A Morte é Legal

Jim Anotsu · Capítulo 35 de 79

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A Morte é Legal

Capítulo TRINTA

Existe um movimento que não se pode ver, uma dança que porcos

cantam.

 

Um dia como todos na história da humanidade. O sol se erguera num lado e se pusera no outro – sem falta – como fazia todos os dias. Absurdamente comum em todas as suas vinte e quatro horas. Com tudo aquilo a que tinha direito: movimentos, acidentes, mortes, risos e nascimentos. Tudo estava exatamente como deveria ser, embora, houvesse divergências nesse ponto. O que distingue uma data do ano de outra qualquer, é a importância que se atribui a ela. Um veterano de guerra talvez seja acometido por memórias em determinada época, ao relembrar o dia de seu alistamento ou o desembarque de sua tropa. Uma pessoa pode se lembrar de onde estava quando alguma personalidade importante morreu ou quando conheceu o amor de sua vida. Para Astrophel, aquele era o dia em que celebrava mais um ano de casamento com Stella.

Astrophel passou a mão pelo rosto deixando que as unhas arranhassem a carne, como se uma dor pudesse aliviar outra. Atirou a garrafa de uísque que tinha em mãos na parede e sentou-se no chão da cozinha, encarando a chama do fogão enquanto a água era fervida. Seus olhos ardiam e o cansaço fazia com que cada músculo de seu corpo se retesasse como as cordas de um violino. Dormira mal nos últimos quatro dias, desde que voltara do cemitério sem o primeiro nome e com sua esposa ferida. Era como estar em coma debaixo d’água.

Os últimos eventos passavam pela sua cabeça de forma incessante. A imagem de Stella pendurada numa árvore com um destaque maior do que o desejado. Aquela falha significava que sua alma estava mais próxima do Inferno. Nunca fora religioso em toda a sua vida, mas não conseguiu evitar fazer uma prece para que conseguisse resolver tudo aquilo sem matar muitas pessoas. Embora tivesse a intenção de infligir o maior sofrimento possível à filha da Morte e ao amigo dela. Tudo parecia tão sem vida... Os aposentos vazios, os livros espalhados e os rostos austeros das pinturas que o encaravam. Nisto, como acontece com as pessoas que saem de um devaneio vívido e se surpreendem por terem dedicado muitas horas alheias à realidade – ergueu-se do chão e foi terminar de preparar o chá de sua esposa.

Despejou a água quente na xícara abarrotada de folhas prateadas e agitou levemente. A infusão devia ser feita com o máximo de cuidado possível, caso contrário, o chá não faria efeito algum. Trabalhou naquilo durante mais algum tempo. Os pensamentos o levaram até seu velho amigo Lu Yu, ele sabia preparar chás como nenhuma outra pessoa. Gostaria que ele estivesse ali para ajudá-lo a salvar Stella. Carregou a tigela de chá com cuidado em direção ao quarto, lugar que tentava evitar nos últimos dias.

O quarto estava escuro e as enormes cortinas, cerradas. O ar estava abafado e apenas o som de uma televisão preenchia o espaço, uma reprise de “A felicidade não se compra”. A mulher deitada na cama e não notava a presença do marido entretida com o drama natalino de Frank Capra. Não conseguia entender o que fazia com que Stella assistisse a filmes bobos mais de uma vez. Ora, era o bastante para ela comer tortas e assistir a coisas velhas? Por acaso não sentia falta de seus poderes e das maravilhas que podia realizar?

Aproximou-se da cama tomando cuidado para não derramar nada. Stella havia notado sua presença e o seguia com um olhar curioso e sorrindo levemente.

– Chá de Austras Koks – disse ela. – Nunca gostei muito dessas, você sabe.

– Vai te ajudar a melhorar. Como você se sente? Eu prometo que farei com que ela pague pelo que fez a você.

Stella usou o controle remoto e desligou a TV antes de responder:

– Um pouco melhor, minha perna já não dói tanto. Nós tínhamos consciência de que isso poderia acontecer quando começamos a procurar por esses nomes. Infelizmente, não podemos no separar enquanto você luta sozinho, isso o mataria. É um risco que corremos – após uma breve pausa, acrescentou: – Você não tem se alimentado bem, querido. Quer assistir a um filme comigo?

– Você não sente raiva?

– Por que eu deveria sentir? As coisas acontecem, Astrophel, e não podemos alterar o passado. Esse é o grande problema de vocês, jovens, são muito impacientes. Quando realmente aprender isso, tudo ficará mais fácil – ela se ajeitou na cama e tomando um gole do chá, continuou – Ah, sempre tão amargo, mais de duzentos anos bebendo isso e nunca melhora. Querido, me leve até a sacada, quero ver as estrelas, não é agradável celebrar nosso aniversário de casamento numa cama.

Astrophel colocou Stella em seus braços. Ela era leve como uma pluma e magra, tão frágil, pensou ele, que um pouco mais de força quebraria seus ossos. Olhou para as linhas no rosto dela, a calma ali presente o desconcertava. Como ela conseguia permanecer tão serena quando tudo o que ele sentia era apenas um ódio frio e uma vontade gigantesca de machucar alguém? Andavam, andavam pelo piso de madeira; todas as gotas de chuva do céu caiam lá fora. Se ele a deixasse morrer, pensou, o seu destino seria o mesmo. Em determinados momentos, chegava a se cansar de estar vivo. Cansado da mulher em seus braços, cansado de si mesmo. Já vira civilizações se erguerem e todas as pessoas com as quais se importara nascerem e morrerem ano após ano. E se conseguissem salvar suas vidas? Estava dado a pensamentos demais. Ora, continuariam simplesmente a viver um dia após o outro.

– Astrophel – disse ela num tom distante. – Este mundo já pertenceu ao meu povo uma vez, vivíamos nos bosques e nos rios, os humanos nos respeitavam e adoravam. Tudo isso foi antes de novos deuses surgirem, antes que fôssemos caçados e expulsos e muito antes de as histórias começarem a morrer. Este mundo já foi bonito.

– Gostaria de poder ter visto – respondeu ele.

Stella pediu para ser colocada no chão e se segurou no parapeito. Observavam a noite acontecendo muitos andares abaixo. Tudo parecia tão certo e em seu devido lugar visto de cima. Você acha que ela gostaria de viver aqui, perguntou a mulher com os olhos fixos na distância. Não soube o que responder de imediato, fazia anos que não falavam sobre ela.

– Eu tenho certeza de que nossa pequena Anthea gostaria de ver esse mundo. É por isso que estamos lutando, meu amor. Para que possamos tê-la aqui. Sua mãe não nos separará dela para sempre. Precisamos apenas ter os nomes e tirar Mefistófeles do caminho.

Astrophel a abraçou e deixou que as lágrimas dela escorressem.

– E se não conseguirmos os nomes? Perderíamos tudo, até mesmo a menor das possibilidades de termos nossa filha de volta. Minha mãe é a Rainha das Fadas, ele não volta atrás em suas decisões, somos apenas criminosos aos olhos dela.

– Eu vou conseguir nos salvar, todos nós. Acredite em mim. Anthea estará conosco em breve e ninguém vai nos separar outra vez.

– Sabe o que é o pior de tudo? Eu não me lembro mais do rosto dela, nem do cheiro ou da cor dos cabelos, tudo se foi, tudo se foi.

Queria poder encontrar uma forma de fazer com que o sofrimento dela acabasse, queria fazer com que o próprio também encontrasse um fim. Mas naquele momento, não confiava em si mesmo para fazer isso. Tentava colocar os pensamentos abruptos que surgiam em ordem. Astrophel abraçou a esposa bem forte e sussurrou em seus ouvidos:

– Ela é linda. Tem olhos enormes, azuis e curiosos que brilham. Os cabelos dela tinham esses cachos que você passava horas enfeitando quando morávamos naquele castelo, lembra-se? Anthea corria por todos os cantos e tinha uma risada que fazia com que alguns duendes da região ficassem ali perto para pegar estilhaços do riso dela.

Astrophel sabia que essa garotinha que descrevera não existia mais e que Anthea já era uma mulher, que talvez nem soubesse sua verdadeira ascendência. Uma jovem que vivia na corte das fadas,destinada a ser a próxima na linha de sucessão e a caçar seus pais pelo crime de ter dado vida a ela. Não gostava de pensar nela dessa forma, preferia imaginá-la quando criança, sentada aos seus pés ouvindo poemas e histórias. O silêncio intenso ficou entre eles. Pensar em Anthea não era um consolo, mas, antes, fonte de dor ao conjecturar qual seria a realidade. Pôs-se a acariciar os cabelos de Stella. Gostaria de conseguir derramar uma lágrima como ela fazia, mas até isso lhe parecia vedado. Então, naquele tom de voz que uma pessoa tem ao dar seu último suspiro, disse:

– Feliz aniversário de casamento.

Era apenas mais um dia na história da humanidade.