em todas as direções à procura de uma saída.
– Andy, eu preciso que você corra quando eu mandar, leve Prozy – disse ela. – Vou tentar criar bastante confusão aqui.
O jovem pegou a coelha em seus braços e segurou a mão de Yorick. Olhou para a fonte e torceu para que nada desse errado. Lutava contra as lágrimas presas no canto dos olhos. Observou Ive fazer alguns movimentos com as mãos, uma mistura entre dança e alguma arte marcial. Era a primeira vez que Andrew via a garota demonstrar tanto prazer em alguma coisa. Seus olhos pareciam maiores e brilhantes, seu sorriso era ameaçador.
– Corra! – gritou Ive.
Andrew obedeceu imediatamente e tudo foi imerso em caos. Vidros que explodiam e o som precipitado de gente que ia ao chão como pinos de boliche. O jovem assistia a tudo como que num sonho, tentando se refazer do pânico que invadia seu espírito. De repente, viu perto de si uma claridade, enormes labaredas verdes acertavam os adultos assustados. Ive causava uma destruição sem precedentes e algumas pessoas eram queimadas até as cinzas. Um festival de destruição. Então esse é o poder da Princesa do Fim Inevitável, pensou um Andrew assustado.
Iam empurrando e chutando quem estivesse na frente. Addie Peixe-Morto exigia que alguém detivesse a garota e que capturasse o garoto ruivo a qualquer custo. Andrew soube o que era desferir um soco quando alguém segurou seu braço.
Havia uma adrenalina subindo pelo seu corpo, uma única palavra vibrava na freqüência baixa de sua mente: casa.
A fonte não estava longe, iriam conseguir. Estava na metade do caminho quando algo chamou sua atenção, não havia mais nenhum adulto gritando em dor e nenhuma chama verde pelo ar. Virou a cabeça e entendeu o motivo: Alguém acertara uma pedra na cabeça de Ive, que estava ajoelhada e segurada por dois homens fortes.
Andrew, Yorick e Prozy ficaram estacionados, sem nenhuma alternativa. Addie Peixe-Morto ria e batia palmas.
– Eu não preciso de vocês, coisas médias que não são nós nem eles – dizia a mulher. – Eu só quero o ruivo. Eu fico com ele e o caminho estará livre, caso contrário, o seu intestino verá a luz do sol. Não é muita coisa.
Yorick segurou forte em sua mão e implorou cheio de água nos olhos:
– Não deixe ela me levar, irmão-médio, não deixe. Ela quer me educar. Ela quer me educar, por favor, não deixe ela me levar, por favor.
Olhou para Ive e sentiu uma urgência em querer ajudá-la, sua amiga estava sangrando e não podia fazer nada. Andrew tinha a impressão de que havia acordado de um pesadelo apenas para descobrir que estava em outro. Não queria saber o que motivava uma briga tão grande entre aquelas duas cidades. Deixou que seus olhos repousassem sobre Yorick. Ele era um bom garoto que havia se arriscado para que chegassem até ali, não poderia simplesmente entregá-lo. Pôs a mão sobre o ombro dele.
– Por favor, não deixe ela me levar.
Pôde ver que Ive tentava se debater para usar alguma magia, mas era brutalmente impedida. Não sabia qual deveria ser sua conduta. Salve o garoto. A ordem era repetida vezes seguidas por sua razão. Ouvia as pessoas rindo de sua indecisão. Lembrou-se do porque estava ali, naquela situação.
– Ajude-me, irmão-médio.
Náusea. Começava a pensar em coisas que não devia pensar. Aferrava-se ao pensamento de que estava numa luta maior. Talvez um pouco de educação não fizesse tão mal assim ao garoto. Sempre estudara com afinco na escola e se tornara uma pessoa melhor por causa disso, pensou Andrew.
– Ajude-me, por favor.
Por algum motivo qualquer, lembrou-se da Segunda Guerra Mundial. Cerca de trinta e sete mil pessoas haviam morrido na Batalha da Normandia, contudo, essas baixas pavimentaram o caminho para que os Aliados vencessem a guerra. E Andrew estava numa guerra. Era um garoto em busca da felicidade e no caminho para ficar com seu amor. Sempre fora uma boa pessoa, agora, precisava fazer o que era bom para si.
Respirou fundo e antes que pudesse perder a coragem, segurou Yorick pelo colarinho da jaqueta.
– Eu vou entregá-lo a você, mas deixe que a minha amiga venha até aqui – disse Andrew.
– Não faça isso, moleque! – gritou Prozy.
Houve barulho e festa da parte dos habitantes de Yoknapatawphaa Jr. Eles gritaram e bateram palmas. Andrew cerrou os olhos. Sentia Yorick tentando se soltar, gritando e chorando. O jovem estreitou seus pensamentos para que ignorasse aquilo. Uma perda de sensibilidade consciente. Não queria pensar no que estava fazendo. Queria sentir-se como um operário que recebe a ordem de trocar o motor de um carro.
– Você fez a escolha certa – disse Addie Peixe-Morto. – Deixem que a garota ande!
Andrew segurou o colarinho do garoto com mais força, com toda a energia que tinha dentro de si. Saliva escapava por entre seus lábios por causa do esforço. Fixou seus olhos adiante enquanto Ive era erguida do chão e amparada por um dos homens. Ela se locomovia com dificuldade. Qual era a expressão que ela tinha no rosto? Desgosto pela sua atitude? Ou seria apenas dor? Não sabia. Um momento longo que proporcionava o conforto de gás mostarda. Ela caminhava num passo lento, e parava, fazia um esforço e continuava.
Quando ela estava perto o suficiente, o homem que a amparava, disse:
– Parabéns pela sua atitude, têm o coração de um dos nossos.
Andrew não respondeu nada, apenas tomou a mão da garota e deixou que o homem pegasse Yorick e enfiasse num enorme saco preto que tinha nas costas. Podia escutar cada grito da criança. Queria que o garoto xingasse, amaldiçoasse e falasse os palavrões mais terríveis, mas Yorick Cabeça-de-Chiclete-Doido não fez nada disso, apenas implorou para que o irmão-médio o salvasse.
– Você fez o que precisava fazer – disse Ive. – Vamos, temos que ir para casa.
O jovem não respondeu coisa alguma. Optou por um silêncio ferido. Foi seguindo o espaço aberto pelos adultos que lhe davam tapinhas nas costas. A fonte estava logo ali, com suas águas que o levariam de volta para casa. Cansaço. Uma prisão na Sibéria não seria pior do que os pensamentos que tinha. Tentou pegar Prozy, mas a coelha se afastou do seu toque. Não estava correndo atrás do seu sonho? Então por que aquele mal– estar?
Deixou que a filha da Morte liderasse o caminho. Em breve estaria fora daquele mundo. Sua única especulação era se aquele mundo sairia dele.